Há discos que parecem nascer do seu tempo. Este parece ter tentado escapar dele. Em 1978, quando Portugal ainda estava a aprender a respirar depois de uma mudança política profunda, José Cid decidiu olhar para um futuro tão distante que a própria Terra já não era reconhecível. 10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte começa nesse lugar estranho, entre a ficção científica, o rock progressivo e uma ideia quase cinematográfica sobre o fim e o recomeço da humanidade.
O mais interessante é que a ambição não ficou apenas no conceito. O som acompanha a viagem. Mellotron, sintetizadores, piano, guitarras, baixo e bateria constroem um espaço musical amplo, por vezes solene, por vezes inquieto, onde José Cid canta em português uma história que podia ter sido imaginada muito longe daqui.
Um futuro inventado em Portugal
A história do álbum é simples na sua premissa e enorme nas possibilidades. Depois da autodestruição da humanidade, dez mil anos passam. Um homem e uma mulher regressam ao planeta com a possibilidade de começar novamente. A ideia permite a Cid falar de destruição, memória, esperança e sobrevivência sem ficar preso ao presente imediato.
É precisamente aí que o disco ganha personalidade. Não tenta fazer uma descrição tecnológica do futuro. O espaço serve antes como distância para olhar para aquilo que ficou para trás. O fim da humanidade torna-se uma espécie de espelho: quando tudo desaparece, o que merece ser recuperado?
A narrativa também dá ao álbum uma coerência que vai para além de uma coleção de canções. O Último Dia na Terra, O Caos, Fuga Para o Espaço, Mellotron, O Planeta Fantástico, 10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte, A Partir do Zero e Memos funcionam como capítulos de uma mesma viagem.
Quando o som também queria ir mais longe
O grande risco do disco está na música. José Cid não procurou apenas contar uma história futurista. Quis dar-lhe uma dimensão sonora à altura.
O Mellotron ocupa um lugar central, acompanhado por sintetizadores, piano e guitarras. Há uma procura evidente por ambientes largos, mudanças de dinâmica e uma espécie de dramatismo espacial que aproxima o álbum do rock progressivo europeu da época.
Mas há uma diferença importante: isto não é uma imitação confortável de um género estrangeiro. A língua portuguesa permanece no centro. A voz de Cid não tenta esconder a origem do disco. Pelo contrário, é justamente essa combinação entre uma linguagem musical internacional e uma identidade vocal portuguesa que lhe dá personalidade.
Ao lado de Cid aparecem Zé Nabo, no baixo e guitarras, Mike Sergeant nas guitarras e Ramon Galarza na bateria e percussão. O próprio Cid assume piano, sintetizadores, Mellotron, conjunto de cordas e voz, além da produção e dos arranjos.
Um disco maior do que o seu tempo
A história deste álbum também passa por uma contradição. A sua escala artística era grande, mas o contexto comercial português era muito mais pequeno. Estudos sobre o rock sinfónico e progressivo português dos anos 70 apontam precisamente para a reduzida circulação comercial destes trabalhos e para a importância que acabariam por adquirir posteriormente na memória da música portuguesa.
Talvez por isso a história do disco tenha ganho outra dimensão com o tempo.
A imagem pública de José Cid ficou inevitavelmente associada a uma carreira longa e a canções de enorme popularidade. Mas existe aqui outro Cid. Um músico interessado em estruturas mais ambiciosas, nos novos instrumentos electrónicos e numa ideia de álbum que não precisava de obedecer à lógica do single. O próprio percurso anterior, incluindo o Quarteto 1111 e o EP Vida (Sons do Quotidiano), ajuda a perceber que esta experiência não apareceu do nada.
Décadas depois, o álbum continuou a ser recuperado por públicos ligados ao rock progressivo. A RTP chegou a registar uma recriação integral do alinhamento no Coliseu dos Recreios, mais de 35 anos depois da edição original, sinal de que aquele universo ainda tinha espaço para regressar ao palco.
O futuro ainda não acabou
Talvez seja essa a melhor maneira de ouvir 10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte hoje: não como uma relíquia de ficção científica dos anos 70, mas como uma tentativa genuína de pensar o futuro através da música.
Alguns sons denunciam inevitavelmente a época. Os sintetizadores têm a textura do seu tempo, certas escolhas de produção pertencem claramente à década e a própria ideia de futuro carrega a imaginação tecnológica daqueles anos.
Mas o conceito permanece.
Um mundo destruído. Duas pessoas. Uma possibilidade de recomeço.
E, no meio disso, um músico português que decidiu construir uma viagem cósmica sem abandonar a sua língua nem a dimensão humana da história.
Talvez seja essa a verdadeira força do disco. Não ter previsto o futuro, mas ter percebido que imaginar o futuro é também uma maneira de perguntar o que queremos salvar do presente.
E dez mil anos depois, essa pergunta continua sem resposta.
