Quarenta e cinco anos depois de terem começado a escrever uma das páginas mais importantes do reggae canadiano, os Messenjah continuam a tocar, a compor e, sobretudo, a dizer aquilo que pensam. A nova canção, “No More”, chega com a mesma urgência que acompanha a banda desde 1981, mas também com a consciência de quem já atravessou quatro décadas de mudanças, palcos e transformações na música.
Formados em Kitchener, no Ontário, por Rupert “Ojiji” Harvey e Errol “Skippah” Blackwood, os Messenjah abriram portas para o reggae num país onde o género ainda procurava espaço. Foram a primeira banda canadiana de reggae a assinar com uma grande editora, passaram pelo lendário Reggae Sunsplash, participaram no filme Cocktail e tocaram para Nelson Mandela em Toronto. Pelo caminho, “Jam Session” tornou-se uma das canções mais marcantes da sua carreira e a banda recebeu um Juno Award.
Mas a história dos Messenjah não ficou presa aos anos 1980 ou 1990. A formação atual mantém Rupert “Ojiji” Harvey na liderança, acompanhado por Carl “Carlos Bandana” Harvey, dos Toots and the Maytals, na guitarra, Charles “Tower” Sinclair no baixo, Orville “Wyz” Malcolm nos teclados e Sammo “The Genius” na bateria. É uma formação que transporta memória, mas que continua a trabalhar no presente.
É nesse presente que surge “No More”, uma canção de resistência, consciência e afirmação. A mensagem é direta: chega de aceitar a destruição, a negatividade e o silêncio. Mais do que um regresso, a canção funciona como uma declaração de continuidade. Os Messenjah não estão a tentar recuperar o passado. Estão a dizer que ainda têm algo para acrescentar.
Nesta entrevista ao MusicaTotal.net, Rupert “Ojiji” Harvey fala sobre os 45 anos dos Messenjah, a origem de “No More”, a relação da banda com a Jamaica, a passagem pela Warner Brothers, os concertos que marcaram a carreira e a responsabilidade que continua a sentir enquanto músico e compositor.
Porque algumas bandas sobrevivem ao tempo. Outras continuam a ter alguma coisa para dizer. Os Messenjah parecem pertencer à segunda categoria.
Depois de mais de quatro décadas como banda, o que fez de 2026 o momento certo para os Messenjah lançarem “No More”?
Na verdade, já tínhamos começado a trabalhar em “No More” há algum tempo. Não planeámos uma data específica de lançamento para 2026. Tudo aconteceu naturalmente.
Grande parte disso esteve relacionada com o trabalho que estávamos a desenvolver depois do furacão na Jamaica. Quisha Wint, da QW Productions Corp., organizou um concerto de angariação de fundos no El Mocambo, onde fui convidado especial. Mais tarde, decidiu apresentar um espetáculo com Jason Wilson e os Messenjah no El Mocambo, em fevereiro de 2026, e esse acabou por ser o ponto de partida para tudo.
Por isso, não se tratou propriamente de escolher 2026 como o ano certo. As circunstâncias juntaram-se e a canção pareceu-nos adequada para este momento.
“No More” transmite uma forte mensagem de resistência e mudança. O que estava a acontecer nas vossas vidas e no mundo quando começaram a escrever a canção?
O que tornou esta canção tão adequada para este momento é simplesmente olhar para aquilo que está a acontecer no mundo. Existem tantos conflitos e tanta turbulência por todo o lado.
As pessoas estão fartas, nós incluídos, de toda a negatividade e destruição que acontecem no mundo. “No More” é a nossa forma de contribuir para o contrário, de dizer: “Vamos parar com isto. Basta.”
Se ouvirmos as palavras da canção, os Messenjah estão prontos para voltar à estrada. Isso não significa necessariamente viajar fisicamente por todo o lado. Significa levar as nossas palavras e a nossa mensagem ao mundo, espalhá-las e despertar as pessoas.
Sentem que a urgência que tinham quando os Messenjah começaram, no início dos anos 1980, continua presente na vossa música ou mudou com a experiência?
Continuamos a ter a mesma urgência que tínhamos quando começámos. Sempre dissemos que os Messenjah são como um jornal para a nossa comunidade e para a nossa cultura.
Não mudou muito no que diz respeito à nossa responsabilidade. Se alguma coisa mudou, é que parece que as coisas ficaram ainda piores. Mas o trabalho não termina. Continuamos com o mesmo espírito que tínhamos quando começámos e, sinceramente, penso que esse espírito é agora ainda mais forte.
Os Messenjah foram pioneiros do reggae no Canadá e tornaram-se a primeira banda canadiana de reggae contratada por uma grande editora. O que significou essa conquista na altura e como olham para ela hoje?
Assinar com a Warner Brothers naquela altura foi incrível. Éramos um grupo de jovens que simplesmente gostava de tocar música. Gostávamos uns dos outros, gostávamos da companhia uns dos outros e vínhamos de contextos culturais muito semelhantes. Tínhamos ouvido muitas das mesmas histórias enquanto crescíamos e essa experiência partilhada motivava-nos.
A disciplina que desenvolvi durante o meu período com os Crack of Dawn, que já eram uma banda muito bem-sucedida, também me deu uma boa compreensão de como funcionava a indústria da música.
Assinar com a Warner Brothers mudou as nossas vidas. De repente, quando se tratava de fazer digressões e trabalhar com boas agências, já não tínhamos de fazer tantas chamadas. Eram as pessoas que nos telefonavam. Tínhamos apoio para as digressões, um autocarro de digressão, uma equipa de estrada e tudo o que vinha com estar numa grande editora.
Sentimos alguma falta de algumas dessas coisas, mas está tudo bem. Começámos numa cave, por isso sabemos de onde viemos.
Tocaram no Reggae Sunsplash e chegaram mesmo a atuar para Nelson Mandela, em Toronto. Que momento da vossa carreira continua a ter maior impacto emocional em vocês?
Diria que ambas as experiências foram muito importantes nas nossas vidas e carreiras.
Voltar à Jamaica foi muito significativo porque foi lá que começámos e queríamos perceber se seríamos aceites naquele país. Na realidade, tocámos lá duas vezes nesse ano. Antes disso, tínhamos atuado no World Youth Festival e recebido uma excelente reação. Também tocámos em alguns clubes pela ilha e tivemos oportunidade de conhecer alguns familiares. Foi uma experiência fantástica.
Tocar para Nelson Mandela também foi incrível. Sempre foi um herói para nós e vê-lo no palco a dançar connosco foi, sem dúvida, um daqueles momentos que nos arrancou sorrisos.
Por isso, diria que ambos ocupam esse lugar para mim. Foram dois momentos muito especiais.
Rupert “Ojiji” Harvey está no centro dos Messenjah desde o início. Como mudou o seu papel enquanto músico e compositor ao longo destes 45 anos?
A colaboração tem sido uma palavra-chave nos Messenjah desde o início. Todos contribuem.
Provavelmente fui o mais prolífico no que diz respeito à componente lírica e melódica da composição, enquanto os restantes músicos contribuem fortemente para a parte musical.
O meu irmão traz essa vertente rock para a banda. Sempre fomos uma espécie de banda de reggae com uma forte influência rock e sempre procurámos ser nós próprios.
Algumas pessoas dizem que soamos como algumas bandas britânicas de reggae e penso que isso faz sentido, porque os dois grupos de pessoas vieram da Jamaica para países estrangeiros e desenvolveram novas experiências através dos ambientes em que cresceram. O rock e o R&B também foram influências muito importantes.
Carl “Carlos Bandana” Harvey traz consigo uma ligação ao legado dos Toots and the Maytals. O que acrescenta essa colaboração ao som e ao espírito dos Messenjah?
A ligação do meu irmão aos Toots and the Maytals traz outra parte importante dessa história musical para os Messenjah. Na verdade, ele ajudou a dar aos Toots and the Maytals uma espécie de vertente rock durante o período em que esteve com eles.
Essa influência rock também faz parte do som dos Messenjah desde o início, por isso a sua experiência e formação musical encaixam naturalmente naquilo que fazemos.
Como descreveria o som de “No More” a alguém que está a descobrir os Messenjah pela primeira vez?
O nosso som é agressivo e direto. Logo desde o início de “No More”, ouve-se a mensagem: “Mantenham-se firmes, todos.”
Não estamos aqui para brincar. Como dizemos na Jamaica, “we nah skin teet”! Estamos a ser diretos em relação à mensagem e a levá-la para a frente.
O nosso baixista, Charles, gosta de puxar pelo groove e consegue sentir-se esse batimento cardíaco ao longo de toda a canção. Não há como não perceber que estamos a levar a mensagem diretamente ao coração.
A cena reggae no Canadá mudou consideravelmente desde que os Messenjah começaram. O que pensa que se ganhou e o que se perdeu ao longo dessas décadas?
É uma pergunta difícil. Quando olho para o que está a acontecer atualmente no reggae, especialmente a nível local, não vejo tanta atividade como gostaria.
Uma das coisas que sempre distinguiu os Messenjah é que não estamos propriamente preocupados com o comercialismo. Preocupamo-nos com a mensagem.
Se essa mensagem nos levar a uma plataforma nacional ou internacional, ótimo. “Jam Session” levou-nos a uma plataforma nacional e “Cool Operator” chegou ao número um na região do Pacífico Sul. Não planeámos nenhuma dessas coisas. Simplesmente escrevemos as canções e deixámos acontecer o que tivesse de acontecer.
Não estou à procura de uma determinada exposição ou posição. É o que é. Nós somos quem somos.
Depois de 45 anos, o que ainda vos entusiasma quando entram num estúdio, escrevem uma canção ou sobem ao palco?
Entrar no estúdio e trabalhar em novos projetos será sempre emocionante para nós porque, no fundo, somos apenas músicos.
Não somos necessariamente um projeto comercial, embora essa dimensão exista para qualquer músico. Para nós, trata-se da nossa música e da nossa mensagem e tem sido assim desde a infância.
Nada mudou e penso que é por isso que a fórmula dos Messenjah funciona. Apesar de, ao longo dos anos, terem existido muitas mudanças nas pessoas que integram a banda, os Messenjah continuam a representar exatamente a mesma coisa que representavam no primeiro dia.
Se “No More” é o início de um novo capítulo para os Messenjah, o que gostariam que esse capítulo dissesse sobre a banda e a sua música?
Diria que a resposta está na canção “We Return”.
Nós voltamos. Estamos de regresso, prontos para deixar novamente a nossa marca neste género musical, sem copiar ninguém e sem pedir desculpa.
Nós somos quem somos.
