Em palco, Mimicat gosta do brilho, do glamour e da teatralidade. Mas, na digressão «Pouco a Pouco», escolhe aproximar-se do público de outra forma: ao piano, através das canções, das memórias e das histórias que ajudaram a construir o seu percurso. Um espetáculo mais intimista, onde a voz ganha espaço e a distância entre a artista e a pessoa se torna mais pequena.
Nesta conversa com o MusicaTotal.net, Mimicat recorda as dificuldades da infância, fala do papel do amor nos momentos mais duros e explica como a música pode criar ligações que ultrapassam o palco. Entre canções ainda por lançar, histórias familiares e encontros com pessoas que encontraram na sua música um pedaço das próprias vidas, a artista revela o lado mais pessoal de uma digressão que procura deixar marcas para lá do último acorde.
A digressão chama-se «Pouco a Pouco». O título sugere tempo, descoberta e uma aproximação gradual. O que significa para ti esta expressão e de que forma representa o momento que estás a viver enquanto artista?
A tour chama-se «Pouco a Pouco» porque foi exatamente assim que tudo aconteceu. O meu percurso foi sendo construído pouco a pouco, e a minha evolução enquanto artista também. Fui descobrindo e absorvendo coisas de cada experiência, de cada teste e de cada experimentação que fiz com a música, com a performance e com a escrita. No fundo, quero apresentar isso às pessoas. Quero que percebam que os artistas não se criam de um momento para o outro.
Estamos a falar de alguém que subiu o pulso e fez a maioria das coisas a partir da sua própria cabeça, mas que também teve a sorte de encontrar pessoas. Fui construindo este caminho pouco a pouco, com pessoas que foram chegando e acreditando em mim. No fundo, essa atmosfera passa para as canções que apresentamos no concerto.
Depois de atuares em palcos de diferentes dimensões, decides agora apostar num formato mais intimista, pensado para auditórios. O que sentes que consegues mostrar neste contexto que nem sempre é possível num concerto de maior dimensão?
Acho que é impossível não nos sentirmos influenciados pela energia que o público nos dá, mas o que é facto é que o público também reage àquilo que nós damos. Acima de tudo, entrego muita verdade, porque, para mim, não há outra maneira de trabalhar e de me apresentar. Acho que as pessoas reagem muito a essa verdade.
É um feedback constante, um ciclo entre mim, o público e até o pianista. É um espetáculo muito pessoal e intimista, passando aqui a redundância. O público tem um papel preponderante, mas, claro, o espetáculo não depende apenas daquilo que as pessoas me dão à partida.
Provoco reações, faço perguntas e falo diretamente com elas. A ideia é que aquilo que estou a despertar no público volte para mim e que estejamos ali, durante aquela hora e meia, completamente envolvidos uns nos outros.
A cenografia de «Pouco a Pouco» inspira-se no ambiente de uma casa. Porque escolheste este cenário e que papel tem o espaço físico na forma como queres que o público viva o espetáculo?
Quero que as pessoas se sintam mesmo em casa. Não quero um cenário ostensivo para esta tour, muito pelo contrário. Venho de uma família pobre, cresci com roupa estendida na rua, com animais e a sonhar no meio de tudo isso. Cresci no tédio, a olhar durante muito tempo para o vazio e para o céu, e quero que as pessoas sintam um bocadinho disso.
Apesar de aparecer sempre com vestidos muito glamorosos, existe esta mistura entre alguém que adora brilho, glamour e uma estética muito inspirada nos anos 50, bastante vistosa, e alguém que se comporta de uma forma muito teatral, mas que vem dali.
Quero que as pessoas conheçam, no fundo, a minha casa, o lugar de onde vim. Este cenário leva-me de volta a casa e às memórias da minha infância.
Nesta digressão, a música divide o palco com histórias e momentos de conversa. São episódios que fazem parte do teu percurso, memórias associadas às canções ou revelações que normalmente ficam fora dos concertos?
É uma mistura de todas essas coisas. Há muita interação com o público e muitas gargalhadas, porque gosto que as pessoas façam parte do espetáculo. Mas também existem momentos mais sérios e introspectivos, em que falo sobre histórias densas e impactantes para muitas pessoas.
Por vezes, são histórias e canções que põem o dedo na ferida e levam as pessoas de volta a memórias que não são propriamente agradáveis de recordar. Mas acredito que é preciso passar por isso para que possa haver uma cura, uma sensação de resolução e a possibilidade de seguir em frente.
As peças estão lá para contar essas histórias, mas também há muita coisa que não está nas peças e que surge através das canções. É uma mistura de tudo isso. É literalmente um universo.
As canções podem ganhar significados diferentes consoante o lugar e a forma como são interpretadas. Houve temas do teu repertório que descobriste de outra maneira ao preparares este espetáculo?
Estas canções estão a ser apresentadas quase na sua forma original. Não sou pianista, não toco piano particularmente bem. Toco o suficiente para me acompanhar e para escrever as minhas canções, mas a maioria delas nasce ao piano. Por isso, este espetáculo é um bocadinho um regresso às raízes.
Quero mostrar às pessoas o essencial de uma canção e a delicadeza e a beleza que pode ter uma música que, na sua versão original, é apresentada com uma produção gigantesca e muita força. Quando a despimos e a levamos ao piano, ganha outra energia e conduz as pessoas para outro universo. É precisamente esse universo que quero mostrar.
Quando estás num palco mais próximo das pessoas, também ficas mais exposta aos seus olhares, reações e emoções. Essa proximidade altera a forma como interpretas as canções ou a maneira como te relacionas com o público?
Acho que é impossível não nos sentirmos influenciados pela energia que o público nos dá, mas o que é facto é que as pessoas também reagem àquilo que nós damos. Acima de tudo, entrego muita verdade, porque, para mim, não há outra maneira de trabalhar e de me apresentar.
Acho que as pessoas reagem muito a essa verdade. Existe um feedback constante, um ciclo entre mim, o público e até o pianista. É um espetáculo muito pessoal e intimista, em que o público tem um papel fundamental, embora tudo não dependa apenas daquilo que as pessoas me dão à partida.
Provoco reações, faço perguntas e falo diretamente com elas. Quero que aquilo que estou a despertar no público volte para mim e que estejamos ali, durante aquela hora e meia, completamente envolvidos uns nos outros.
A tua identidade artística cruza diferentes referências e uma personalidade cénica muito própria. Num espetáculo mais despido, o que permanece essencial na Mimicat quando se retiram alguns dos elementos visuais e cénicos que acompanham as tuas atuações?
Na verdade, não sinto que se retire alguma coisa neste espetáculo. Muito pelo contrário. Continuo a ter uma postura muito teatral e performativa, e o mesmo acontece com a minha voz.
Acho que o facto de ter mais liberdade, por estar apenas com piano e voz, me permite acrescentar outras camadas e explorar uma dimensão mais performativa, também através da voz. Acabo por mostrar coisas que as pessoas talvez não soubessem que existiam.
Encontro muita gente que, no final dos concertos, me dá esse feedback. As pessoas ouvem as músicas produzidas, veem as atuações na televisão, mas nem sempre fazem ideia de como soam quando existe apenas um instrumento e a própria voz como elemento central.
Uso a minha voz como instrumento para tudo, para falar e para cantar. Por isso, acho que não se perde nada. Muito pelo contrário, ganha-se.
Existe alguma canção tua que, ao vivo, te obrigue sempre a regressar a uma memória, a uma pessoa ou a um momento específico da tua vida? O que acontece contigo quando chega essa parte do concerto?
Existe uma canção especial chamada «Argolas», que ainda não lancei, e que conta a história real da minha avó, que vendeu umas argolas de que gostava muito para dar de comer aos filhos.
A história remonta a uma época muito difícil para a minha mãe, uma fase bastante triste, mas também a um período em que eu própria passei por muitas dificuldades com os meus pais. O que nos salvou foi o amor, e esse foi o grande ensinamento que retirei dessa época. A minha mãe sempre fez questão de me transmitir que, onde houver amor, nunca haverá fome.
Até a fome física, aquela que sentimos no estômago, pode ser um bocadinho atenuada quando existe amor. As pessoas podem pensar: «Está bem, posso não estar bem agora, mas isto vai passar, porque tenho estas pessoas comigo, tenho este amor que me rodeia e que me alimenta».
No fundo, é uma metáfora, mas esta canção é particularmente intensa.
A relação entre uma artista e o seu público constrói-se ao longo do tempo, mas também através de momentos inesperados. Recordas algum encontro, conversa ou reação de alguém que tenha mudado a tua maneira de olhar para uma das tuas canções?
Tenho a felicidade de receber muitas mensagens e de ter um feedback muito direto das pessoas. De facto, há canções que marcaram muita gente.
Recebo muitas mensagens carinhosas sobre «Ai Coração», porque é a música que chegou a mais pessoas. Mas as mensagens mais fortes chegaram-me através da canção «A Minha Gente». Recebi testemunhos muito especiais de pessoas que adotaram a canção como parte das suas próprias vidas, porque se identificaram com a minha história e com a forma como escrevi o tema. Partilharam comigo momentos muito marcantes.
Houve também uma canção, «Stay Strong», que incluí no alinhamento de um concerto em Braga a pedido de um rapaz que me tinha contactado pelas redes sociais. Contou-me que aquela música tinha sido muito importante numa determinada fase da sua vida e explicou-me toda a história. Decidi que fazia sentido incluí-la e, naquele dia, a canção ganhou um significado ainda maior.
É esse o poder da música e também o poder de receber o feedback das pessoas, estando disponível para o escutar.
Braga, Santiago do Cacém, Cartaxo e Alcochete são as primeiras paragens anunciadas. Preparas cada concerto de forma diferente, tendo em conta a sala e o público, ou procuras preservar uma estrutura comum que permita manter a identidade do espetáculo?
O alinhamento é basicamente o mesmo, embora existam algumas exceções em que vou introduzindo coisas diferentes. Por exemplo, «Stay Strong» não fazia parte do alinhamento inicial. Incluí-a em Braga porque me tinham pedido para a tocar.
Quando me pedem canções, não me importo de as incluir, desde que faça sentido. Procuro manter a mesma estrutura, mas cada concerto acaba por ser diferente, porque o público também muda. As pessoas são diferentes e nós não somos robôs.
Não falo com toda a gente da mesma forma. Observo as pessoas que tenho à minha frente e procuro perceber como posso comunicar com elas. Há públicos mais velhos em determinadas zonas e públicos mais jovens noutras. Por isso, consigo adaptar a minha abordagem às pessoas que estão presentes. Tenho de trabalhar com o público que tenho à minha frente.
Ao longo do teu percurso, a exposição pública e as exigências da carreira podem criar uma distância entre a pessoa e a personagem que sobe ao palco. «Pouco a Pouco» também é uma oportunidade para diminuir essa distância e mostrar uma dimensão tua que o público conhece menos?
Com certeza. Este é mesmo o momento em que essa distância vai ser reduzida ao mínimo.
Claro que, quando canto, normalmente é a Mimicat que toma conta de mim, mas a Mimicat e a Marisa vivem muito bem em harmonia no meu corpo neste momento. Essa distância está cada vez mais reduzida.
Nestes espetáculos, existe realmente muito espaço para deixar as pessoas conhecerem a Mimi que está por trás da Mimicat. Para mim, isso é uma bênção e é mágico.
Quando alguém sai de um concerto de «Pouco a Pouco», o que gostarias que levasse consigo para casa? Não apenas em termos musicais, mas na forma como olha para si próprio, para as suas memórias ou para as pessoas que fazem parte da sua vida?
Costumo dizer às pessoas que quero que se sintam vivas naquele momento, que se lembrem do seu valor e, acima de tudo, que saibam que são amadas. Quero que cuidem da sua gente, que se deixem cuidar, mas que não adormeçam, que não fiquem dormentes, como eu própria já me senti em determinadas fases da vida.
Acho que é um bocadinho isso que as pessoas levam consigo. No final, fico sempre a falar com elas e a tirar fotografias. É notório o carinho que existe nesses momentos. As pessoas dizem-me que sentiram isto ou aquilo e algumas partilham histórias muito pessoais.
No fundo, é um sentimento de missão cumprida. Acho que os artistas servem para inspirar e quero que as pessoas saiam dali inspiradas de alguma forma. Felizmente, sinto que isso tem acontecido. Por isso, acredito que estou a cumprir o meu papel.
