Miriam Makeba não levou apenas a sua voz para fora da África do Sul. Levou consigo uma língua, uma cultura e uma história que o apartheid queria manter dentro de fronteiras muito mais estreitas. Quando chegou aos palcos internacionais, a música passou a ser também uma forma de dizer de onde vinha e aquilo que não aceitava calar.
É essa dimensão da cantora sul-africana que o sétimo Capítulo revisita no Museu de Leiria, num encontro entre criação visual e música que procura olhar para uma figura que continua a provocar novas interpretações.
Uma voz que nunca esteve separada da história
Nascida em 1932, Miriam Makeba tornou-se uma das vozes africanas mais reconhecidas internacionalmente no século XX. Conhecida como Mama Africa, levou para diferentes palcos as línguas, os ritmos e as tradições da África do Sul, construindo uma carreira em que a identidade artística nunca esteve separada da realidade política do seu país.
O apartheid atravessou o seu percurso de forma concreta. O exílio forçado afastou-a da África do Sul durante décadas, mas não apagou a ligação ao país nem a sua intervenção pública contra o regime. A música tornou-se parte dessa resistência e a sua presença internacional ajudou a colocar a realidade sul-africana diante de públicos muito para além das suas fronteiras.
É essa combinação entre cantora, mulher, artista e voz política que está no centro deste novo Capítulo.
Pedro Feio transforma a memória em imagem
Para esta edição, o artista plástico Pedro Feio parte da vida e do percurso de Miriam Makeba para criar um universo visual próprio.
A proposta não se limita a representar a cantora ou a reconstruir episódios da sua biografia. Procura encontrar uma linguagem visual capaz de dialogar com aquilo que permanece da sua presença: a voz, a identidade, a resistência e a dimensão humana de uma artista que nunca conseguiu separar completamente a música do mundo em que vivia.
O resultado integra a exposição que poderá ser visitada na Sala do Capítulo do Museu de Leiria entre 3 de outubro e 29 de novembro.
Uma nova composição para uma voz antiga
A música deste Capítulo fica a cargo de Suzana Francês, que desenvolve uma composição original inspirada na obra de Miriam Makeba, na sua voz e na força das canções que marcaram o seu percurso.
A ideia não é reproduzir Makeba, mas partir dela. Décadas depois, outra artista recebe esse legado e procura perceber o que ainda pode nascer de uma voz que já pertence à história da música, mas cuja força continua presente.
O encontro entre a criação de Pedro Feio e a composição de Suzana Francês permite assim que a memória de Makeba seja trabalhada no presente, através de duas linguagens diferentes que partem da mesma figura.
Quando uma voz encontra outro tempo
O Capítulo começa no dia 3 de outubro, às 15h00, com uma conversa entre Hugo Ferreira e Pedro Feio sobre a vida, o legado de Miriam Makeba e o processo criativo que esteve na origem da obra desenvolvida para esta exposição.
O percurso permanece na Sala do Capítulo até 29 de novembro, data em que o projecto ganha uma dimensão performativa. Às 18h30, Suzana Francês apresenta ao vivo a criação desenvolvida para esta edição.
É nesse momento que a voz de Miriam Makeba deixa de ser apenas memória e passa a ser matéria para uma nova criação. Talvez seja aí que esteja a pergunta escondida neste Capítulo: não apenas até onde chegou a voz de Makeba, mas até onde ainda pode chegar.

