Na estreia enquanto NARC, o artista transforma uma história de traição em “VODU”, um single onde pop, R&B, jazz e soul encontram sensualidade, humor e uma atmosfera mais sombria. Em entrevista ao Música Total, fala sobre a dificuldade de encontrar uma identidade musical em Portugal, a relação entre música e imagem, as emoções que alimentam a sua criação e o álbum visual que está a construir.
Durante anos, a música esteve presente, mas permaneceu bloqueada. Antes de se apresentar como NARC, houve vídeos de covers, participações em programas de talentos, design, ilustração e a criação da LOUCAS.STUDIO, um projeto artístico centrado precisamente nas emoções mais profundas, nas obsessões, dúvidas e paranoias que fazem parte da experiência humana.
Foi ao olhar para esse percurso que NARC percebeu que a música nunca esteve realmente separada do resto. As histórias já existiam. O universo visual também. Faltava juntar as peças.
“VODU” é o primeiro resultado dessa decisão. Nascido de uma experiência de traição, o single recusa o caminho mais previsível da mágoa e transforma o trauma numa narrativa com ironia, sensualidade e humor. Mas a canção é apenas uma peça de um projeto maior.
NARC está a construir um álbum visual em que música, imagem e narrativa se cruzam e cuja história não será contada necessariamente por ordem cronológica. “Esta história começa a meio”, revela no videoclip de “VODU”.
Nesta conversa com o Música Total, NARC fala sem filtros sobre a construção da sua identidade artística, as referências que o inspiram, a importância de cantar na sua própria língua e a ambição de transformar aquilo que sente num universo criativo capaz de chegar aos outros.
“VODU” é o teu primeiro single enquanto NARC. Quando percebeste que esta era a identidade artística que querias apresentar ao público?
A música e a criatividade estão na minha vida desde sempre. Na adolescência, fazia vídeos de covers para o YouTube e ainda cheguei a participar em programas de talentos. Todos os lados criativos sempre avançaram. Hoje em dia, sou designer e ilustrador, mas a música sempre ficou bloqueada. Só em adulto percebi o porquê.
O facto de não ter músicas sobre a minha vida, na minha língua e com toda a verdade, fazia com que me sentisse uma fraude naquele papel, como se fosse apenas uma voz a cantar. Durante muitos anos, antes de me assumir como homossexual, percebi que isso podia ser um bloqueio. Não queria cantar músicas em que tivesse de fingir ser ou gostar de uma coisa que não era verdade. Não queria criar uma personagem apenas para vender.
Mas só percebo todas essas coisas hoje em dia, aos 33 anos. Percebi que esta era a identidade que queria apresentar depois de criar a minha marca artística, LOUCAS.STUDIO, uma marca de manifesto onde faço quadros e peças de moda, tudo com base nas emoções mais profundas e retraídas do ser humano. As nossas obsessões, dúvidas, paranoias…
Quando olhei de fora para tudo o que tinha feito, percebi que já tinha tudo para falar na música. Eu sou a LOUCAS.STUDIO, isto são as minhas histórias e é tudo um universo só.
A canção nasce de uma história de traição, mas transforma essa experiência num “feitiço pop”. O que te interessou mais nessa passagem da dor para a ironia?
Essa questão é engraçada de pensar agora. Na verdade, é o meu constante papel de “ex-bonzinho”. A pessoa que trai não é apenas um traidor. Há toda uma história de dúvidas, de dificuldades em te descobrires, etc., e isso faz com que as pessoas, às vezes, façam coisas que não estão na sua essência.
E eu não queria enxovalhar essa pessoa. Queria apenas transformar este trauma em algo único e que tivesse algum humor e ironia.
Existe uma mistura particular de sensualidade, escuridão e humor em “VODU”. Como encontraste o equilíbrio entre essas três dimensões?
Acho que essas são três palavras que caracterizam muito a minha essência, por isso acho que é algo natural em mim passar isso. Passo por muitas emoções durante o dia e tenho muita necessidade de transmitir tudo isso através da minha música.
Musicalmente, cruzas pop e R&B com influências de jazz e soul. Que artistas, discos ou referências ajudaram a moldar a sonoridade que procuravas?
Na verdade, sempre tive muita dificuldade em rever-me em artistas portugueses e, por isso mesmo, demorei tanto tempo a encontrar-me. Não porque eles não existam, nós temos um talento incrível, mas porque temos muito poucas oportunidades.
Na música, tenho referências que vão do jazz ao pop e não consigo escolher apenas uma. São uma mistura de tudo. Acho que um álbum tem muitas emoções quando conta uma história e, para contar essas emoções, temos de passar por vários sons, não apenas por um género musical.
E é isso mesmo que vou fazer no meu álbum. Eu não sou só uma coisa e não sou só uma emoção.
Posso dizer que, neste momento, uma das minhas maiores inspirações internacionais é a RAYE e, em Portugal, tenho ouvido muito a NENNY, com a sua vibe pop, R&B e hip hop.
Quando estás a escrever sobre uma experiência pessoal, procuras manter a história próxima da realidade ou sentes necessidade de a transformar numa personagem e numa narrativa?
Isso é muito interessante. Em termos de escrita, acho que sou muito próximo do literal no que toca a descrever as situações. “VODU” é um ótimo exemplo. Eu não tinha necessidade de dizer que havia um docinho ou que tinha febre quando descobri a traição, mas isso ajuda-me a fazer todo o filme na minha cabeça e acho que é por isso que chega às pessoas.
Por outro lado, visualmente, adoro interpretar personagens, embora essas personagens, na verdade, sejam todas eu.
O título “VODU” sugere um ritual, uma espécie de resposta simbólica àquilo que aconteceu. O que significa esta palavra dentro do universo de NARC?
Outra pergunta superinteressante. Posso dizer que é um spoiler de toda a narrativa do meu futuro álbum. O vodu é algo que vem das raízes africanas, onde a história deste álbum vai começar. É de onde veio a minha mãe.
Fazia todo o sentido haver vários ganchos que fizessem sentido dentro da narrativa.
O videoclip é apresentado como parte importante deste primeiro capítulo. Desde o início imaginaste “VODU” também visualmente ou a componente audiovisual surgiu depois da música?
Tudo em mim surge de forma visual. Mesmo a música. Todas as músicas têm uma cor na minha cabeça, formas, etc. Isso é natural em mim em tudo na minha vida. Não seria eu designer.
Falaste em construir um álbum visual onde música, imagem e narrativa se cruzam. Existe já uma história global pensada para esse projeto?
Totalmente pensada e a ser trabalhada!
Quanto do universo de NARC está definido neste momento e quanto queres descobrir ao longo dos próximos lançamentos?
Tenho um universo bastante vasto já pensado. Sou uma pessoa de bastantes certezas, mas estou sempre aberto a novas visões. Também sou alimentado por isso.
O que queres que o público compreenda sobre NARC depois de ouvir “VODU” e há alguma coisa que preferes que permaneça por descobrir?
Sei que isto pode parecer um cliché hoje em dia, mas eu quero apenas que as pessoas sintam o que têm de sentir e que fiquem mais atentas às suas emoções e não as maltratem. E que transformem isso em algo. Acreditem que é poderoso.
Estrear um projeto novo implica começar praticamente do zero perante o público. O que sentes que podes fazer enquanto NARC que talvez não fosse possível fazer anteriormente?
Esta pergunta, para mim, é muito difícil. Neste momento, não sei nada e não estou à espera de nada. Só sei que quero lançar tudo e contar tudo o que tenho para contar.
Já estou mega feliz por o meu primeiro single estar a ter este feedback incrível!
“VODU” é apenas o primeiro capítulo. Se tivesses de deixar uma pista sobre aquilo que vem a seguir, sem revelar demasiado, que porta gostarias de abrir ao público?
Na verdade, “VODU” é talvez o Capítulo III. Como digo no videoclip: “Esta história começa a meio”.
Não vou seguir uma ordem cronológica, mas certamente, no final, o projeto vai fazer todo o sentido.
