Quarenta e cinco anos depois de nascer em São Paulo, o IRA! chega finalmente a Portugal. A estreia acontece em outubro, com concertos em Lisboa e no Porto, num momento que Nasi encara como uma espécie de capítulo em falta na história da banda.
Fundado em 1981 por Nasi e Edgard Scandurra, o IRA! atravessou a explosão do rock brasileiro dos anos 80, passou pelo underground e pelo mainstream, enfrentou períodos de separação e regressou aos palcos com a mesma vontade de continuar em movimento. Pelo caminho ficaram canções como “Envelheço na Cidade”, “Dias de Luta”, “Flores em Você” e “Núcleo Base”, temas que atravessaram gerações e continuam a fazer parte da memória do rock brasileiro.
Nesta conversa com o Música Total, Nasi percorre os 45 anos do IRA!, recorda a relação com Edgard Scandurra, fala das rupturas e do regresso da banda, revisita algumas das canções fundamentais do grupo e conta como conheceu o rock português através dos Xutos & Pontapés. Fala também da expectativa para os primeiros concertos em Portugal e deixa aberta a possibilidade de esta estreia ser apenas o primeiro passo de uma passagem mais longa do IRA! pela Europa.
O IRA! completa 45 anos e só agora toca pela primeira vez em Portugal. Por que demorou tanto tempo a acontecer esta estreia?
Bom, essa é uma resposta que eu gostaria de ter. Foi algo que nós nunca entendemos direito, por conta do bom intercâmbio que existe artisticamente entre Brasil e Portugal. Nós tivemos, por exemplo, uma experiência com os Xutos & Pontapés, que é uma banda muito famosa aí em Portugal. Tivemos uma jam session com eles no estúdio, por volta de 1987, quando estavam a gravar com o nosso produtor, o também português Paulo Junqueiro.
Depois, no Encontro Cultural Luso-Brasileiro, em São Paulo, fizemos um espetáculo juntos, IRA! e Xutos, que foi muito legal. Sabíamos que tínhamos muitos fãs aí, não só brasileiros, mas também portugueses que, por conta da nossa língua-mãe, têm muito mais facilidade em absorver a nossa música do que no mundo anglo-americano.
Foi algo que nós sempre cobramos de todos os envolvidos na produção dos nossos concertos. E agora, finalmente [risos], chegámos. Vamos atravessar o oceano sem saber por que demorámos tanto.
O que significa para vocês chegar a Portugal precisamente num ano de celebração dos 45 anos da banda?
Vejo isso como um grande prémio para nós. Eu não diria nem a cereja do bolo, porque é muito maior do que uma cereja nesse bolo! Ficamos muito felizes. É uma marca muito importante. Não é qualquer banda que tem 45 anos de história e está na ativa, com um grande público como nós temos no Brasil, concertos requisitados e fãs de todas as gerações.
Então, a comemoração desta data importante para nós não poderia ser melhor, justamente porque é em outubro. Outubro é oficialmente a data em que o IRA! nasceu, num festival punk, em 1981.
O rock brasileiro dos anos 80 tornou-se uma referência para várias gerações. Quando olham para esse período, o que sentem que o IRA! trouxe de diferente para essa cena?
Eu costumo dizer que o IRA! é independente para o mainstream e mainstream para o independente. O IRA! sempre transitou muito bem entre esses dois mundos da produção musical do rock.
Tocávamos nos grandes concertos e festivais, tínhamos discos de ouro, músicas que estouravam em novelas, mas sempre tivemos a nossa ligação não só com os jovens artistas, mas também com a cena underground de São Paulo.
Eu e o Edgard Scandurra, paralelamente ao início do IRA!, tocávamos em bandas que eram famosas no cenário underground do pós-punk paulista, como os Voluntários da Pátria, que era a banda que eu também cantava. O Edgard tinha os Smack e as Mercenárias, onde era um mentor.
E isso, eu acho, transformava o IRA! numa banda diferente. Fora que o IRA!, eu acho, foi uma das bandas que mais levou até às últimas consequências uma forma diferente de fazer música e de divulgar o nosso trabalho.
O IRA! recusou muito fazer playback e isso tirou-nos muito da cena da televisão. Nós gostávamos de nos apresentar ao vivo, tocando ao vivo, e demorou algum tempo até que os programas de televisão no Brasil optassem por permitir que se tocasse ao vivo.
Também havia questões nossas, como escolher sempre o single e a primeira música a ser lançada. Várias coisas que os artistas normalmente delegam ao departamento de marketing e ao departamento musical da gravadora, o IRA! sempre quis ter, digamos, mão forte nisso.
Então, acho que isso é algo que sempre passámos aos jovens artistas: fazerem as coisas e levarem até às últimas consequências as suas ideias artísticas.
“Envelheço na Cidade” tornou-se uma canção particularmente duradoura. Como é ouvir hoje uma música escrita há décadas e perceber que continua a dialogar com novas gerações?
Ah, isso é talvez o maior património que um artista pode ter: a sua música atravessar gerações, não ter um discurso datado.
E não só o IRA!. Eu acho que toda a geração dos principais artistas da década de 80, como IRA!, Legião Urbana, Titãs, Barão Vermelho, entre outras, tem músicas que são hinos até hoje.
No caso desta composição, “Envelheço na Cidade”, o Edgard compôs sentado num ponto de autocarro. Se não me engano, era no aniversário da namorada dele. E hoje até brincamos que é uma música tão popular nos aniversários quanto o “Parabéns a Você” [risos].
Isso é muito interessante de ver. Mas, repito: ter músicas assim, que fazem corações e mentes atravessarem gerações e gerações, é o maior património que um artista pode querer ter.
Há músicas do IRA! que ganharam novos significados com o passar do tempo. Existe alguma que vocês próprios passaram a ouvir de maneira diferente?
É difícil dizer isso. É difícil essa resposta, porque é algo muito subjetivo. Pode ser que existam músicas que, para mim, tenham mudado de significado ou tenham ganho algum outro significado ou uma grande força, enquanto, na cabeça do Edgard, seja diferente. E, principalmente, com o público.
Esse é o poder que a música poética tem de ter nas letras. Letras de rock são uma maneira de fazer poesia. Não é uma maneira clássica de fazer poesia, mas é um estilo de poesia.
Agora, posso dizer aquilo que não perdeu sentido nenhum. Por exemplo, a nossa música “Núcleo Base”, que é uma canção que critica e contesta o sistema de alistamento militar obrigatório no Brasil. Está viva essa questão até hoje, não se tocou nisso no Brasil.
Poxa, eu acho que existe muito espaço para muitos jovens que querem servir, passar pelo serviço militar ou até seguir carreira. Mas muitos, a maioria, não quer. Perdem um tempo da sua vida justamente num momento importante, que é aos 18 anos, entrando na universidade ou começando uma vida profissional, às vezes até para ajudar a própria família.
Isso tudo é muito complicado para esses jovens. O Brasil não é um país que vive em guerra. O Brasil não é um país que tem esses problemas como outros lugares do mundo, como no Médio Oriente.
Então, para nós, já era uma coisa anacrónica há 45 anos e ficou ainda mais anacrónica hoje. E ninguém quer mexer nisso, ninguém quer tentar transformar uma lei em algo que seja mais humano, mais lógico, mais funcional.
A história do IRA! também inclui conflitos, separações e regressos. O que aprenderam sobre a banda e sobre vocês próprios durante esses períodos de ruptura?
O IRA! é o puro suco do rock and roll! Tem coisas que no IRA! são clássicas de uma banda de rock.
Foi uma banda montada por dois colegas do secundário, da escola, um clássico! Teve uma ascensão do underground para o mainstream de uma maneira progressiva. Não foi uma banda que foi produzida, como as bandas faziam antigamente: ganhavam nome num circuito de pequenos espaços até atingirem os maiores.
Tivemos momentos de excesso, vamos dizer assim, os momentos de Keith Richards [risos]. E também tivemos rupturas, brigas, que eu acho próprias de uma banda. Infelizmente, isso acontece. É muito comum acontecer com bandas porque é preciso abrir mão da família, de relacionamentos pessoais, viver na estrada e no quotidiano, numa intimidade e, às vezes, numa falta de privacidade e num desgaste que acabam por atrapalhar as relações.
Obviamente, se uma banda nasceu, é porque originalmente os membros se davam bem. Uma banda não nasce da discórdia, não é?
Mas o que aconteceu com o IRA! nessa separação, que foi um momento de erro de todos, foi que a banda precisava de dar uma paradinha de um ano, coisa muito normal entre os artistas e entre bandas. Ainda mais uma banda como o IRA!, que toca tanto. Nós vivemos na estrada.
E isso fez com que todos acabassem por meter os pés pelas mãos, como dizemos aqui no Brasil.
Agora, nesse período em que ficámos separados, eu não quero entrar no lugar comum de dizer: “Amadurecemos”. Tenho um problema com esse negócio de amadurecer porque, segundo a língua portuguesa, depois de amadurecer você fica podre, não é? Se formos olhar pelo lado hortifrúti [risos].
Mas crescemos. Prefiro esse termo. Tornámo-nos melhores nesse hiato.
Eu fui dedicar-me mais profundamente à minha carreira a solo. Tenho uma carreira a solo profícua, com dez álbuns, se não me engano. Agora, falha-me a memória. O Edgard Scandurra também. Essa é uma característica do IRA!, única no Brasil. Agora, artistas de grandes bandas estão a fazer discos a solo, mas nós fazemos isso desde o final dos anos 80, início dos anos 90.
É isso. Nesse período em que ficámos longe, acho que pudemos também desenvolver mais esse lado pessoal, individual, que às vezes é necessário.
E voltámos com tudo. Voltámos porque vimos que ainda tínhamos significado, primeiro, e que ainda havia brasa naquela fogueira, que era, no caso, a química entre mim e o Edgard.
A relação entre Nasi e Edgard Scandurra é uma das marcas da história do grupo. Como mudou essa parceria ao longo de 45 anos?
Eu e o Edgard conhecemo-nos desde os 17 anos, não é pouca coisa. Eu já era meio fã do Edgard no colégio, quando ele pegava no violão e tocava. Nunca pensei que ia montar uma banda com ele.
Até ele começar a chamar-me para dar uma canja na banda dele, Subúrbio, e a coisa tomou essa dimensão que nós só temos uma palavra para isso: destino.
O destino é inexorável.
E, obviamente, tivemos altos e baixos, como qualquer relação. Acho que não existe nenhuma pessoa, tirando o meu irmão, com quem tenha uma relação há mais de 45 anos. No caso do Edgard, são quase 50 anos. É muita coisa! [risos]
É uma família não consanguínea.
E houve aquela briga porque eu e o Edgard nos distanciámos da liderança da banda. Ficámos cada um a cuidar da sua carreira a solo e a levar o IRA! estrada afora.
Nós temos um ditado aqui no Brasil que não sei se faz sentido para vocês: “Cachorro que tem muito dono, morre de fome”. Ou seja, se tem muita gente para cuidar, acaba por ninguém cuidar.
Então, isso foi uma coisa que eu e o Edgard retomámos agora nesta volta. Houve uma reformulação na banda por várias questões e eu e o Edgard hoje sentamo-nos e conversamos. As decisões envolvem os dois.
Não é mais uma coisa que parecia uma pluma ao vento, sabe?
Então, eu acho que a minha relação com o Edgard hoje em dia talvez nunca tenha sido tão boa. Obviamente, tirando o início, quando éramos muito jovens, muito mais audaciosos e sonhadores. Acho que talvez tenhamos dividido mais sonhos.
O Brasil de 1981 era politicamente e culturalmente muito diferente do Brasil atual. O que permanece da inquietação que esteve na origem do IRA!?
Sim, mudou radicalmente. Naquela época, não havia redes sociais, não havia internet, não havia telemóveis! [risos] Até o telefone era uma coisa difícil. Não eram todas as famílias que tinham telefone.
Então, os contactos, o contacto humano, eram muito mais intensos, ao meu ver. Apesar de concordar que as redes sociais aproximaram pessoas que, de repente, estão do outro lado do mundo. Mas esquecemo-nos de quem está do nosso lado.
Temos de lembrar que, na verdade, eu não moro no Brasil, moro na minha rua [risos]. Então, as questões locais não podemos perder de vista.
E realmente, nessa época, era um Brasil de muita esperança: fim da ditadura, fim da censura, o caminho para eleições diretas. Uma nova geração de artistas e de pensamento começava a inundar o Brasil.
E eu acho que o IRA! continua a ser uma banda humanista, como sempre foi.
Muita gente coloca-nos, até pelo nome, como uma banda hipercombativa. Sempre tivemos de nos posicionar, dentro dos limites de nós enquanto artistas. Ou em cima de um palco ou através do que cantamos e escrevemos, sempre estivemos aí.
Mas acho que o IRA!, eu definiria assim: o IRA! manteve uma das suas melhores características, que é ser uma banda humanista.
Portugal é culturalmente próximo do Brasil, mas também tem uma história própria de rock. Há artistas ou bandas portuguesas que vocês gostariam de conhecer ou com quem gostariam de tocar?
Ah, sim! Eu citei agora há pouco os Xutos & Pontapés, que são uma banda contemporânea ao IRA! e que têm algumas coisas até parecidas em termos de influência.
Eu vejo, sempre vi, pelo menos no começo da carreira deles, muita influência dos The Clash.
Tenho uma coisa para confessar para vocês: comecei a conhecer o rock português quando tive acesso. Comprei num sebo uma coletânea chamada “Rock Rendez-Vous”, que acho que era uma coletânea ao vivo de bandas. Inclusive, tinha uma banda chamada Culto da Ira.
E foi aí que conheci os Xutos.
E, por acaso, o produtor dos Xutos, Paulo Junqueiro, foi um cara muito importante para nós como engenheiro de som. Ele foi quase um “quinto IRA!”. Inclusive, teve uma ascendência muito grande na indústria fonográfica brasileira: começou como engenheiro de som com o IRA!, depois tornou-se produtor musical e, mais tarde, chegou a diretor de uma multinacional.
É um grande amigo que até nos ameaçou de ir ver o concerto aí em Portugal [risos].
Eu também regravei para a banda sonora de um filme, que tem o Rodrigo Santoro como protagonista, uma música de uma banda chamada Toranja. Gravei a música “Laços”. Uma música belíssima.
Para quem estiver interessado, é só procurar no YouTube “Nasi canta Laços”.
O que esperam encontrar no público português que talvez seja diferente daquilo que encontram num concerto no Brasil?
Queremos fazer um concerto vibrante. Um concerto que conquiste não só os brasileiros que talvez já nos conheçam, que talvez já nos tenham visto tocar no passado, mas também os portugueses presentes.
Estamos a fazer um alinhamento especialmente para Portugal. Um alinhamento que vai tocar, claro, todos os sucessos, os grandes êxitos do IRA!, que obviamente os brasileiros presentes estarão ansiosos para ouvir.
Mas também queremos chegar a quem não conhece bem o IRA!, talvez os portugueses que lá estejam, com uma seleção de músicas que represente várias fases do IRA!.
Não só a fase lírica do IRA!, que foi talvez a que fez mais sucesso nas rádios, mas também o IRA! tem um lado mais pesado, mais dissonante, que acho que as pessoas podem descobrir, principalmente os portugueses.
Se tivessem de escolher apenas três canções para apresentar a alguém que nunca ouviu IRA!, quais seriam e porquê?
Uma resposta difícil, não é? Mas não vou ficar a pensar muito [risos], porque cada vez que pensar vou falar de músicas diferentes.
Começaria com “Dias de Luta”, não só pela pujança do riff de guitarra, que é algo imponente, épico, mas também pela letra que, na minha opinião, é uma letra do Edgard com uma mensagem socrática, sabe? “Tudo o que sei é que nada sei”.
É uma música com uma reflexão filosófica mais profunda, que também questiona a passagem do tempo e da idade. Essa é uma coisa recorrente em muitas canções que o Edgard escreveu, como “Envelheço na Cidade” e “15 Anos Vivendo e Não Aprendendo”.
E a minha segunda música seria “Flores em Você”: “De todo o meu passado, boas e más recordações”.
Acho que “Flores em Você”, não só pelo arranjo original com quarteto de cordas, que chocou na época no Brasil, uma banda com fama de punk e pós-punk a fazer algo à la George Martin, que foi a nossa intenção mesmo, na cara dura! [risos], mostra uma sofisticação e o lirismo do IRA! em estado puro.
As nossas referências eram o rock inglês, dos Beatles aos The Jam.
E, para ser mais diferente, eu escolheria “Rubro Zorro”, uma música que não foi single de rádio, não fez sucesso na rádio, mas é amada pelo público.
Tem um som e uma letra mais sombrios. Então, acho que “Rubro Zorro” é o outro lado da lua do IRA!.
Depois de 45 anos, o que ainda precisa de acontecer para vocês sentirem que a história do IRA! não terminou?
Muitas coisas… Você só me faz perguntas difíceis, não é? [risos]
Vou tentar responder para não ficar em cima do muro.
Na verdade, nós vivemos do próximo concerto. O IRA! é uma banda de estrada. O IRA! é uma banda cigana em alguns aspectos, sabe? Não conseguimos viver parados. Também não conseguimos viver de discos.
Apesar de o nosso último disco de inéditas, lançado há seis anos, ter sido um dos mais elogiados de toda a nossa carreira, e isso é um desafio depois de discos que ganharam prémios.
Você ainda conseguir fazer algo que não seja inferior ao seu passado, digamos assim, de glória, é muito difícil.
Eu vejo o seguinte: já que Portugal está a abrir-nos as portas da Europa [risos], quem sabe, num futuro próximo, voltemos aí ao Velho Continente, novamente passando por Portugal e chegando a outras nações.
Principalmente as de língua latina: França, Espanha.
Nós quase tocámos na Alemanha. Foi por muito pouco que não fechámos dois concertos na Alemanha na sequência destes de Portugal.
Que fique para a próxima!
Acho que isso seria algo que ainda faltaria na história do IRA!, assim como Portugal fazia falta.
