O adufe, o triângulo, a trancanholas e os tambores tradicionais pertencem a uma memória musical que durante gerações passou de ouvido em ouvido. Em Nativo, Tiago Manuel Soares pega nesses instrumentos e coloca-os perante outra pergunta: o que podem fazer quando entram num processo de composição contemporânea?
A resposta começa a ouvir-se no dia 31 de outubro, às 16h00, na Casa da Música, onde o percussionista apresenta um projeto construído ao longo de vários anos de investigação e prática. Nativo junta composição, interpretação e pesquisa a um trabalho de documentação que se prolonga por um livro e um documentário.
Com mais de duas décadas dedicadas à música tradicional, Tiago Manuel Soares tem vindo a estudar as técnicas de execução de instrumentos cuja linguagem esteve durante muito tempo ligada à transmissão oral. O trabalho desenvolvido em Nativo procura transformar esse conhecimento em matéria de criação, sem apagar a relação dos instrumentos com os contextos de onde vieram.
Da transmissão oral à composição
Uma das mudanças mais interessantes acontece quando instrumentos tradicionalmente aprendidos através da prática passam a integrar partituras e novas peças musicais.
Tiago Manuel Soares desenvolveu composições originais e criou partituras para instrumentos como o adufe, a trancanholas, o triângulo e os tambores tradicionais. Não se trata apenas de transportar sons antigos para um palco contemporâneo. Existe uma tentativa de perceber as possibilidades técnicas e expressivas destes instrumentos quando são colocados perante outras formas de composição.
É nesse território que Nativo ganha identidade. A tradição deixa de ser apenas repertório e passa a ser também matéria de investigação.
O som tradicional visto de outro lugar
A pesquisa de Tiago não se limita à técnica. Os instrumentos transportam histórias, práticas e influências que atravessam diferentes regiões e geografias. Olhá-los hoje implica também reconhecer que aquilo a que chamamos música tradicional portuguesa resulta de muitos encontros e transformações.
Nativo parte dessa realidade sem procurar fixá-la. O projecto interessa-se pelo que permanece, mas sobretudo pelo que ainda pode acontecer a partir desse património.
“Este projeto surge da necessidade de preservar, valorizar e projetar o património musical português associado aos instrumentos tradicionais de percussão e às suas práticas performativas”, explica o músico. A investigação procura ainda documentar técnicas de execução dos repertórios tradicionais e perceber como podem ser integradas em contextos musicais contemporâneos.
Um projeto que fica para além do concerto
A apresentação na Casa da Música é apenas uma das dimensões de Nativo. No mesmo dia, Tiago Manuel Soares apresenta também o livro documental e o documentário associados ao projeto.
A opção de documentar o processo é particularmente importante num universo onde grande parte do conhecimento foi transmitida pela prática e pela relação directa entre músicos. Registar essas técnicas significa criar uma memória, mas também deixar matéria disponível para quem vier depois.
O palco é, por isso, apenas um dos lugares onde Nativo acontece. O projeto cruza criação musical e investigação para construir um retrato mais amplo da percussão tradicional portuguesa e das possibilidades que ainda encerra.
A música segue para a estrada
Depois da apresentação de 31 de outubro, Nativo ganha uma nova dimensão com uma digressão de concertos a solo, que arranca a 7 de novembro, no Teatro do Bolhão.
A tournée prolonga-se pelos primeiros meses de 2027, com novas datas ainda por anunciar. O formato a solo coloca Tiago Manuel Soares no centro de um trabalho em que cada instrumento ganha espaço próprio e onde a relação entre gesto, ritmo, timbre e composição pode ser percebida de forma directa.
Nativo não procura simplesmente recuperar sons que pertencem ao passado. Coloca-os em circulação outra vez. E talvez seja precisamente aí que a tradição deixa de ser memória para voltar a ser música.
