Existe uma coisa curiosa a acontecer na música feita nos Açores. Não chega como manifesto, não tem um nome comum e ninguém parece ter combinado nada. Mas começa a ser difícil não reparar.
De um lado, PMDS leva a memória de São Miguel para a electrónica. Do outro, Striikxr faz do sotaque micaelense parte da sua linguagem no rap. E agora surge também Espama Trincana, artista açoriano ligado ao universo do hip hop, a colocar a sua música numa escala que ultrapassa cada vez mais o arquipélago.
Três percursos diferentes. Três maneiras de trabalhar o presente.
O que os aproxima não é fazerem o mesmo género. É outra coisa: a origem deixou de ser uma limitação estética.
Os Açores podem estar numa produção electrónica, numa forma de falar, numa letra, num beat ou simplesmente na maneira como um artista constrói a sua música.
PMDS: transformar São Miguel em som
Com “Redenção”, os PMDS levam para a electrónica uma experiência profundamente ligada à ilha.
O duo açoriano formado por Pedro Sousa e Filipe Caetano prepara o seu quarto álbum de estúdio, com lançamento previsto para 1 de Outubro. O disco parte da memória de crescer em São Miguel, entre a dimensão do Atlântico e as particularidades de viver num território insular, transformando essa experiência em matéria sonora.
A escolha da electrónica é particularmente interessante.
Não existe aqui a necessidade de reproduzir uma paisagem açoriana através de referências óbvias. A memória pode aparecer de outra forma: através de ambientes, sintetizadores, textura, silêncio, pulsação.
É uma música que olha para trás utilizando ferramentas do presente.
E talvez seja essa a parte mais interessante de “Redenção”. São Miguel não surge apenas como lugar de origem dos músicos. Torna-se matéria para criar.
A ilha deixa de ser cenário.
Passa a fazer parte do processo.
Striikxr: quando o sotaque entra no beat
Com Striikxr, a relação com os Açores acontece de maneira mais imediata.
Acontece na voz.
O seu EP AÇORIANO SEM SOTAQUE, editado em Julho, trabalha diferentes linguagens dentro do hip hop e cruza rap com referências que passam pelo R&B e pelo Detroit rap. Mas aquilo que torna o projecto particularmente reconhecível está também na maneira como o artista mantém a linguagem açoriana dentro das canções.
O artigo que o Música Total já dedicou ao artista, “Striikxr e o rap que não quis perder o sotaque”, parte precisamente dessa questão.
No rap, a voz é instrumento.
A pronúncia, a cadência, a escolha das palavras e a forma como uma frase cai sobre o beat fazem parte da identidade musical.
Por isso, o sotaque micaelense não é apenas uma marca de origem. Pode ser ritmo. Pode ser personalidade. Pode ser assinatura.
E isso muda a relação entre território e música.
Striikxr não precisa de neutralizar a voz para entrar numa linguagem global.
Faz o contrário.
Leva Feteira para dentro do rap.
Espama Trincana: quando a ilha começa a ganhar outra escala
Espama Trincana acrescenta outra peça a esta história.
O seu percurso coloca o rap açoriano numa conversa que já não se limita ao arquipélago. O artista tem vindo a construir uma presença própria no hip hop português, com trabalhos como Espamah Montana, a Mixtape, e em 2026 com Bad Bitches Ouvem Espama, a Mixtape. A sua música já circula amplamente nas plataformas digitais, com temas como “O Que Tu Quiseres”, “Não Entendo”, “Hino Dos Açores” e “Música Pos Bandidos”.
Aqui existe uma diferença importante.
Com Espama Trincana, a questão deixa de ser apenas como é que um artista açoriano coloca a ilha dentro do rap?
Passa também a ser:
até onde pode chegar um artista açoriano sem deixar de carregar aquilo que o tornou diferente?
É essa escala que interessa.
O rap permite-lhe entrar num circuito nacional, cruzar-se com outros nomes e circular fora das ilhas. E, ao mesmo tempo, a origem não desaparece.
O Açores não é uma nota de rodapé na biografia.
É parte do universo artístico.
Três maneiras de não apagar a origem
PMDS, Striikxr e Espama Trincana não formam uma banda, um colectivo ou uma escola.
E ainda bem.
Seria demasiado fácil juntar os três e chamar-lhes “a nova música açoriana”.
A realidade é mais interessante.
PMDS trabalha a memória através da electrónica contemplativa e experimental. Striikxr transforma a linguagem e o sotaque em elementos do rap. Espama Trincana trabalha dentro de uma cultura hip hop que lhe permite chegar a outros espaços e públicos.
São caminhos diferentes.
Mas todos colocam em causa uma velha ideia: a de que para uma música sair da ilha precisa primeiro de deixar a ilha para trás.
Talvez já não seja assim.
Uma produção pode ser electrónica e continuar a trazer São Miguel dentro dela.
Um rapper pode manter o sotaque e não perder força fora dos Açores.
Um artista pode crescer dentro do circuito nacional sem apagar a geografia que está na sua origem.
A música contemporânea permite isso.
Mais do que isso: pode transformar essa origem numa vantagem artística.
Os Açores já não precisam de soar como esperamos
É aqui que esta história fica maior do que três nomes.
A música feita nos Açores pode ser rap, electrónica, R&B, hip hop ou qualquer outra coisa. Não precisa de caber numa ideia pré-definida de “som açoriano”.
Pode pegar em linguagens que chegam de Lisboa, Londres, Atlanta, Detroit ou de qualquer outro lugar e fazê-las passar por São Miguel.
Depois disso, já não são exactamente as mesmas.
Levam outra pronúncia.
Outra memória.
Outra paisagem.
Outra experiência.
Talvez seja esse o momento que estamos a começar a ouvir.
Não uma nova escola.
Não um movimento fechado.
Mas uma música que deixou de pedir autorização para ser contemporânea.
PMDS transforma memória em electrónica.
Striikxr transforma sotaque em rap.
Espama Trincana mostra que um artista açoriano também pode levar esse rap para fora da ilha.
Três caminhos diferentes.
Uma mesma certeza cada vez mais audível:
os Açores não precisam de perder a sua voz para entrar no mundo.
