Os Maias vão deixar, por uma noite, as páginas de Eça de Queirós. A 26 de setembro, às 21h30, o Teatro Micaelense recebe em Ponta Delgada a estreia de uma criação de Fernando Duarte que transforma o romance numa obra de dança em três atos, com António Rosado ao piano e a participação de solistas da Orquestra de Câmara Portuguesa.
É uma mudança radical de linguagem para uma história que os portugueses conhecem sobretudo através da literatura. As personagens continuam a ser Carlos da Maia, Maria Eduarda, João Ega e todos os outros habitantes daquele universo criado por Eça. O que muda é a forma de contar o que lhes acontece.
Em vez das páginas, entram em cena os corpos, o movimento e a música.
Uma história conhecida por outra linguagem
Levar Os Maias para a dança não significa tentar colocar o romance inteiro num palco.
A extensão e a riqueza da obra de Eça obrigam a uma escolha. A narrativa precisa de ser condensada, as personagens têm de encontrar uma expressão física e aquilo que no livro acontece através do diálogo, da descrição ou do pensamento passa a depender da coreografia.
É aí que está o interesse desta criação.
O amor, a família, as convenções sociais, o desejo e as relações entre as personagens continuam no centro da história, mas deixam de ser explicados pela voz do narrador. O movimento passa a desempenhar esse papel.
Uma aproximação particularmente interessante a uma obra cuja força está, precisamente, na forma como Eça observou a sociedade do seu tempo.
Mais de um século depois, algumas dessas relações continuam a ser reconhecíveis.
Fernando Duarte enfrenta uma das grandes obras de Eça
A escolha de Os Maias coloca também um desafio particular ao coreógrafo Fernando Duarte.
Não basta conhecer a história. É preciso encontrar uma forma de a tornar visível sem a transformar numa simples ilustração do romance. Cada personagem precisa de ganhar presença própria e cada relação tem de ser construída através da dança.
O bailado em três atos permite conservar uma dimensão narrativa que nem sempre está presente em propostas coreográficas mais abstractas.
Há uma história para acompanhar, personagens para reconhecer e relações que se transformam diante do público.
A criação procura assim aproximar dois universos que, à primeira vista, parecem distantes: a literatura de Eça e a linguagem do bailado.
António Rosado leva a música para dentro da história
A música não aparece apenas como acompanhamento.
António Rosado estará ao piano, acompanhado por solistas da Orquestra de Câmara Portuguesa, assumindo uma presença fundamental na construção deste novo Os Maias.
É também através da música que o espectáculo pode criar atmosferas, tensões e mudanças de ritmo. Num romance onde o ambiente social e emocional tem tanta importância, esta dimensão pode tornar-se particularmente significativa quando a narrativa passa para o palco.
Literatura, dança e música encontram-se assim no mesmo espectáculo sem que uma tenha de substituir completamente as outras.
Eça continua a ser o ponto de partida, mas a criação já pertence a outro território.
Ponta Delgada recebe a estreia
A estreia acontece no Teatro Micaelense, em Ponta Delgada, integrada na programação da Capital Portuguesa da Cultura 2026.
O contexto não é indiferente. Ao longo deste ano, diferentes linguagens artísticas têm encontrado formas de cruzar património e criação contemporânea, e Os Maias encaixa precisamente nessa ideia de voltar a uma obra conhecida para descobrir o que ainda pode fazer no presente.
O espectáculo tem duração aproximada de duas horas e classificação etária M/6.
A sessão está marcada para 26 de setembro, às 21h30, no Teatro Micaelense.
No romance, tudo começa com uma família, uma casa e uma história que vai revelar pouco a pouco as suas contradições.
No palco, a mesma história terá de ser contada de outra maneira.
Sem páginas.
Com corpos, música e movimento.
