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Encerrou o palco principal do UNTOLD, na Roménia, numa atuação que levou a música portuguesa para uma das maiores montras internacionais da música electrónica. Entre techno melódico, fado, espiritualidade e referências à cultura portuguesa, o artista construiu um espectáculo pensado para aproximar pessoas através da música.
A presença no festival ganhou uma dimensão ainda maior por Padre Guilherme ser apresentado como o primeiro artista português a actuar no palco principal do UNTOLD, festival que a DJ Mag coloca entre os melhores do mundo. No maior palco alguma vez construído na história do evento, a música portuguesa encontrou uma plateia internacional e uma linguagem que não precisou de tradução.
Uma presença portuguesa num palco de enorme dimensão
A actuação de Padre Guilherme aconteceu no encerramento da edição de quatro dias do UNTOLD. Foi uma escolha que juntou a energia da música electrónica a uma mensagem de união, paz e esperança, sem deixar de lado aquilo que define o percurso artístico do produtor português.
A proposta não passou apenas pela música de dança. O espectáculo levou também referências à espiritualidade e à história, incluindo uma mensagem do Papa Leão XIV e uma homenagem ao bispo greco-católico romeno de Cluj-Gherla, figura marcante da história da Roménia, reconhecida pela sua resistência durante a perseguição comunista.
Mas o momento também pertenceu à música. E foi aí que a identidade portuguesa entrou com mais força.
Fado e techno encontram-se no UNTOLD
Dois dos temas apresentados no espectáculo partem directamente do património musical português e levam o fado para um território electrónico. “Nada Te Perturbe” e “30 Moedas de Prata” juntam vozes, guitarra portuguesa e produção de techno melódico, criando uma ligação pouco habitual entre tradição e pista de dança.
“Nada Te Perturbe” parte do conhecido poema de Santa Teresa de Ávila, escrito há cerca de 500 anos. A voz de Marta Alves e a guitarra portuguesa de Rui Poço encontram-se com a produção electrónica de Padre Guilherme e Diego Miranda.
A mensagem é de confiança e paz interior. Num tempo marcado pela ansiedade, pela instabilidade e pela dificuldade em parar, o tema recupera uma ideia simples de Santa Teresa: perante tudo o que acontece à nossa volta, existe uma dimensão interior que não precisa de viver permanentemente em sobressalto.
A força da canção está precisamente nesse contraste. A guitarra portuguesa mantém a ligação à tradição, enquanto a electrónica abre espaço para outra geração e outro público.
Rita Guerra leva “Uma Casa Portuguesa” para a pista
Outro dos momentos mais simbólicos da noite foi “Uma Casa Portuguesa”, com a voz de Rita Guerra.
A conhecida canção ganhou uma nova leitura através dos sintetizadores e das batidas de techno melódico de Padre Guilherme. A letra, associada à ideia de acolhimento, família, simplicidade e identidade portuguesa, ganhou assim um contexto completamente diferente daquele em que foi originalmente conhecida.
É uma escolha que diz muito sobre a intenção deste projecto.
Em vez de esconder as referências portuguesas para entrar num grande palco internacional, Padre Guilherme fez precisamente o contrário. Levou-as consigo e transformou-as. O resultado é uma forma diferente de apresentar Portugal através da música, sem ficar preso à ideia de que tradição e electrónica pertencem a mundos separados.
A reacção do público também teve um momento especialmente pensado para a Roménia, com o remix de “Made in Romania”, de Ionuț Cercel. Foi uma surpresa que aproximou ainda mais o espectáculo do público local.
“30 Moedas de Prata” prepara o próximo capítulo
“30 Moedas de Prata” completa esta viagem entre fado, electrónica e reflexão.
O poema, da autoria de Padre Guilherme, parte das trinta moedas pelas quais Judas Iscariotes vendeu Jesus para falar de uma sociedade cada vez mais dominada pelo dinheiro e pelo materialismo. A canção lembra que existem valores que não podem ser comprados: amizade, amor, paz, família e dignidade humana.
Mais uma vez, Marta Alves e Rui Poço juntam-se a Padre Guilherme e Diego Miranda numa fusão entre guitarra portuguesa, voz e techno melódico.
Os três temas fazem parte do EP “Fado”, com lançamento previsto para 4 de Setembro através da Lux Aeterna Records.
A passagem pelo UNTOLD deixa assim de ser apenas mais uma data no calendário de Padre Guilherme. É também uma demonstração de que a música portuguesa pode entrar num palco internacional sem perder a sua identidade. Pode levar fado, poesia, guitarra portuguesa e memória, misturá-los com electrónica e encontrar uma nova forma de chegar às pessoas.
No final, talvez seja essa a imagem que fica da noite na Roménia: uma pista de dança enorme, uma língua musical portuguesa no centro e uma ideia simples que continua a atravessar fronteiras. A música pode ser diferente, os ritmos podem mudar, mas a ligação humana continua a ser a mesma.
