Segunda-feira, 7 de Setembro de 2026
Radar Açores

Ponta Delgada Capital Portuguesa da Cultura 2026: Rodrigo Leão e uma semana que leva a cultura para fora do palco

Por Mafalda Matos 7 Set 2026

Sobe ao palco do Coliseu Micaelense, mas a programação desta semana da Ponta Delgada Capital Portuguesa da Cultura 2026 não cabe num único palco. Entre igrejas, juntas de freguesia, museus, adros e espaços comunitários, a cidade e a ilha recebem projetos que trabalham a música, a memória, a dança e a ideia de pertença.

De 7 a 13 de setembro, a agenda reúne propostas para públicos muito diferentes, dos bebés aos participantes de bailes tradicionais, passando por concertos, criação performativa e projetos que partem diretamente das histórias e das paisagens açorianas. Todos os eventos são de entrada gratuita.

Os principais destaques da semana

7 de setembro, 14h00
Contos e Cantos
Junta de Freguesia de São Pedro, Ponta Delgada

7 de setembro, 20h30
Corações ao Alto! Uma experiência de canto e de escuta
Paróquia de Nossa Senhora de Fátima

11 de setembro, 18h00
Belonging
Museu Carlos Machado, Núcleo de Arte Sacra, Igreja do Colégio

12 de setembro, 21h30
Rodrigo Leão apresenta “O Rapaz da Montanha”
Coliseu Micaelense

Quando o território também entra em cena

A semana começa com Contos e Cantos, um projeto que procura descobrir e encenar histórias ligadas ao território. O primeiro encontro acontece a 7 de setembro, na Junta de Freguesia de São Pedro.

Uma rua, uma igreja, um mercado ou uma loja podem guardar histórias que raramente entram numa programação cultural. Aqui, tornam-se matéria para contar e cantar. O projeto parte precisamente dessa proximidade entre os lugares e as pessoas que os habitam, cruzando memória, oralidade e criação.

No mesmo dia, a Paróquia de Nossa Senhora de Fátima recebe Corações ao Alto! Uma experiência de canto e de escuta, orientado por Margarida Mestre. O projeto nasce da observação e da escuta de práticas vocais ligadas a celebrações religiosas e a diferentes tradições.

Mais do que compreender cada palavra, a experiência concentra-se na forma como as vozes se propagam pelo espaço. O som ganha profundidade, encontra as paredes e regressa ao público. A igreja deixa de ser apenas o local onde acontece o concerto e passa a fazer parte da própria experiência sonora.

A cultura ganha outra dimensão quando deixa de estar apenas no palco e começa a circular pela cidade.

É talvez essa uma das ideias mais fortes da programação desta semana. Os projetos não se concentram num único centro cultural e procuram públicos diferentes, ocupando espaços que já têm uma história própria.

Dançar, ouvir e criar desde o início

As Oficinas de Danças do Mundo e Chamarrita do Pico continuam essa relação entre cultura e participação. Os encontros acontecem nos Arrifes e em São Roque e estão abertos a participantes de diferentes idades.

A chamarrita do Pico ocupa um lugar particular neste projeto. Não é apenas uma dança para observar. É uma prática construída através do encontro, do improviso e da presença do mandador. A tradição mantém-se viva enquanto continua a ser dançada.

Também o Eco de Gigões parte de uma ideia de participação, mas dirige-se a um público que raramente aparece no centro das agendas culturais: bebés entre os seis meses e os dois anos.

A oficina trabalha com vocalizações, movimentos, sons e respostas entre bebé e adulto. A música surge antes das regras e das convenções, como uma forma de comunicação imediata. O som de um bebé é acolhido, repetido e transformado, dando origem a pequenos diálogos musicais.

São projetos muito diferentes, mas existe um ponto de contacto: a cultura deixa de ser apenas algo para assistir. Pede resposta, presença e participação.

Belonging e a pergunta sobre o lugar a que pertencemos

No dia 11 de setembro, o Museu Carlos Machado recebe Belonging, um espetáculo que cruza imagens, música ao vivo e histórias pessoais para explorar a ideia de pertença.

A criação aproxima-se de questões relacionadas com identidade, memória e origem, mas também das tensões que surgem quando tentamos transformar a pertença numa informação classificável. O espetáculo passa pela questão dos dados genéticos e pelo mapeamento das populações humanas, sem esquecer que aquilo que nos liga a um lugar dificilmente cabe apenas num resultado ou numa coordenada.

No centro de Belonging está uma pergunta que os mapas e os dados dificilmente conseguem responder: a que lugar pertencemos realmente?

As imagens e a música tornam-se tentativas de capturar esse sentimento. Não para o fechar numa definição, mas para mostrar como a pertença pode nascer de uma memória, de uma pessoa, de uma língua ou simplesmente da sensação de reconhecer um lugar como nosso.

Rodrigo Leão no Coliseu e uma semana que continua para lá do concerto

O momento de maior projeção da semana acontece a 12 de setembro, quando Rodrigo Leão apresenta O Rapaz da Montanha no Coliseu Micaelense.

Editado em 2025, o álbum aproxima-se de diferentes elementos da identidade portuguesa e cruza voz, palavra, coros e percussão num trabalho marcado pela memória e por uma dimensão simultaneamente pessoal e coletiva.

Com mais de 30 anos de carreira, Rodrigo Leão chega a Ponta Delgada com um repertório que se construiu fora das urgências passageiras. A sua música trabalha frequentemente com tempo, atmosfera e permanência, criando espaços onde as canções não procuram apenas avançar, mas também permanecer.

O concerto será provavelmente o momento que reúne mais público nesta semana da PDL26. Mas a programação não termina quando as luzes do Coliseu se apagam.

A partir de 13 de setembro, o fotógrafo Tito Mouraz inicia a residência artística Mergulho, no Pico do Refúgio, na Ribeira Grande. O projeto trabalha as paisagens açorianas através da fotografia em filme polaroid de grande formato e procura afastar-se da imagem previsível do arquipélago.

Costas marítimas, grutas, florestas e formações vulcânicas surgem como territórios de fronteira, entre o reconhecimento e o desconhecido. A paisagem deixa de ser cenário e passa a ser matéria para a criação.

Rodrigo Leão será, provavelmente, o nome mais procurado da programação desta semana. Mas talvez a imagem que melhor explica estes dias esteja noutro lugar: num bebé a responder a um som, num grupo reunido para dançar uma chamarrita ou numa história de bairro transformada em matéria artística. A Capital Portuguesa da Cultura também se constrói nesses momentos.

Exposições PDL26 em agenda

Lugares de Paisagem
Até 28 de setembro
Sala de Exposições da Aula Magna, Universidade dos Açores

Territórios Habitados e Imaginados
Até 30 de setembro
Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada

Horizonte Insubmisso: Ressonâncias entre o Sagrado e o Tempo
Até 31 de outubro
Centro Municipal de Cultura de Ponta Delgada

O Silêncio de Hefesto
Até 1 de novembro
Arquipélago

Sete Retratos e Outras Obras em Forma de Enlace
Até 8 de novembro
Arquipélago

Travessia: Obras de Neves e Sousa
Até 31 de dezembro
Museu Militar dos Açores

Mafalda Matos

Mafalda Matos é jornalista no Música Total, onde assina sobretudo peças sobre [novidades musicais / entrevistas / cultura regional]. Com [10 anos] ligada ao jornalismo cultural, tem acompanhado de perto [festivais, lançamentos nacionais, etc.] e é uma das vozes mais regulares do Radar Nacional e da secção de Entrevistas do site.

Newsletter Semanal

RECEBE A
MÚSICA PRIMEIRO.

Curadoria semanal das melhores novidades musicais, entrevistas exclusivas e agenda de festivais — direto na tua caixa de entrada.

Subscreve gratuitamente

Ao subscrever aceitas os nossos Termos e Condições e Política de Privacidade. Podes cancelar em qualquer momento.