Esta semana, Ponta Delgada não tem um único centro cultural. Tem vários. Entre 21 e 27 de setembro, a programação da Capital Portuguesa da Cultura 2026 leva literatura para livrarias e escolas, música para o Mercado da Graça, cinema para o Arquipélago, arte contemporânea para o Museu Carlos Machado e dança para o Teatro Micaelense.
O resultado é uma agenda particularmente diversa, mas com uma característica comum: muitos dos acontecimentos acontecem fora do formato tradicional de uma programação concentrada num único palco. A cidade torna-se o ponto de ligação entre propostas que vão da literatura à música, passando pelo cinema, pelas artes visuais e pela dança.
Uma maratona de literatura durante seis dias
O Utopia Açores regressa entre 22 e 27 de setembro para o seu terceiro capítulo, desta vez dedicado a uma Maratona Literária que ocupa diferentes espaços de Ponta Delgada.
Escritores, leitores, estudantes, moderadores e agentes ligados ao livro encontram-se em livrarias, escolas, museus e outros espaços culturais para conversar sobre identidade, território, memória, liberdade, poesia e o futuro do livro. O programa inclui mesas-redondas, apresentações, encontros infantojuvenis, sessões em escolas e podcasts ao vivo.
A proposta inclui ainda os jantares literários «A Literatura é para Comer». Mais do que uma sucessão de apresentações, o Utopia procura criar momentos de encontro entre quem escreve e quem lê, aproximando a literatura do quotidiano da cidade.
A música sai das salas habituais
A programação musical desta semana distribui-se por diferentes lugares e também por diferentes gerações.
Entre 24 e 26 de setembro, a sede da Banda Filarmónica Lira de São Roque recebe a Masterclass de Trompa por Marco Maia, integrada no eixo de Capacitação do Projeto Raiz. A iniciativa aposta na aprendizagem prática, na experimentação e na partilha de experiências entre músicos.
No sábado, 26 de setembro, o Mercado da Graça transforma-se em palco para o Carlos Mendes Jazz Trio. Carlos Mendes, Gianna de Toni e Lázaro Raposo apresentam standards de jazz americano, europeu e africano, composições próprias e elementos ligados ao folclore açoriano e aos sons naturais gravados no arquipélago.
Também nesse dia, o projeto «O que é Regional é Bom» chega ao Deriva – Centro de Artes Performativas. A iniciativa cruza artistas regionais e jovens talentos através de concertos, jam sessions e open jams, aproximando linguagens tão diferentes como Fado, Hip Hop, Reggae, House e Jungle.
A noite prossegue no Espaço Rubro com Jonathan Afonso, integrado no ciclo Concertos Vaivém. O projeto dedica-se sobretudo a artistas emergentes locais e regionais e combina os concertos com gravação, edição e divulgação posterior nas plataformas digitais.
É uma das dimensões mais interessantes da semana: a música aparece tanto na formação como no concerto de rua, na criação emergente e no encontro entre diferentes géneros.
Cinema e artes visuais olham para o presente
Entre 25 e 27 de setembro, o Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas recebe o IndieAçores | PDL26, extensão do IndieLisboa nos Açores.
O programa reúne cinco sessões destinadas a escolas, famílias e público geral, incluindo curtas-metragens, Ghost in the Machine e PARA VIVIR – El implacable tiempo de Pablo Milanés. A programação inclui ainda uma oficina de dança e criação colectiva para famílias, dinamizada pelos BAILEIA.
No Museu Carlos Machado, a exposição «a branda respiração de um tempo mais verde», de Margarida Andrade, parte de uma pergunta sobre os lagos secos para abordar o consumo e a distribuição da água em Portugal num contexto de crise climática.
A artista cruza uma curta-metragem com pintura a óleo e coloca em discussão a imagem de uma natureza açoriana permanentemente abundante. Na série «paisagem morta», a presença de espécies invasoras torna-se também uma forma de pensar a transformação dos ecossistemas regionais pela acção humana.
A exposição inaugura a 24 de setembro e permanece patente até 17 de janeiro.
No mesmo dia, a Oficina do Largo recebe as «Oficinas Abertas Viva PDL», com serigrafia, gravura e técnicas experimentais. A iniciativa procura transformar aquele espaço no Jardim Mártires da Pátria num lugar de criação, aprendizagem e participação comunitária.
De Cristina Ataíde a Eça de Queirós
A arte pública também entra na programação. Na manhã de 25 de setembro, o Parque Urbano recebe a inauguração de uma escultura de Cristina Ataíde dedicada aos produtores de leite açorianos.
A obra pretende reconhecer uma actividade profundamente ligada à economia, à paisagem e à identidade dos Açores, estabelecendo uma relação entre arte contemporânea, território e comunidade.
No sábado à noite, é a vez do Teatro Micaelense receber Os Maias.
Fernando Duarte leva ao palco a primeira adaptação coreográfica da obra de Eça de Queirós, num bailado em três atos que cruza a dimensão dramática e irónica do romance com a linguagem contemporânea da dança. António Rosado e solistas da Orquestra de Câmara Portuguesa asseguram a interpretação musical.
O espectáculo tem entrada gratuita, mas os bilhetes estão esgotados.
No domingo, 27 de setembro, Helena Oliveira fecha esta sequência no Teatro Ribeiragrandense com «Cravos D’Ontem, D’Hoje e D’Amanhã», uma revisitação de canções de intervenção nacionais, regionais e internacionais. O espectáculo foi criado no âmbito das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril e da Autonomia Regional.
Durante seis dias, a programação faz uma coisa simples de explicar, mas menos simples de concretizar: espalha a cultura por diferentes lugares e públicos. Literatura, música, cinema, artes visuais e dança não aparecem como ilhas separadas. Encontram-se na mesma cidade, durante a mesma semana.
E talvez seja essa a imagem mais concreta desta agenda: Ponta Delgada como uma cidade onde, esta semana, basta mudar de lugar para mudar também de linguagem artística.
