Existem concertos que são apenas mais uma data numa digressão. Este não parece ser um deles. Quando os Delfins regressarem aos Açores, no próximo 11 de julho, para subir ao palco das Festas do Nordeste, levam consigo quarenta anos de memórias, sucessos e uma ligação que a própria banda admite nunca ter perdido com o arquipélago.
A história entre os Delfins e os Açores começou em 1990 e continua a escrever novos capítulos. Ao longo destas décadas, o grupo atravessou diferentes fases da música portuguesa, viu nascer novas gerações de ouvintes e descobriu que temas como A Cor Azul, Baía de Cascais, Sou Como Um Rio ou + Amor continuam a encontrar espaço na vida de quem os ouviu pela primeira vez há muitos anos e também de quem os descobre hoje através das plataformas digitais.
O concerto no Nordeste surge numa altura particularmente simbólica. Depois da celebração dos 40 anos da banda e enquanto prepara a Tour + Amor, que recupera momentos marcantes da década de 90, o grupo volta a um dos lugares onde sempre encontrou um público caloroso. Para os Delfins, atuar nos Açores é mais do que acrescentar uma data ao calendário. É regressar a um território onde a música ganha outra dimensão.
Em entrevista ao MusicaTotal, a banda fala da evolução da indústria musical, da força das canções que atravessam gerações, do futuro dos Delfins e da emoção de voltar ao meio do Atlântico. Entre recordações e novos projetos, fica uma frase que resume a relação com o arquipélago: “A magia dos Açores sente-se mal se sai do avião.”
A celebração dos 40 anos dos Delfins mostrou que as vossas canções continuam a reunir diferentes gerações. Como explicam esta capacidade de permanecerem atuais ao longo de quatro décadas?
São canções que, felizmente, não ficaram datadas com o tempo. Talvez haja algo de universal no que as letras dizem e na energia que a banda lhes imprimiu quando as gravou. E isso passa de geração em geração. Também é importante que a rádio continue a tocá-las, algumas há já 40 anos, como refere.
Ao longo desta digressão comemorativa, houve algum momento em palco que vos tenha emocionado ou surpreendido de forma especial?
Sim. Certos palcos são quase máquinas de viajar no tempo. Lembro-me dos espetáculos no AgitÁgueda, no Douro Wine Fest e, muito recentemente, em Benfica e Tavira. Que noites incríveis! Claro que a celebração dos 40 anos, com o MEO Arena e a Super Bock Arena esgotados, passado todo este tempo, será sempre muito especial.
A Tour U Outro Lado propõe um olhar diferente sobre o vosso repertório. O que descobriram nas vossas próprias canções ao revisitá-las nesse contexto mais intimista?
É um regresso a um espaço com mais silêncios e dinâmicas, sem o rebuliço dos concertos de verão. Dá-nos a oportunidade, a nós e aos fãs, de revisitarmos certas canções mais escondidas da nossa carreira, das quais também sentimos saudades.
Em 2026 apresentam a nova Tour + Amor, recuperando temas que marcaram a digressão de 1994/95. O que motivou esse regresso a essa fase específica da vossa carreira?
Quando decidimos regressar aos palcos, queríamos, do ponto de vista editorial, trabalhar sobre algo específico, uma vez que não há discos novos. Achámos interessante revisitar algumas digressões do passado, criando, a partir dessas memórias, novos apontamentos musicais e cenográficos.
Entre clássicos como “A Cor Azul”, “Baía de Cascais” ou “+ Amor”, como escolhem o alinhamento ideal para um concerto dirigido a públicos tão diversos?
Há um alinhamento anual, definido nos ensaios gerais, que depois vai sendo afinado de espetáculo para espetáculo. Na tour de verão, em que praticamente todas as canções foram singles, a tarefa fica bastante facilitada.
A música portuguesa mudou profundamente desde os anos 80. Como observam a evolução da indústria musical e o lugar que os Delfins ocupam atualmente?
O mercado da memória está em alta, como se sabe. São canções que os pais viveram na altura e que agora os filhos descobrem na rádio ou nas plataformas digitais. Depois, tudo depende da atitude e da energia da “velha” banda em palco. É isso que faz a diferença. A indústria mudou muito e os espetáculos ao vivo têm hoje uma relevância ainda maior na carreira de um artista ou de uma banda.
Muitos jovens estão hoje a descobrir os Delfins através das plataformas digitais e das redes sociais. Como é sentir que as vossas canções continuam a encontrar novos públicos?
As plataformas vieram fazer com que pareça que toda a música esteja a acontecer ao mesmo tempo, a do presente e a do passado. É uma lógica cultural diferente, em que a descoberta é o mais importante, seja um novo lançamento ou um disco obscuro dos anos 80. Acho isto fascinante: a recontextualização de uma obra no presente, seja qual for a sua origem temporal.
Depois de tantos anos de carreira, ainda existe espaço para novas composições ou o foco está sobretudo em celebrar o legado da banda?
Para já, celebramos as canções dos Delfins com a energia dos nossos tempos. Nunca gostámos de fazer planos a longo prazo. Também sabemos que, no caso de uma banda como os Delfins, as pessoas querem celebrar essas canções e voltar a ouvir os temas que marcaram momentos específicos das suas vidas. Contamos com as novas gerações para as reinterpretarem à sua maneira. O futuro o dirá.
Os concertos dos Delfins sempre foram reconhecidos pela forte componente visual e pela ligação com o público. O que continua a ser indispensável para que um espetáculo vos deixe verdadeiramente satisfeitos?
Primeiro, condições máximas no que respeita à qualidade do palco, da luz, do vídeo e do som. Depois, a entrega da banda ao público e a entrega do público ao espetáculo. Tem de funcionar dos dois lados.
Olhando para estes 40 anos, qual consideram ter sido o momento mais marcante da história dos Delfins?
É muito difícil escolher apenas um momento. Talvez os Coliseus esgotados na digressão de Saber Amar, em 1997. Foram espetáculos de grande partilha, com músicos em palco vindos de vários continentes.
Que mensagem gostariam de deixar aos fãs que têm acompanhado a banda desde o início e também àqueles que irão assistir a um concerto dos Delfins pela primeira vez?
Que venham os velhos e os novos. A celebração só faz sentido se for multigeracional, se o testemunho das canções for sendo passado. Aos mais novos, venham ver uma banda “à antiga”, orgânica e a dar tudo em palco. Aos fãs e ao Clube de Fãs, a vossa presença faz-nos sempre ganhar a noite.
No dia 11 de julho de 2026 regressam aos Açores para atuar nas Festas do Nordeste, na ilha de São Miguel. O que representa para os Delfins voltar a tocar no arquipélago e que memórias guardam das anteriores passagens pelos Açores? Existe sempre uma energia diferente quando atuam no meio do Atlântico?
Adoramos os Açores desde 1990, a primeira vez que tocámos nas ilhas, nas Festas do Mar, na Horta, onde acabámos por ficar retidos durante uma semana. Este mês de julho vamos atuar em três ilhas diferentes, numa verdadeira Tour Açores 2026. Será, sem dúvida, muito especial. A magia dos Açores sente-se mal se sai do avião.
