Grisa não é apenas cantora e compositora. O seu percurso passa também pela construção de instrumentos, pela eletrónica e por uma relação pouco convencional com a forma como uma canção pode ser criada.
A artista brasileira, nascida em Assis, no estado de São Paulo, desenvolve um trabalho onde a voz, os instrumentos acústicos, os dispositivos eletrónicos e diferentes texturas sonoras convivem sem uma fronteira rígida entre canção e experimentação.
Atualmente ligada à Cidade Dormitório e com um percurso a solo que ganhou uma nova dimensão com o álbum Amor Trespasse, Grisa começa a surgir em diferentes pontos da música independente brasileira. A recente colaboração com Vinícius Gouveia em “Anjos de Papel” é mais uma dessas ligações.
Mas quem chega agora ao seu nome encontra um percurso que já vem de trás e uma artista para quem tocar um instrumento nem sempre é suficiente. Por vezes, é preciso também pensar como esse instrumento pode ser transformado.
Quem é Grisa e como começou o seu percurso
Grisa é o projeto artístico de Giovana Ribeiro Santos, cantora, compositora e instrumentista brasileira. Ao longo do seu percurso, passou por diferentes cidades, projetos e experiências ligadas à música independente.
Antes de consolidar o trabalho a solo, integrou projetos como a banda Ventilador de Teto e desenvolveu uma relação cada vez mais próxima com a criação musical independente. O seu percurso também passou por estudos e experiências fora do Brasil, elementos que ajudam a perceber a diversidade de referências presentes no seu trabalho.
A ligação à música não se limitou, porém, à interpretação ou à composição. Grisa desenvolveu também uma investigação pessoal em torno dos instrumentos e das possibilidades do som, aproximando a sua prática artística da construção e experimentação eletrónica.
Essa procura tornou-se uma das características mais particulares do seu percurso.
Em vez de construir a sua identidade apenas a partir de um género musical, Grisa parece interessada naquilo que acontece antes da própria definição de estilo: a descoberta de um timbre, a utilização inesperada de um objeto ou a possibilidade de transformar uma ferramenta num novo ponto de partida para uma canção.
É por isso que descrevê-la apenas como uma cantora de música alternativa deixa sempre qualquer coisa de fora.
Uma artista que também constrói os instrumentos que explora
Uma das particularidades mais interessantes do trabalho de Grisa está na relação direta que mantém com os instrumentos e dispositivos utilizados na criação musical.
Para além da composição e da interpretação, a artista trabalha como luthier eletrónica e desenvolve instrumentos não convencionais. Entre as experiências associadas ao seu trabalho encontra-se a construção de dispositivos eletrónicos e de instrumentos inspirados no theremin.
Esta dimensão não deve ser vista apenas como uma curiosidade técnica.
Quando um músico altera ou constrói a própria ferramenta, altera também as possibilidades do som que pode retirar dela. O instrumento deixa de ser apenas um meio para executar uma ideia previamente definida e passa a participar no próprio processo de descoberta.
No caso de Grisa, esta relação ajuda a explicar a presença de texturas e timbres pouco previsíveis no seu trabalho. A sua música pode partir de estruturas próximas da canção, mas abre espaço para ruídos, objetos, eletrónica e instrumentos acústicos que não aparecem apenas como decoração.
Um bom exemplo dessa abertura está nos créditos de “Três de Espadas”, lançado em 2024. A faixa inclui, para além de voz e violão, elementos como telefone, pincel, serrote tocado com arco de violino e até uma esponja de cozinha.
É um detalhe que diz bastante sobre a forma como Grisa trabalha: o interesse não está apenas em encontrar o instrumento certo para uma música, mas também em descobrir se um objeto inesperado pode tornar-se parte dela.
Da Cidade Dormitório ao projeto a solo
Grisa divide o seu percurso entre diferentes contextos da música independente brasileira. Um deles é a Cidade Dormitório, projeto onde atua como instrumentista e que representa uma das ligações da artista a uma cena coletiva.
Em paralelo, o trabalho a solo permitiu-lhe desenvolver uma identidade mais diretamente ligada à sua própria escrita e às experiências sonoras que tem vindo a explorar.
O primeiro álbum de Grisa, Amor Trespasse, foi lançado a 25 de junho de 2025 pelo selo midsummer madness. O disco reúne 13 faixas e tem cerca de 39 minutos.
A música de Amor Trespasse é um bom ponto de entrada para perceber como soa o universo da artista.
A voz ocupa frequentemente um lugar central, enquanto violões e outros elementos acústicos se cruzam com texturas menos previsíveis. O disco move-se entre momentos íntimos e canções mais densas, com temas ligados ao amor, à ansiedade, à insegurança e ao medo de perder.
“Fogo Frio”, primeiro single associado ao álbum, apresenta também uma escrita que atravessa diferentes idiomas, combinando português, francês e inglês.
Já “Três de Espadas” revela uma dimensão mais vulnerável da escrita de Grisa, colocando o medo, a ansiedade e a relação amorosa no centro de uma canção que se desenvolve sem pressa.
Mais do que escolher entre música experimental ou canção intimista, Grisa parece interessada em manter as duas possibilidades abertas.
Como soa Grisa e porque vale a pena acompanhá-la
Ouvir Grisa não é entrar num território de eletrónica experimental desligado da canção. A voz continua a ser uma das peças mais importantes do seu trabalho.
Existe uma proximidade na interpretação e uma escrita marcada por relações afetivas, insegurança, desejo e transformação. Em Amor Trespasse, essas canções são atravessadas por instrumentos acústicos e por elementos sonoros que nem sempre obedecem à ideia mais tradicional de arranjo.
É talvez aí que o trabalho da artista se torna mais interessante.
Grisa não parece usar a experimentação para afastar o ouvinte. Pelo contrário, utiliza diferentes sons para tornar a canção mais particular. Um objeto, um ruído ou uma textura podem entrar na música sem substituir aquilo que está no centro: a voz e a experiência emocional que a canção procura transmitir.
A colaboração com Vinícius Gouveia em “Anjos de Papel” mostra outra possibilidade. A presença de Grisa encaixa num contexto mais próximo do indie e do dream pop, demonstrando que a sua identidade sonora consegue dialogar com universos diferentes sem desaparecer.
É cedo para tentar definir o lugar que Grisa ocupará nos próximos anos da música brasileira independente. Mas o percurso já permite perceber uma coisa.
A sua música não depende de escolher entre ser cantora, compositora, instrumentista ou criadora de instrumentos. Essas áreas fazem parte do mesmo processo.
E talvez seja precisamente por isso que vale a pena acompanhá-la agora. Porque, enquanto muitas carreiras começam por procurar uma fórmula reconhecível, Grisa continua a testar o que acontece quando a própria forma de fazer música ainda está em movimento.
O que ouvir primeiro de Grisa
“Ainda Assim”
Uma das portas de entrada para o lado mais íntimo de Amor Trespasse.
“Fogo Frio”
Mostra a abertura da artista a diferentes idiomas e texturas.
“Três de Espadas”
Uma canção importante para perceber a relação de Grisa com a vulnerabilidade e com a experimentação sonora.
“Anjos de Papel” com Vinícius Gouveia
A colaboração mostra a artista num contexto diferente, mais próximo do indie e do dream pop.
Vídeo para ver
Sugestão editorial: inserir o videoclipe oficial de “Fogo Frio” ou outro vídeo oficial de Grisa disponível no canal da artista ou da midsummer madness.
Página oficial de Grisa na midsummer madness
Ficha rápida: Quem é Grisa?
Nome artístico: Grisa
Nome: Giovana Ribeiro Santos
Naturalidade: Assis, São Paulo, Brasil
Áreas: cantora, compositora, instrumentista e luthier eletrónica
Projeto coletivo: Cidade Dormitório
Projeto anterior: Ventilador de Teto
Álbum de estreia: Amor Trespasse (2025)
Selo: midsummer madness
Destaque recente: colaboração com Vinícius Gouveia em “Anjos de Papel”
Por onde começar: Amor Trespasse
