Segunda-feira, 10 de Agosto de 2026
Editorial

ROLE MODEL enfrenta o tempo e o amor no novo álbum “Chuck Timely & The Hourglass”

Por Mafalda Matos 10 Ago 2026

O novo disco de ROLE MODEL chega num momento em que Tucker Pillsbury já não precisa de provar que sabe escrever canções sobre relações. Depois do impacto de “Sally, When The Wine Runs Out” e do crescimento de Kansas Anymore, a questão agora é outra: o que fazer quando a vida começa a mudar mais depressa do que aquilo que conseguimos acompanhar?

“Chuck Timely & The Hourglass”, lançado a 7 de agosto pela Interscope Records, é o terceiro álbum de estúdio de ROLE MODEL e encontra o músico num território onde o amor, a solidão e a passagem do tempo se cruzam. A escrita continua pessoal, mas a nova fase parece interessada em olhar para essas experiências com uma perspectiva mais larga.

Chuck Timely tornou-se parte da história

A nova era de ROLE MODEL começou antes de o álbum chegar às plataformas. Alguns fãs receberam pelo correio cartões antigos assinados por uma misteriosa personagem chamada Chuck Timely. Os cartões traziam um número de telefone que conduzia a uma mensagem de voz e, pouco depois, surgiu uma conta de Instagram dedicada à personagem.

A Universal descreveu a campanha como uma forma de criar mistério em torno do álbum, com imagens de Chuck Timely recriado através de diferentes épocas. A identidade da personagem tornou-se parte da narrativa que acompanha o disco, sem que ROLE MODEL entregasse imediatamente todas as respostas.

O próprio título aponta para essa obsessão com o tempo. Uma ampulheta não deixa ninguém voltar atrás. A areia cai e, quando chega ao fim, resta apenas aquilo que aconteceu.

É uma imagem que encaixa bem na escrita de Pillsbury. As suas canções continuam próximas das relações, das dúvidas e das pequenas inseguranças que aparecem quando percebemos que crescer também significa deixar algumas coisas para trás.

“O passado está sempre presente, mas não existe maneira de o fazer parar.”

 

 

“High Hopes 3000” abriu uma nova porta

“High Hopes 3000” foi o primeiro avanço de Chuck Timely & The Hourglass e marcou a primeira entrada de ROLE MODEL na Billboard Hot 100. A canção também apresentou visualmente esta nova fase, através de um videoclip realizado por Danica Arias Kleinknecht.

Depois chegou “Joy”, segundo single do álbum. Produzida por Mason Stoops e Kane Ritchotte, com produção adicional de Taylor Mackall, a canção aproxima-se de uma ideia de felicidade menos complicada. O videoclip, realizado por Tucker Pillsbury e William DeSena, acompanha dois amigos numa viagem pelo deserto, entre momentos de humor, amizade e pequenas aventuras.

As duas canções funcionam como portas de entrada diferentes para o disco. Uma apresenta uma energia pop mais imediata, enquanto a outra encontra emoção numa situação aparentemente simples.

O alinhamento completo mantém essa variedade:

  1. “Chuck’s Mantra”
  2. “High Hopes 3000”
  3. “Song Is All You Get”
  4. “Love I You”
  5. “Chasing Midnight”
  6. “Good Thing”
  7. “Joy”
  8. “Service Receipt”
  9. “Honeydew”
  10. “Stain”
  11. “The Wedding”
  12. “Harmony”

A escrita continua a ser uma das principais forças de ROLE MODEL. Não existe uma tentativa evidente de abandonar aquilo que trouxe Pillsbury até aqui. Existe, antes, vontade de ampliar esse espaço.

Depois de “Sally”, já não bastava repetir a fórmula

A sombra de “Sally, When The Wine Runs Out” seria difícil de evitar. A canção tornou-se o grande fenómeno de Kansas Anymore, o segundo álbum de estúdio de ROLE MODEL, lançado em 2024.

O disco consolidou a evolução do músico enquanto compositor e intérprete, aproximando a sua pop de uma produção com influência folk e de uma escrita mais narrativa. “Sally, When The Wine Runs Out” acabou por se tornar uma das suas canções mais reconhecidas e ajudou a levar ROLE MODEL a palcos como The Tonight Show Starring Jimmy Fallon e Saturday Night Live. Neste último, Pillsbury interpretou a canção com uma participação surpresa de Charli XCX, seguindo depois com “Some Protector”.

A escala da carreira também mudou. A No Place Like Tour vendeu mais de 90 mil bilhetes em todo o mundo e, no verão seguinte, ROLE MODEL juntou-se a Gracie Abrams como convidado especial na The Secret of Us Deluxe Tour.

É aqui que Chuck Timely & The Hourglass ganha importância. Depois de um álbum que encontrou uma ligação forte com o público, Pillsbury tinha duas hipóteses: tentar repetir a fórmula ou continuar a avançar.

Escolheu a segunda.

O novo álbum não precisa de apagar “Sally”. Precisa apenas de mostrar que ROLE MODEL não ficou preso à canção que o ajudou a chegar a um público muito maior.

A próxima resposta acontece em palco

A nova fase vai continuar na estrada. A CHUCK ON TOUR começa a 9 de setembro de 2026, em Bend, Oregon, com Samia como artista convidada. A etapa norte-americana passa por cidades como Seattle, Vancouver, Nova Iorque, Nashville e Los Angeles antes de terminar em Berkeley, a 18 de outubro.

A Europa recebe a digressão a partir de 11 de fevereiro de 2027, em Berlim, seguindo depois por Amesterdão, Bruxelas, Düsseldorf, Paris, Dublin e Londres. Keni Titus acompanha esta etapa como convidada.

Antes da digressão própria, ROLE MODEL continua também no circuito de festivais, com actuações previstas no Leeds Festival, Electric Picnic e Reading Festival no final de agosto.

A estrada chega, portanto, num momento particularmente importante. Chuck Timely & The Hourglass já não é apenas o disco seguinte de um artista que teve uma canção viral. É o teste à capacidade de ROLE MODEL continuar a crescer sem perder aquilo que tornou a sua escrita reconhecível.

Tucker Pillsbury começou por transformar inseguranças pessoais em canções. Agora parece interessado numa pergunta mais difícil: o que acontece quando essas inseguranças deixam de ser apenas sobre relações e passam a ser também sobre o tempo?

A resposta está nas doze canções de Chuck Timely & The Hourglass. E, a partir de setembro, também vai estar no palco.

Mafalda Matos

Mafalda Matos é jornalista no Música Total, onde assina sobretudo peças sobre [novidades musicais / entrevistas / cultura regional]. Com [10 anos] ligada ao jornalismo cultural, tem acompanhado de perto [festivais, lançamentos nacionais, etc.] e é uma das vozes mais regulares do Radar Nacional e da secção de Entrevistas do site.

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