Sábado, 22 de Agosto de 2026
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Sam Smith muda a história: em Hazel Eyes, o amor já não acaba em perda

Por Jorge Silva Medeiros 22 Ago 2026

Sam Smith lançou a 21 de agosto o quinto álbum de estúdio, Hazel Eyes, um disco construído a partir de uma relação vivida no presente e de uma nova forma de olhar para a vulnerabilidade. O novo single, “Constant Companion”, reforça essa mudança com guitarras crepusculares, cordas e uma atmosfera de western cinematográfico.

Durante boa parte da carreira, Sam Smith tornou a perda, a solidão e o medo de ficar sozinho em matéria-prima para algumas das suas canções mais conhecidas. Hazel Eyes parte de outro lugar. O amor continua a estar no centro, mas desta vez não aparece apenas como aquilo que pode acabar. É também aquilo que se escolhe viver.

O quinto álbum de estúdio do artista britânico chega depois de Gloria, de 2023, e representa uma mudança de perspectiva mais do que uma ruptura musical. Sam Smith mantém a pop como ponto de partida, mas abre espaço para folk britânico, country outlaw, R&B e arranjos de cordas, procurando uma sonoridade mais orgânica e menos dependente da fórmula pop mais imediata.

 

 

Sam Smith troca a perda pela intimidade

Hazel Eyes foi desenvolvido ao longo de três anos, durante um período de mudanças profundas na vida de Sam Smith. Entre elas esteve a mudança de Inglaterra para Nova Iorque e o início de uma nova relação. Essa transformação pessoal acabou por entrar directamente na escrita das canções.

A abertura do álbum, “Everlasting Love”, coloca o ouvinte no início de uma história de amor. A partir daí, as canções acompanham diferentes estados dessa relação, entre desejo, confiança, medo e entrega. O título do álbum nasce precisamente dessa dimensão romântica e dá nome à canção que ocupa o segundo lugar no alinhamento.

“My Guy” foi uma das primeiras amostras desta nova fase. Em vez da habitual narrativa de uma relação marcada pela ruptura, Sam Smith assume frontalmente o prazer de estar com alguém. A canção não tenta esconder o romantismo. Pelo contrário, coloca-o no centro.

Essa escolha tem algum peso na carreira de Smith. O artista tornou-se conhecido por interpretar emoções extremas com uma voz que facilmente transforma uma balada num momento de grande exposição. Aqui, a vulnerabilidade passa também por admitir que uma relação pode trazer felicidade.

Um disco feito com uma abordagem mais orgânica

A mudança não está apenas nas letras. Pela primeira vez, Sam Smith assume também funções de coprodução num álbum, trabalhando com Simon Aldred e David Odlum. O processo procurou uma abordagem mais orgânica e uma relação mais próxima entre os músicos envolvidos.

As sessões passaram pelos Electric Lady Studios, em Nova Iorque, e reuniram um grupo alargado de colaboradores. Entre eles estão Feist, o multi-instrumentista Shahzad Ismaily, Rob Moose e o colectivo vocal TwoCity Chorus, formado por 28 vozes.

Esta combinação ajuda a explicar a diversidade de Hazel Eyes. “Moondance”, com Feist, aproxima-se de uma linguagem indie pop e folk. “Oh Mother”, com o TwoCity Chorus, amplia a dimensão vocal da música através de harmonias colectivas. Noutros momentos, as cordas e os instrumentos acústicos assumem um papel mais evidente.

O resultado não é uma reinvenção completa de Sam Smith. E talvez não precise de ser. O interesse está na forma como o artista altera o enquadramento daquilo que já sabe fazer. A voz continua no centro, mas o espaço à sua volta é agora mais terreno, menos dependente do brilho da produção pop.

“Constant Companion” leva o novo universo para o cinema

“Constant Companion” é uma das canções que melhor traduz esta nova fase. O tema constrói uma atmosfera próxima de um western, com guitarras crepusculares e cordas de Rob Moose, enquanto Sam Smith conduz a canção através de um registo vocal grave e contido.

O vídeo oficial foi filmado em Espanha pelo realizador Albert Moya e conta com coreografia do colectivo (LA)HORDE. A componente visual prolonga a atmosfera da música e dá ao tema uma dimensão cinematográfica.

Antes da chegada do álbum, Sam Smith tinha apresentado “When He’s Gone”, “Oh Mother” e “My Guy”. Cada single revelou uma parte diferente do disco. “When He’s Gone” recupera o medo da perda, “Oh Mother” aposta na força das harmonias vocais e “My Guy” assume o romantismo de forma directa.

A sequência é importante porque mostra que Hazel Eyes não apagou aquilo que sempre esteve presente na música de Smith. O medo continua lá. A diferença é que deixou de ser o único ponto de partida.

Hazel Eyes chega depois de Gloria

A comparação com Gloria é inevitável. O álbum de 2023 levou Sam Smith para um território pop mais expansivo e provocador, com “Unholy”, colaboração com Kim Petras, a tornar-se um dos maiores êxitos da sua carreira.

Hazel Eyes escolhe uma escala diferente. Não procura necessariamente o grande momento pop. Prefere canções construídas à volta da voz, das guitarras, das cordas e das harmonias.

Essa escolha também traz riscos. Quando a produção se aproxima demasiado da pop tradicional, algumas das ideias do álbum podem parecer familiares. Mas quando Smith permite que os arranjos respirem, como acontece em “Constant Companion” ou “Moondance”, percebe-se melhor a direcção que está a tentar seguir.

O quinto álbum não precisa de anunciar uma nova personagem. Sam Smith parece estar a fazer outra coisa: aceitar que a sua música também pode nascer de uma fase em que o amor não é sinónimo de perda.

E isso, para um artista que construiu grande parte da carreira a cantar aquilo que acontece depois de uma relação terminar, já é uma mudança considerável.

As 12 canções de Hazel Eyes

  1. “Everlasting Love”
  2. “Hazel Eyes”
  3. “Moondance” feat. Feist
  4. “My Guy”
  5. “When He’s Gone”
  6. “Thief”
  7. “Love Is A Stillness”
  8. “Sugar Rush”
  9. “Oh Mother” feat. The TwoCity Chorus
  10. “Constant Companion”
  11. “Hold On”
  12. “To Be Free”

 

Sobre Sam Smith

Sam Smith é um dos nomes mais celebrados da música na história recente. Detém cinco prémios GRAMMY® e dois recordes do Guinness World Records. Um deles corresponde ao maior número de semanas consecutivas no Top 10 da tabela de álbuns do Reino Unido, alcançado com o álbum de estreia de 2014, In the Lonely Hour. O outro diz respeito ao primeiro tema da saga James Bond a chegar ao n.º 1 das tabelas britânicas, “Writing’s On the Wall”, vencedor de um Óscar e de um Globo de Ouro.

Sam Smith soma o equivalente a mais de 64 milhões de álbuns vendidos, 396 milhões de singles vendidos e mais de 57 mil milhões de reproduções em streaming. A sua discografia inclui os aclamados álbuns In the Lonely Hour, The Thrill of It All, Love Goes e Gloria, este último descrito pela Rolling Stone como “o seu álbum mais profundo até à data” e que inclui o êxito mundial “Unholy”, com Kim Petras.

Unholy” permaneceu três semanas no n.º 1 da Billboard Hot 100 e quatro semanas no n.º 1 da Official Singles Chart do Reino Unido, tornando-se o oitavo single de Sam Smith a alcançar o topo da tabela.

Em junho de 2025, Sam Smith lançou o aclamado álbum ao vivo BBC Proms at the Royal Albert Hall. Em julho de 2025, regressou com “To Be Free”, uma canção acústica e soul que explora a forma como a vulnerabilidade pode abrir caminho à coragem e à liberdade.

O tema recebeu elogios de publicações como o The New York Times, a Rolling Stone, que descreveu Sam Smith como alguém que “se sente leve como uma pena”, a Billboard, que considerou a canção “uma das suas canções mais marcantes dos últimos anos”, e a Stereogum, que a classificou como “emocionalmente arrebatadora… imensamente poderosa”, entre outras.

O quinto álbum de estúdio de Sam Smith, Hazel Eyes, já está disponível.

Jorge Silva Medeiros

Jorge Silva Medeiros é técnico de som na RTP e fundador do Música Total, um dos projetos editoriais dedicados à música com maior longevidade em Portugal, dentro da plataformas. Ligado ao setor da comunicação e da música há mais de duas décadas, criou também a Rádio Atlântida e tem desenvolvido um trabalho contínuo na divulgação da música portuguesa, dos artistas emergentes e dos grandes eventos culturais, assim como produção de eventos.

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