Segundo Rosmaninho nasceu para dar voz a canções escritas em português e a um percurso profundamente ligado às emoções, às experiências pessoais e às histórias do quotidiano. O projeto começou em 2012, numa fase marcante da sua vida, e desde então a escrita e a música tornaram-se uma forma natural de expressão.
Sem pretensões de reinventar a música, Segundo Rosmaninho procura encontrar o seu próprio caminho, cruzando diferentes referências e linguagens. Entre a tradição portuguesa, o fado, a música clássica e o reggae, constrói um universo onde as influências convivem de forma espontânea, sem perder de vista a identidade pessoal.
Nesta conversa com o Música Total, fala sobre a origem do projeto, a importância das experiências autobiográficas na sua escrita, a relação entre o artista e as canções depois de estas chegarem ao público, as influências que marcaram o seu percurso e a vontade de continuar a lançar as canções que tem vindo a escrever em português. Uma conversa sobre identidade, liberdade criativa e a necessidade de continuar a fazer música sem perder aquilo que torna cada canção verdadeiramente sua.
Segundo Rosmaninho é um nome que imediatamente evoca território, memória e identidade. Que significado tem para ti e em que medida traduz o artista que estás a construir?
Rosmaninho é simplesmente o meu apelido. O nome Segundo Rosmaninho nasceu porque comecei a fazer canções em português e queria dedicar ao meu segundo filho, o José.
Quando começou a existir a necessidade de transformar aquilo que sentias ou vivias em canções? Houve algum momento concreto em que percebeste que a música seria a tua forma de expressão?
Já comecei em 2012, na altura do nascimento da minha primeira filha. Fez-me ganhar coragem para pôr a voz à frente de um microfone, coragem para escrever sem medo, o que até aí não conseguia fazer. E olha, nunca mais parei. Não tenciono parar tão cedo.
A tua música parece viver entre a tradição e uma linguagem contemporânea. Como encontras o equilíbrio entre aquilo que recebeste da cultura portuguesa e aquilo que queres reinventar?
Eu não tenho pretensões a reinventar nada. Quero simplesmente dar o meu toque pessoal e, se possível, deixar uma pequena marca com identidade e originalidade. É tudo o que posso tentar fazer para não ser só mais uma cópia da cópia da cópia. Hoje em dia, e apesar da imensa oferta, há poucos que são realmente originais.
Quando escreves uma canção, partes normalmente de uma história, de uma emoção, de uma imagem ou de uma sonoridade? Como nasce, verdadeiramente, uma música de Segundo Rosmaninho?
Normalmente, através das emoções. A emoção de um momento, como um simples pôr do sol sentado a olhar para o mar na praia, ou de uma vivência comum do dia a dia. Qualquer coisa serve de gatilho para empurrar o nascimento de uma canção, se a inspiração assim o entender.
Existe sempre uma parte autobiográfica naquilo que escreves ou também gostas de vestir outras personagens, experiências e vidas que não são necessariamente as tuas?
Normalmente, as minhas canções são super autobiográficas. O sentimento e a execução das canções são outros quando escreves sobre ti mesmo. E é mais fácil do que tentar pôr-me nos sapatos de outra pessoa, tentando reviver as suas histórias. Não digo que nunca o fiz, mas normalmente as canções são melhores e saem mais facilmente se forem feitas sobre as minhas histórias e emoções.
A música portuguesa atravessa atualmente uma fase de grande diversidade estética. Onde sentes que Rosmaninho se posiciona dentro dessa nova geração e que espaço gostarias de conquistar?
Bem, eu já sou pouco “velho” para estas estéticas modernas (risos). Se fosse um prato de um restaurante, diria que estaria entre o tradicional e a cozinha de fusão, onde há espaço para, às vezes, seguir um tempero diferente com uma base à antiga.
Há alguma coisa que não queres perder à medida que o projeto cresce, uma maneira de escrever, uma sonoridade, uma relação com o público ou até uma certa fragilidade?
Gostava de tentar não perder a minha identidade como artista. A fase mais bonita dos projetos musicais é quando são feitos sem pensar se a música vai vender ou se vai passar na rádio. Quando não há barreiras mentais que, às vezes, esvaziam os bons projetos.
Até que ponto pensas nas canções como objetos que pertencem primeiro a ti e só depois ao público? Quando uma música é lançada, consegues deixar de a sentir como exclusivamente tua?
Sim, até ao lançamento são minhas. A música que faço é para mim. Depois, quando passa para o público, é do público, e já não tenho controlo absolutamente nenhum sobre o que pode acontecer, sobre quem ouve e o significado que cada um lhe dá. Confesso que é bom o sentimento de, às vezes, ir ouvir músicas mais antigas e algumas ainda me fazerem arrepiar, quando relembro as histórias que fizeram com que a canção acontecesse.
O palco revela muitas vezes uma dimensão diferente de um artista. O que descobriste sobre Segundo Rosmaninho ao começares a apresentar estas canções ao vivo?
Infelizmente, ainda não tive oportunidade de apresentar estas canções ao vivo, mas espero que possa estar para breve.
Que artistas, discos ou tradições te ajudaram a perceber não apenas aquilo que gostavas de ouvir, mas sobretudo aquilo que querias ser enquanto artista?
Não podendo nomear especificamente nenhum, gosto muito da escrita do Pedro Puppe, dos Oioai, por exemplo. Por causa do meu filho mais novo, comecei a ouvir fado e a Amália é a artista mais ouvida no meu Spotify hoje em dia (risos). Gosto também de música clássica e ouço bastante reggae. Por isso, olha, é uma grande salganhada de tempos, estilos e maneiras de chegar ao meu som, que felizmente sai naturalmente.
Se pudesses voltar ao início deste percurso e falar com o Rosmaninho que estava a dar os primeiros passos, que conselho lhe darias e que erro lhe dirias para não ter medo de cometer?
Que nunca se esqueça de quem é e de onde veio. Não ter medo de arriscar e não dar demasiada importância ao que os outros possam ou não achar do seu trabalho.
O que ainda falta acontecer para sentires que Rosmaninho deixou de ser apenas um projeto artístico e passou a ser, de facto, um lugar onde queres permanecer?
Lançar o resto das canções que já fiz em português. Ainda faltam umas quantas (risos). A minha ideia original era ter lançado um disco com todas, mas a vida nem sempre anda como nós imaginamos e, olha, vai ter que ser uma a uma.
