Quinta-feira, 29 de Outubro de 2026
Radar Nacional

Será que partir resolve todos os problemas?

Por Anabela da Rocha 28 Out 2026
Lançada em 1988, no álbum de estreia de Tracy Chapman, Fast Car tornou-se uma das canções mais marcantes que plasmou na memória de uma geração. Confesso que esta é uma das músicas da minha vida.
Com uma melodia simples e uma voz inconfundível, grave, quente e profundamente expressiva, a cantora transmite uma rara combinação de força, melancolia e sensibilidade. Uma voz que não precisa de se impor para nos emocionar e que dá vida à história de uma jovem que sonha escapar à pobreza, às dificuldades familiares e a uma vida sem grandes perspetivas. O carro veloz representa a esperança de partir. Ir para além do horizonte, com a esperança de ir ao encontro de novas oportunidades e construir uma vida diferente.
No entanto, a história revela-nos que ao libertar-se de uma situação familiar difícil, acaba mais tarde por viver uma relação onde se repetem algumas das dificuldades que conhecia. O sonho de uma vida diferente confronta-se com uma realidade que, afinal, não ficou totalmente para trás.
E surge a questão, será que partir resolve todos os problemas?
Há momentos em que também nós sentimos vontade de deixar alguma coisa para trás. Um lugar, uma relação, uma rotina, uma realidade que já não queremos viver. E imaginamos que, algures, num sítio diferente, existe uma possibilidade diferente à nossa espera.
Quantas vezes pensamos que tudo seria mais fácil se pudéssemos começar num sítio diferente? Longe das preocupações, dos conflitos, das responsabilidades ou das situações que nos fazem sofrer.
Sim, partir em determinadas situações é mesmo necessário. Abandonar para recuperar a liberdade de escolha, crescer e construir novas possibilidades.
Mas será que basta apenas partir? Será que a distância que percorremos nos leva ao lugar que imaginamos?
A verdade é que, muitas vezes, os sonhos encontram a realidade pelo caminho. Aquela que não queríamos ver nem resolver. Aquela que pensávamos que, ao partir, ficaria para trás.
E descobrimos que podemos mudar de lugar e continuar a sentir os mesmos medos, repetir os mesmos comportamentos ou reencontrar dificuldades semelhantes, ainda que em circunstâncias diferentes.
Sim, partir pode abrir um novo caminho, mas não significa, por si só, que saibamos percorrê-lo de forma diferente.Tudo se repete. Tudo vem a nós, se não compreendermos o que precisamos de transformar para construir a vida que desejamos.
Não basta ir!
Já alguma vez pensaste em partir, acreditando que tudo seria diferente?
Porque não partir, primeiramente, o que te prende dentro de ti?
Anabela da Rocha

Anabela da Rocha é Coach Profissional certificada, palestrante e autora. Com cerca de 20 anos de formação musical e formação de base em Bioquímica, cruza a música, a ciência e a reflexão sobre a experiência humana. É fundadora do projeto Viva Ser, onde cria percursos que convidam a questionar, compreender e descobrir novas possibilidades sobre a condição e as capacidades humanas, incluindo o Ciclo Temático de Cinema e Desenvolvimento Humano.

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