Nem sempre é preciso um palco gigante ou um cartaz repleto de nomes mediáticos para criar um dos momentos mais interessantes do calendário cultural. Existem festivais que preferem desafiar a curiosidade do público, aproximando diferentes formas de criação artística e levando-as a territórios onde raramente chegam propostas deste género.
O Space Festival regressa entre 4 e 15 de novembro com uma nova edição dedicada à música experimental, improvisada e às artes performativas. Concertos, residências artísticas e novas criações voltam a integrar uma programação que percorrerá vários concelhos portugueses, reforçando a aposta na descentralização cultural e na descoberta de novos públicos.
Encontros entre artistas portugueses e internacionais marcam as primeiras confirmações
As primeiras confirmações revelam um programa construído a partir do diálogo entre diferentes culturas e formas de criação. Um dos destaques é IT DEEL IV, projeto que junta Joana Guerra, Maria do Mar, Romke Kleefstra e Jan Kleefstra.
Criado a partir da iniciativa IT DEEL, desenvolvida pelos irmãos Kleefstra, este ensemble cruza poesia, improvisação e composição num universo onde a natureza assume um papel central. Cada apresentação nasce da relação entre os músicos e o território onde acontece, tornando cada concerto numa experiência irrepetível.
Também confirmada está a presença do coletivo CIGARRA, formado por oito percussionistas dedicados à interpretação e criação de música contemporânea. No festival irão apresentar “RLLRLRLLRRLRLRLRLLRLRLR”, uma obra baseada na criação de Julian Sartorius e do Ensemble ET|ET.
Entre padrões rítmicos, manipulação eletrónica e performance, o espetáculo transforma o próprio gesto musical numa parte essencial da narrativa sonora.
Improvisação, performance e novas linguagens sonoras
O guitarrista João Carreiro regressa ao festival, desta vez em formato a solo. Conhecido pelo trabalho desenvolvido entre o jazz e a experimentação, apresentará composições originais onde a improvisação continua a orientar cada atuação.
Através da utilização de pedais, técnicas estendidas e diferentes abordagens tímbricas, constrói paisagens sonoras que desafiam a ideia tradicional da guitarra enquanto instrumento.
Outro regresso é o de Luís Bittencourt, que depois de apresentar “Sons de Resistência” na edição anterior leva agora ao festival “Arquitecturas da Água”.
A performance utiliza a água como elemento físico, visual e simbólico para explorar novas possibilidades sonoras, reunindo obras de compositores como Tan Dun, Joseph Byrd, Toru Takemitsu e John Cage, reinterpretadas numa abordagem performativa contemporânea.
Entre os convidados internacionais destaca-se ainda o italiano Mauro Basilio, músico cuja obra atravessa a música antiga, a improvisação, a composição contemporânea, o free jazz e o noise.
No espetáculo “Mechanics”, preparado especialmente para violoncelo, o artista utiliza objetos e materiais diversos para expandir as possibilidades do instrumento, criando um concerto onde a fronteira entre composição e improvisação permanece constantemente em aberto.
Space Ensemble apresenta estreia absoluta
A programação de 2026 inclui ainda uma nova criação do Space Ensemble intitulada “Animações da Estónia”.
O espetáculo inspira-se no património do cinema de animação estónio, cruzando imagem em movimento com música experimental executada ao vivo. A proposta mantém a identidade artística do ensemble, explorando a improvisação como elemento de diálogo entre o som e a imagem.
Será uma das estreias exclusivas desta edição e promete tornar-se num dos momentos mais marcantes do festival.
Um festival que continua a crescer fora dos grandes centros
A edição deste ano volta a passar por vários espaços culturais que já fazem parte da identidade do evento, entre eles o Centro Cultural de Paredes de Coura, o Teatro Valadares, em Caminha, o Auditório Municipal Ramos Pereira, em Vila Praia de Âncora, o Centro Cultural de Verdoejo, em Valença, e o Teatro Esther de Carvalho, em Montemor-o-Velho.
A organização irá anunciar em breve novas localidades, mantendo o objetivo de levar a música experimental a diferentes regiões do país e criar pontos de encontro entre artistas, comunidades e novos públicos.
Organizado pela Associação Cultural Rock’n’Cave, em parceria com o Space Ensemble, o festival conta com o apoio da República Portuguesa – Cultura, Juventude e Desporto, através da Direção-Geral das Artes, além de diversos parceiros locais.
