A música de Tatanka, as danças tradicionais açorianas, o teatro nas escolas e a descoberta do património religioso fazem parte da programação da Ponta Delgada Capital Portuguesa da Cultura 2026, entre 26 e 31 de outubro. São dias em que a cidade abre espaço a diferentes expressões artísticas, desde os concertos até às iniciativas que aproximam a cultura das escolas e das comunidades.
A agenda desta semana reúne propostas para públicos distintos. Algumas convidam a participar, outras pedem apenas tempo para escutar, observar e descobrir. Entre os destaques estão o concerto de Tatanka na Universidade dos Açores, as oficinas de chamarrita do Pico e um espetáculo inspirado na obra de Raul Brandão.
Tatanka e Aníbal Raposo em destaque na programação musical
A música ocupa um lugar importante na agenda desta semana. A 27 de outubro, Aníbal Raposo apresenta «Falas & Afetos», um concerto construído a partir de poemas de autores de diferentes geografias do espaço lusófono.
Acompanhado por uma banda de sete músicos, o cantautor propõe um encontro entre poesia e música, percorrendo diferentes sensibilidades culturais através da língua portuguesa. As canções são acompanhadas por breves apresentações que contextualizam os autores, a origem dos textos e as suas dimensões emocionais e sociais.
O espetáculo está anunciado para as 20h00, num espaço identificado na informação disponibilizada como CCB. A designação completa do local deverá ser confirmada antes da publicação.
Três dias depois, a 30 de outubro, Tatanka sobe ao palco da Aula Magna da Universidade dos Açores, em São Miguel. Conhecido como vocalista dos The Black Mamba, o músico tem desenvolvido paralelamente um percurso a solo, no qual a interpretação e a proximidade com o público assumem especial importância.
Longe da dimensão coletiva da banda, o formato a solo permite dar outro espaço à voz e à personalidade artística de Tatanka. O concerto está marcado para as 21h30 e tem entrada livre, limitada à capacidade do recinto.
Da chamarrita do Pico à dança contemporânea
A tradição popular açoriana também está presente na programação. Nos dias 26 e 27 de outubro, Daniel Pena dinamiza oficinas de «Danças do Mundo e Chamarrita do Pico», com sessões no Rancho Folclórico da Casa do Povo do Livramento e no Solmar Avenida Center.
A iniciativa procura aproximar diferentes gerações das danças tradicionais, num momento em que o baile folk e a chamarrita têm despertado interesse nos Açores, na Madeira e em Portugal continental.
A chamarrita do Pico tem uma característica que a distingue de muitas outras danças: não depende de uma coreografia fixa. É uma dança mandada, conduzida por alguém que escolhe as figuras durante a execução. O resultado depende da capacidade de acompanhar as indicações, da interação entre os participantes e de uma tradição que se aprende sobretudo através da prática.
As oficinas destinam-se a participantes de diferentes idades, desde que tenham autonomia de movimentos, e exigem inscrição prévia, de acordo com a informação da organização.
Noutro registo, o espetáculo «LIMBO», com direção artística, coreografia, encenação e seleção musical de Milagres Paz, cruza dança, música e palavra para abordar inquietações do mundo contemporâneo.
A guerra, a solidão, a violência e o enfraquecimento das relações humanas estão entre os temas explorados numa criação que questiona a forma como vivemos, nos relacionamos e reagimos às transformações da sociedade.
O espetáculo está anunciado para 29 de outubro, às 20h00, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Por decorrer fora dos Açores, a sua ligação à programação da Capital Portuguesa da Cultura deverá ser contextualizada na informação final do evento.
O teatro entra nas escolas e transforma o debate em participação
Entre 26 e 28 de outubro, o projeto «Corpos que aprenderam a calar-se», de Sérgio Correia, passa por escolas secundárias de Ponta Delgada.
A proposta parte de situações de discriminação para trabalhar questões como o racismo, a xenofobia, a homofobia e o bullying. Três atores apresentam pequenos episódios inspirados em situações de exclusão que podem surgir no quotidiano escolar.
O trabalho não termina quando acaba a representação. Depois de assistirem às cenas, os alunos são convidados a discutir os comportamentos apresentados e a propor outras formas de agir. As suas ideias são incorporadas em novas encenações, permitindo experimentar diferentes respostas às mesmas situações.
Esta dimensão participativa distingue o projeto de uma apresentação teatral convencional. Os estudantes deixam de ser apenas espectadores e passam a intervir na construção das histórias, confrontando-se com as consequências das decisões e dos comportamentos representados.
Também a 27 de outubro, a oficina «Uma sopa é uma sopa é uma sopa», do coletivo Estado de Graça, parte de um gesto familiar para explorar a relação entre alimentação, criação e comunidade.
Os ingredientes, a preparação e o ato de partilhar uma refeição tornam-se matéria para uma experiência artística que procura olhar para a sopa para além da sua função alimentar. O projeto trabalha a ideia de cuidado e de dádiva, transformando um elemento quotidiano numa forma de expressão.
A atividade decorre no Mercado da Graça, com sessões associadas à EBI Roberto Ivens e à Escola Secundária Antero de Quental.
Raul Brandão e os tesouros das igrejas de São Miguel
A literatura e o património encerram a programação destacada para esta semana.
A 31 de outubro, às 21h30, o Teatro Micaelense recebe «As Ilhas Desconhecidas», espetáculo inspirado na obra de Raul Brandão, escritor que encontrou na paisagem insular matéria para uma reflexão sobre a natureza e a condição humana.
A criação procura transportar para o palco a dimensão poética e sensorial do livro, cruzando interpretação, imagem e luz. A música original de Mário Laginha acrescenta outra camada à experiência, acompanhando uma viagem que oscila entre a admiração perante a natureza e a consciência da fragilidade humana.
No mesmo dia, às 14h30, a Igreja de São Pedro, em Ponta Delgada, acolhe uma visita dedicada aos tesouros das igrejas da Diocese de Angra.
A iniciativa dá a conhecer objetos, imagens, documentos e obras de arte que testemunham diferentes períodos da história religiosa e cultural dos Açores. São peças que, muitas vezes, permanecem afastadas do olhar quotidiano, apesar de fazerem parte da memória dos lugares e das comunidades.
A visita propõe, assim, uma aproximação a um património que não se limita à dimensão religiosa. A arte, os materiais, as técnicas e as histórias associadas a estes objetos ajudam também a compreender a evolução da sociedade açoriana.
Uma programação que aproxima diferentes gerações
Entre 26 e 31 de outubro, a Ponta Delgada Capital Portuguesa da Cultura 2026 reúne propostas que vão da música de autor às danças tradicionais, passando pelo teatro participativo e pela descoberta do património.
O programa mostra diferentes formas de relação com a cultura. Num concerto, essa relação constrói-se através da voz e da interpretação. Numa oficina de chamarrita, passa pelo movimento e pela transmissão de conhecimentos. Numa escola, pode começar com uma cena teatral e continuar numa conversa sobre comportamentos que afetam a vida de todos os dias.
A semana oferece, por isso, mais do que uma sequência de espetáculos. Reúne oportunidades para conhecer artistas, experimentar tradições e olhar de outra maneira para lugares e práticas que fazem parte da identidade cultural dos Açores.
A entrada é gratuita nos eventos anunciados, embora algumas iniciativas estejam sujeitas a inscrição, levantamento de bilhetes ou à lotação dos espaços. Recomenda-se a consulta da programação oficial antes de cada deslocação.
