Quarta-feira, 23 de Setembro de 2026
LIVROS

Tiago Rodrigues põe um pai na Terra e uma filha em Marte em A Distância

Por Mafalda Matos 23 Set 2026

Estamos em 2077. A Terra tornou-se cada vez mais difícil de habitar. Marte deixou de ser uma hipótese distante e passou a representar uma possibilidade de futuro. Uma filha partiu. O pai ficou. Entre os dois existem milhões de quilómetros, mas a distância que interessa nesta história pode ser outra.

É a partir desta relação que Tiago Rodrigues constrói A Distância, uma peça sobre aquilo que permanece entre duas pessoas quando já não partilham o mesmo lugar, a mesma experiência ou sequer a mesma ideia de futuro. Depois de chegar ao palco, a obra passa agora para livro numa edição da Tinta-da-China, com lançamento marcado para 24 de setembro.

A ficção científica está presente, mas não é ela que conduz verdadeiramente a história. Marte serve antes para tornar maior uma questão bastante mais próxima: até onde pode chegar uma relação quando a presença deixa de ser possível?

Um pai ficou. A filha partiu.

O ponto de partida é simples e, justamente por isso, eficaz. Uma filha vive em Marte. O pai permanece na Terra. Os dois continuam ligados, mas a distância entre eles não é apenas geográfica.

Cada um passou a olhar para o futuro a partir de um lugar diferente.

Ela pertence a uma geração que encontrou uma possibilidade fora da Terra. Ele permanece ligado ao planeta onde construiu a sua vida. Entre os dois existe uma diferença de experiência que nenhuma tecnologia consegue eliminar completamente.

A peça não precisa de inventar um conflito familiar extraordinário. Basta levar uma relação conhecida por todos para uma situação impossível.

Porque quando alguém parte para outro planeta, não leva consigo apenas uma mala, memórias ou conhecimento. Leva também uma ideia diferente daquilo que pode vir a seguir.

Marte está longe. As perguntas estão aqui.

O futuro imaginado por Tiago Rodrigues não aparece como um lugar completamente desligado do presente.

As alterações climáticas, a sobrevivência, a desigualdade e a possibilidade de procurar noutro planeta uma saída para os problemas da Terra fazem parte deste cenário. Mas o texto não se limita a antecipar um futuro tecnológico.

A pergunta mais interessante está nas pessoas.

Quem terá acesso a esse futuro? Quem ficará para trás? E o que acontece quando partir deixa de ser apenas uma escolha individual e passa a significar abandonar um mundo, uma geração ou alguém que se ama?

É nesse ponto que A Distância deixa de ser apenas uma história sobre Terra e Marte. O espaço exterior acaba por revelar distâncias que já existem aqui.

Uma peça feita de vozes

A própria forma como a história é apresentada reforça essa ideia.

Pai e filha não estão simplesmente frente a frente num palco. A relação constrói-se através das vozes, da palavra e da tentativa de comunicação entre dois lugares que não podem ser aproximados fisicamente.

Isso muda a experiência de quem assiste.

Não existe a facilidade de observar duas pessoas juntas e interpretar os seus gestos. O espectador é obrigado a escutar. A voz passa a carregar a presença, mas também a ausência.

É uma escolha particularmente forte para uma história sobre distância. Quando o corpo não pode atravessar o espaço, resta a palavra. E quando até a palavra encontra limites, começa a aparecer aquilo que ficou por dizer.

Do palco para as páginas

A edição da Tinta-da-China dá agora outra vida ao texto.

A Distância foi apresentada pela primeira vez no Festival d’Avignon, em 2025, e chegou posteriormente a Portugal, onde esteve em cena na Culturgest. A passagem para livro acontece depois desse percurso, permitindo que a peça continue a existir longe do espaço onde foi originalmente pensada.

O livro não transforma a dramaturgia num romance. Mantém a natureza teatral do texto e entrega ao leitor aquilo que no palco era completado pela presença dos actores, pelas vozes, pelo espaço e pelo tempo da representação.

É também aí que a leitura ganha uma dimensão própria. Sem o palco para preencher os espaços, cabe ao leitor imaginar a Terra, Marte, as personagens e aquilo que acontece entre cada palavra.

Tiago Rodrigues constrói assim uma história sobre uma distância gigantesca para falar de uma experiência muito mais reconhecível.

Um pai quer continuar próximo da filha.

A filha escolheu outro lugar.

E entre os dois fica uma pergunta que nenhum planeta consegue resolver: quanto daquilo que nos liga aos outros sobrevive quando deixamos de partilhar o mesmo futuro?

Mafalda Matos

Mafalda Matos é jornalista no Música Total, onde assina sobretudo peças sobre [novidades musicais / entrevistas / cultura regional]. Com [10 anos] ligada ao jornalismo cultural, tem acompanhado de perto [festivais, lançamentos nacionais, etc.] e é uma das vozes mais regulares do Radar Nacional e da secção de Entrevistas do site.

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