A música de Xico Gaiato nasce de uma relação concreta com a terra, a memória e as pessoas que fazem parte dela. Em A Cada Passo Que Dou, o músico cruza tradição, eletrónica e pop sem tratar as raízes como uma peça de museu. O resultado é um trabalho construído entre a memória da Beira Interior, a experiência urbana em Lisboa e uma vontade clara de encontrar novas formas de ouvir instrumentos e histórias que vêm de longe.
O percurso do álbum passa pelas Donas, onde parte das gravações ganhou forma, pelos bombos, adufes e pífaros da Beira Baixa e por colaborações como a de Bia Maria. Em conversa com o Música Total, Xico Gaiato fala sobre o nascimento de “Na Raiz”, a influência do território, o desafio de levar o álbum para palco e a forma como encara uma nova geração de artistas portugueses interessada em recuperar a ligação à música de raiz popular.
A entrevista revela também um projeto que não pretende escolher entre passado e presente. Xico Gaiato procura justamente o espaço onde os dois podem conviver, deixando que a tradição seja matéria viva para uma linguagem contemporânea.
“Na Raiz” é um tema profundamente ligado ao território e às comunidades. Em que momento sentiste que esta canção precisava de ser escrita?
Na verdade, eu senti que tinha de fazer uma canção com a Bia Maria. A canção não foi pensada antes de estarmos juntos e só quando “metemos a mão na massa” é que ela começou a surgir. Quero com isto dizer que a música fluiu a partir do momento em que nos sentámos, escrevemos e compreendemos quais eram os pontos em comum que nos uniam naquele momento. E foi esta sinergia que nos levou naturalmente a pensar no território, nas pessoas que o habitam e na necessidade de cada vez mais voltarmos ao conceito de comunidade na sua plenitude, como algo que nos une nos melhores e nos piores momentos.
A colaboração com Bia Maria acontece de forma muito natural. O que encontraste na voz e na sensibilidade artística dela que tornou esta parceria inevitável?
A Bia Maria e eu temos amigos em comum. A primeira vez que a ouvi foi no seu concerto de lançamento de Qualquer Um Pode Cantar, um álbum incrível, e logo aí fiquei fascinado pela força da sua voz, pela musicalidade e pela incrível compositora que ela é. Quando comecei a pensar neste álbum e nas suas colaborações, a Bia Maria era, desde logo, uma opção obrigatória, e ainda bem que ela aceitou o meu convite.
Grande parte do álbum foi gravado nas Donas, na Beira Interior. De que forma esse regresso às origens influenciou a composição e a produção de A Cada Passo Que Dou?
A maior parte das composições já estava feita na altura em que fui às Donas. A semana que ali passei com o Constantino e com o Tiago Matos tinha como objetivo a preparação de um concerto de apresentação do projeto, mas o ambiente e as condições encontradas geraram a oportunidade de iniciar as primeiras gravações.
Foi uma semana incrível e muito intensa, rodeados pelo ambiente que me habituei a respirar durante a minha infância. Foi assim que aproveitámos também a oportunidade para convidar o Bruno Fonseca a gravar o seu pífaro pastoril e, ao mesmo tempo, juntar-lhe a sonoridade rítmica dos adufes e bombos da Beira Baixa.
A partir daqui, tornou-se claro para mim que este era o ambiente sonoro que me interessava para o álbum.
O disco cruza música tradicional, eletrónica e pop. Como encontraste o equilíbrio entre respeitar as raízes e criar uma identidade contemporânea?
As raízes já as trazia comigo, mesmo reconhecendo que ainda não conhecia metade do que conheço hoje. Esta conexão com a eletrónica surge de um trabalho conjunto com o Daniel Constantino, produtor incrível que aceitou embarcar nesta aventura comigo.
Tivemos várias sessões onde procurámos uma fusão orgânica e fluida entre estes dois opostos e, lá está, brincámos com o passado e com o presente e encontrámos algo que nos pareceu fundamental, como base e corpo, para a sonoridade, composição e arranjos das músicas que compõem o álbum.
Ao longo do álbum ouvem-se sons captados no território, como bombos e pífaros. Foi importante preservar esses elementos de forma autêntica ou houve espaço para os reinventar?
Como disse anteriormente, os instrumentos tradicionais, como bombos, adufes e pífaro, foram inicialmente captados na primeira sessão nas Donas. Mais tarde, voltámos a estas gravações e, em alguns casos, mantivemos a sonoridade original e, em outros, reformulámos, encontrando outros equilíbrios sonoros que servissem os objetivos dos temas.
Isto acabou por ser um processo natural, tendo em conta o papel da eletrónica na minha música e a necessidade de encontrar novas formas de tocar e ouvir estes instrumentos, sem os desvirtuar.
“Na Raiz” nasce num contexto marcado por incêndios e fenómenos meteorológicos extremos. Acreditas que a música pode ajudar a preservar a memória coletiva e a dar voz às comunidades afetadas?
Na verdade, “Na Raiz” foi criado e gravado em 2025, antes das tragédias dos incêndios e da tempestade Kristin. Eu e a Bia Maria nunca pensámos que esta canção pudesse ganhar essa atualidade, mas, quando fenómenos deste tipo batem à porta das nossas casas, já com um pré-aviso constante de que é algo que vai começar a ser mais frequente, fez-nos todo o sentido lançar esta canção como forma de relembrar que a entreajuda, o coletivismo e o sentido de comunidade podem ser a chave para uma melhor recuperação das gentes e dos nossos territórios.
Claramente, o facto de eu ser da Beira Baixa, onde senti particularmente os efeitos dos incêndios de 2025, e a Bia Maria ser natural da região de Leiria, onde também ela viveu intensamente os efeitos da tempestade Kristin, foi um impulsionador natural para este lançamento.
O teu trabalho transmite uma forte ligação à Beira Interior. Que histórias, pessoas ou lugares sentes que continuam a inspirar a tua escrita?
A história que faço sempre questão de contar e também relembrar é a história da tomada do Carvalhal, primeiro manifesto puramente popular em Portugal, com registo do acontecido em 1890. Algo antigo, mas que me ensina e transmite uma garra beirã de lutar pelo que é nosso e, por ser uma lembrança ainda mais antiga do que o 25 de Abril, de que o povo é quem mais ordena. Tendo a possibilidade de poder crescer a celebrar este lugar que é do povo, por direito, deu-me mais certezas de que a Beira é também sinónimo de resistência popular e de esperança num futuro mais justo para todos.
Na minha infância, passei por lugares que me inspiraram muito para algumas das criações deste álbum, como o largo da escola primária dos Chãos, onde toquei bombo pela primeira vez e vi a minha mãe a ganhar prémios de melhor sopa na Festa das Sopas, uma festa que já não existe. Daquele largo, guardo momentos de euforia por estar rodeado de gente boa e alegre, onde a brincadeira com as crianças, na altura, era uma prioridade.
O título do álbum, A Cada Passo Que Dou, sugere uma viagem muito pessoal. O que representa esse percurso e o que esperas que o público descubra ao longo das diferentes canções?
Este álbum fala sobre crescimento pessoal e, ao mesmo tempo, sinto que é coletivo também. Precisamos de errar para aprender, precisamos de cair para levantar, e é isto que nos torna humanos e seres que coabitam o mesmo espaço. Agora, imagine se nós pudéssemos ajudar-nos mutuamente nesta viagem, neste crescimento, neste caminho que não sabemos quando vai terminar. Saber, sabemos que é na morte que termina, mas, até ela chegar, há espaço para nos respeitarmos e vivermos na sua plenitude, sem pressas.
Depois de um processo criativo tão ligado ao território, como foi transformar essas canções em espetáculos ao vivo? O público pode esperar alguma surpresa nos concertos de apresentação?
Levar esta obra para o palco é algo muito desafiante, se calhar, um dos maiores desafios deste processo. Há que saber distanciar-nos do álbum para poder entregar ao público algo que ainda não tenha ouvido no álbum e, claramente, com algo visual que não está presente em nenhum momento do álbum, sem ser nos videoclipes.
Preparo um espetáculo com uma forte componente performativa, onde o objetivo é partilharmos o momento como algo único, que valha a pena ter sido vivido, juntos, no mesmo espaço e tempo.
A música portuguesa tem assistido a um renovado interesse pelas tradições e pelas sonoridades populares. Como vês este movimento e que lugar gostarias que o teu projeto ocupasse dentro dessa nova geração de artistas?
Na verdade, nos últimos anos surgiram variadíssimos projetos nesta linha mais tradicional que eu, às vezes, gosto de chamar, na brincadeira, a “nova pop portuguesa”. Muitos desses projetos são referências minhas, como os Criatura, Ana Lua Caiano, Emmy Curl, Rossana, Bia Maria, Bandua, Retimbrar e muitos mais.
No que me diz respeito, acho que me identifico claramente com esse interesse pela música de raiz popular, na fusão entre tradição e modernidade, com uma abordagem contemporânea e pouco folclórica. O meu projeto estabelece uma ponte, muito pessoal, entre a memória cultural da Beira Interior e a experiência contemporânea, incluindo a vivência urbana em Lisboa. Ao mesmo tempo, existe aqui uma preocupação em mostrar que a música portuguesa pode partir de territórios periféricos sem deixar de dialogar com linguagens musicais atuais.
Ao olhares para este álbum de estreia, qual foi o maior desafio artístico que enfrentaste e que aprendizagens levas contigo para os próximos trabalhos?
O desafio de tentar aprender tudo muito rápido. Aprender tudo o que é necessário e que envolve este projeto, desde a criação à edição. Colocar-me, ao mesmo tempo, em várias vertentes e tomar decisões conforme as necessidades tirou-me da minha zona de conforto e foi uma grande aprendizagem para o futuro.
Do ponto de vista artístico, cresci muito em todos os momentos de criação solitária, mas também com o imenso talento de quem me acompanha.
Se alguém ainda não conhece o universo de Xico Gaiato, que canção de A Cada Passo Que Dou escolherias para abrir essa porta e porquê?
Tenho duas canções que gostava de sugerir para quem ainda não conhece o meu trabalho: “(re)encontro” e a própria música que dá nome ao álbum, “A Cada Passo Que Dou”. Aconselho estas duas por sentir que são o mote principal deste álbum. São músicas onde me exponho e que refletem parte do que sou e do que penso sobre o processo de “viver”.
