O Simples Mente e luto encontram beleza na inquietação em “desenho novo”

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Existe uma geração de músicos portugueses a transformar ansiedade, excesso de pensamento e desconforto emocional em matéria criativa. “desenho novo”, o novo single de O Simples Mente em colaboração com luto, nasce precisamente desse território. Um lugar onde a dúvida não aparece como fraqueza, mas como motor constante de movimento.

 

Editado numa parceria entre a Biruta Records e a Trash Cat Records, o tema surge numa altura importante para Leo Amorim, mente por trás de O Simples Mente, enquanto prepara o seu álbum de estreia. E percebe-se rapidamente que esta nova fase procura aprofundar identidade em vez de procurar fórmulas rápidas.

“desenho novo” vive dessa sensação estranha de querer mudar tudo sem saber exatamente o quê.

Entre o hip-hop emocional e o lo-fi introspectivo

A canção constrói-se em torno de uma inquietação permanente. A ideia de nunca estar completamente satisfeito consigo próprio, com o lugar onde se está ou com a vida que se está a viver. Existe uma urgência silenciosa ao longo do tema, quase como se cada verso procurasse uma saída diferente.

O flow de O Simples Mente move-se entre observação íntima e pensamento fragmentado, mantendo uma naturalidade que evita dramatismos exagerados. Tudo parece vivido antes de ser escrito.

Ao mesmo tempo, as linhas de baixo de Fred Severo criam uma espécie de conversa paralela dentro da música. Não aparecem apenas como acompanhamento. Funcionam quase como resposta emocional à voz principal, criando tensão subtil entre avanço e hesitação.

Essa dinâmica acaba por ser uma das forças maiores do single.

O vídeo live transforma simplicidade em atmosfera

O lado visual acompanha bem a identidade da canção. Em vez de procurar excesso narrativo ou estética hiperproduzida, o vídeo aposta numa ideia simples e intimista.

Enquanto O Simples Mente canta, duas pessoas jogam ping-pong em segundo plano. O cenário parece banal à primeira vista, mas rapidamente ganha outro significado. Existe ali uma sensação comunitária muito específica, inspirada numa pequena “tribo” de Barcelona ligada ao jogo e ao convívio espontâneo, quase como acontece em certas culturas ligadas ao skate.

O resultado funciona porque nunca tenta explicar demasiado. Apenas cria ambiente.

Essa contenção visual encaixa perfeitamente na natureza mais emocional e observacional da música.

O Simples Mente continua a consolidar linguagem própria

Desde “Girassol”, lançado em 2019, Leo Amorim tem vindo a construir um percurso marcado pela mistura entre hip-hop, lo-fi e pop alternativo. Mas talvez a diferença agora esteja na confiança crescente da escrita e na clareza estética do projeto.

Trabalhos anteriores como “Vino Blanco at 4AM”, com Leexo, ou “O Puto”, com Marrquise, já mostravam vontade de experimentar formatos diferentes sem perder intimidade. Só que esta nova fase parece mais consciente da própria identidade.

A entrada na Biruta Records ajudou também a ampliar o alcance do projeto. O EP “ATROPELEI-ME” abriu espaço para singles como “QUANTOS QUERES” e “VENTOSO”, temas que começaram a circular em rádios nacionais e aproximaram o nome O Simples Mente de um público mais alargado.

Ainda assim, continua a existir uma sensação de artista em construção permanente. E talvez seja precisamente isso que torna o projeto interessante neste momento.

“desenho novo” transforma dúvida em movimento

Muita música feita hoje vive obcecada com certezas. Refrões imediatos. Frases pensadas para redes sociais. Emoções simplificadas ao máximo. “desenho novo” segue o caminho contrário.

A canção aceita confusão, dúvida e desconforto sem tentar resolver tudo no final. Existe uma honestidade muito particular nessa abordagem. A sensação de alguém a tentar perceber o próprio lugar enquanto continua em movimento.

A capa criada a partir de um quadro original de Guilherme Conde reforça essa dimensão emocional e quase artesanal do lançamento. Tudo parece ligado à mesma ideia de procura constante. Como se o single inteiro fosse um esboço emocional ainda em transformação.

E talvez seja isso que fica depois da música acabar. Não uma resposta clara. Mas aquela vontade persistente de continuar à procura de um desenho diferente.

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