Siobhan Curham revisita memória, silêncio e resistência em A Última Canção de Sofia Castelo

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Lisboa sempre teve uma relação estranha com a memória. Cidade de partidas, encontros e segredos guardados entre ruas antigas, acaba muitas vezes transformada em personagem invisível dentro das histórias que atravessam o século XX. É precisamente nesse território que A Última Canção de Sofia Castelo, de Siobhan Curham, encontra força.

O romance acompanha a vida de uma cantora marcada pelo desaparecimento, pelo silêncio e pelas marcas deixadas pelo passado. Durante anos, o mundo esqueceu Sofia Castelo. Mas a narrativa constrói-se precisamente a partir dessa ausência, explorando aquilo que sobra quando a fama desaparece e a verdade fica enterrada demasiado tempo.

Existe também uma dimensão musical muito presente no livro. Não apenas na ideia da canção enquanto símbolo emocional, mas na forma como a música surge ligada à resistência, identidade e sobrevivência. Lisboa aparece aqui como cidade de sombra e refúgio, num ambiente onde cada escolha parece carregar consequências maiores do que aquilo que se vê à superfície.

Visualmente, a capa ajuda a entrar nesse universo. A figura diante da porta azul cria imediatamente sensação de mistério e distância, quase como se a personagem estivesse suspensa entre dois tempos diferentes. Há ali qualquer coisa de cinematográfico.

Mais do que um romance histórico tradicional, A Última Canção de Sofia Castelo funciona como uma história sobre memória apagada, identidade e sobrevivência emocional. E talvez seja isso que fica depois da última página. A sensação de que algumas vozes podem desaparecer durante anos, mas nunca chegam verdadeiramente a morrer.

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