Terça-feira, 18 de Agosto de 2026
Editorial

Cinder Well está a deixar o dark folk para trás sem abandonar a escuridão

Por Beatriz Ambrósio 18 Ago 2026

Cinder Well passou anos a ser colocada dentro da caixa do dark folk. A Blooming Body começa precisamente no momento em que essa caixa deixa de chegar. Amelia Baker mantém a relação com a tradição, a intimidade das canções e aquela sensação de paisagem escura que acompanha o seu trabalho, mas abre o som a novas texturas e assume um controlo muito maior sobre a gravação.

O resultado não é uma ruptura com o passado. É uma expansão. E talvez seja essa a melhor maneira de ouvir A Blooming Body: como o disco em que Cinder Well deixa de precisar de explicar a que género pertence.

Uma canção que já não cabe apenas na guitarra

Amelia Baker construiu Cinder Well a partir de uma linguagem onde folk tradicional, música americana, paisagens irlandesas e uma certa sombra gótica convivem sem grande esforço. Cadence, de 2023, já tinha ampliado esse universo. A Blooming Body vai mais longe.

O álbum foi lançado a 17 de julho de 2026 e reúne oito canções. Baker assumiu também uma participação muito mais directa na produção e mistura, trabalhando ao lado de Harlan Steinberger. A mudança é importante porque permite perceber melhor a arquitectura por trás das canções.

“While the Womb Screams Silently” é um bom ponto de entrada. A canção começa com piano e voz, quase sem pressa, e vai acrescentando camadas de cordas, metais e outras texturas. O tema nasceu a partir de Portrait of a Lady on Fire, de Céline Sciamma, e transforma a ideia de resistência e identidade numa canção que nunca precisa de levantar demasiado a voz para criar tensão.

O silêncio, neste disco, é tão importante como os instrumentos. Baker percebe que uma canção pode ficar mais pesada quando deixa espaço à sua volta.

 

 

O peso está na composição, não no volume

A grande mudança de A Blooming Body não está apenas na quantidade de instrumentos. Está na forma como Baker os utiliza.

O álbum conta com contribuições de músicos como Greg Cohen no baixo, Phillip Rogers na bateria, Dylan Desmond nos sintetizadores, Amy Sanchez na trompa francesa e C.P.N. Hollywell nas vozes. O mais interessante é que essa expansão não transforma as canções em grandes peças de produção.

“A Blooming Body” continua a parecer próximo, mesmo quando cresce.

The Color of Earth aproxima-se de uma dinâmica quase post-rock, enquanto “Beyond the Pale” começa por sugerir uma canção antiga antes de revelar uma preocupação bastante contemporânea. “Shadows of Leaves on Red Brick”, a faixa final, prolonga essa tensão durante quase sete minutos, entre guitarras, vozes e uma atmosfera que parece estar sempre a preparar uma despedida.

É aqui que Cinder Well se distingue de muitas propostas que trabalham com referências folk. A tradição não aparece como decoração. Serve de ponto de partida.

A voz continua a ser o centro

A expansão sonora poderia facilmente ter escondido aquilo que tornou Cinder Well especial. Não acontece.

A voz de Baker continua a comandar as canções, mantendo uma fragilidade que contrasta com a dimensão cada vez mais cinematográfica dos arranjos. A guitarra pode desaparecer durante alguns momentos, as cordas podem ocupar espaço e os sintetizadores podem alterar completamente a textura, mas a voz continua a funcionar como eixo.

Essa relação entre contenção e expansão é talvez a característica mais forte do álbum. O disco sabe quando acrescentar e, sobretudo, quando parar. A própria Baker explicou que procurou gravar algumas tomadas iniciais de guitarra e voz ao vivo para preservar a sensação de vida dentro das canções.

O resultado também mostra que a ligação de Baker ao folk tradicional não desapareceu. Apenas deixou de ser uma fronteira.

Cinder Well já não precisa do rótulo

O rótulo dark folk continua a fazer sentido como porta de entrada, mas começa a tornar-se insuficiente para descrever o que está a acontecer aqui.

A Blooming Body é folk, mas também é experimental. É íntimo, mas consegue tornar-se cinematográfico. É sombrio, mas não depende da distorção ou do peso para criar essa sensação. A música encontra a sua força no espaço entre os elementos.

Essa evolução torna o álbum mais interessante do que uma simples continuação de Cadence. Baker não tenta apagar o caminho percorrido. Está a abrir novas portas dentro dele.

Cinder Well já não precisa de escolher entre tradição e experimentação. O melhor de A Blooming Body acontece precisamente quando as duas coisas deixam de parecer opostas.

Quando uma canção consegue carregar tanta sombra sem precisar de aumentar o volume, talvez o verdadeiro peso esteja noutro lugar.

Beatriz Ambrósio

Beatriz Ambrósio é jornalista e colaboradora do Música Total, dedicada à cobertura da atualidade musical nacional e internacional. Privilegia uma escrita clara, objetiva e rigorosa, acompanhando lançamentos, concertos, festivais e os principais acontecimentos da indústria da música. O seu trabalho procura informar os leitores de forma rápida e contextualizada, mantendo sempre o foco na relevância das notícias e na proximidade com quem vive a música todos os dias.

Newsletter Semanal

RECEBE A
MÚSICA PRIMEIRO.

Curadoria semanal das melhores novidades musicais, entrevistas exclusivas e agenda de festivais — direto na tua caixa de entrada.

Subscreve gratuitamente

Ao subscrever aceitas os nossos Termos e Condições e Política de Privacidade. Podes cancelar em qualquer momento.