Poucas bandas açorianas conseguem olhar para mais de duas décadas de carreira mantendo a mesma vontade de criar, subir ao palco e lançar música nova. Os Crossfaith chegam aos 22 anos de atividade com essa rara combinação de experiência, persistência e ambição, celebrando um percurso construído entre concertos, mudanças de formação e a convicção de que o rock continua a ter espaço para evoluir.
Nesta entrevista ao Música Total, a banda faz um balanço da caminhada iniciada em 2004, recorda os momentos que marcaram a sua história, fala sobre os desafios de manter um projeto de originais nos Açores e revela o que os fãs podem esperar de “Hot Love”, o novo single que assinala uma nova fase criativa. Há ainda espaço para refletir sobre o panorama do rock açoriano, os concertos mais marcantes e os objetivos que continuam a alimentar a paixão dos Crossfaith pela música.
Em 2026 os Crossfaith celebram 22 anos de carreira. Quando olham para trás, qual é o momento que melhor simboliza tudo o que a banda conquistou desde 2004?
É difícil escolher apenas um momento, porque cada etapa teve um significado especial. Podemos realçar o segundo lugar no concurso Angra Rock 2011, onde foi possível levar a nossa mensagem a outra ilha e cativar o público com a nossa música, conquistando alguns fãs. No entanto, sentimos que chegar aos 22 anos de carreira, mantendo a banda ativa e a lançar um novo videoclipe e músicas novas, é a maior conquista. É a prova de que a paixão pela música falou sempre mais alto nos Crossfaith ao longo de mais de duas décadas.
Manter uma banda de rock ativa durante mais de duas décadas, especialmente nos Açores, exige uma enorme dedicação. Qual foi o maior desafio ao longo deste percurso?
Sem dúvida, a distância e a logística. Estar nos Açores implica custos e dificuldades acrescidas para atuar fora da região. Mas aprendemos a transformar esses desafios em motivação e nunca deixámos que fossem um obstáculo aos nossos objetivos.
Quando começámos a banda, foi com o intuito de formar um projeto musical sólido de rock progressivo e duradouro. Com muita luta ultrapassámos as duas décadas de existência, sendo os Crossfaith a única banda de originais mais antiga da Ribeira Grande e uma das mais antigas dos Açores em atividade contínua. A persistência e a confiança nos nossos valores enquanto músicos e compositores foram os maiores desafios ao longo destes anos.
O novo álbum representa uma evolução da sonoridade dos Crossfaith. O que podem esperar os fãs deste novo trabalho em comparação com Mixed Emotional?
É um álbum mais maduro, mais direto e mais intenso. Mantemos a nossa identidade hard rock, mas explorámos novas texturas, novos ambientes e demos mais espaço à emoção nas composições.
O novo single “Hot Love” marca esta nova fase da banda. Como nasceu esta canção e o que vos inspirou durante a sua composição?
“Hot Love” nasceu de forma muito natural. Queríamos criar um tema com impacto imediato, cheio de energia, mas que também transmitisse emoção. Foi uma daquelas músicas que ganhou vida rapidamente em estúdio e que fica no ouvido. A música foi inspirada no amor.
Na nossa opinião, “Hot Love” é um dos temas mais fortes da vossa carreira. Sentem que esta música representa aquilo que os Crossfaith são hoje?
Sem dúvida. Resume bem aquilo que somos atualmente: uma banda com experiência, mas ainda com vontade de experimentar, evoluir e surpreender quem nos acompanha, explorando novas sonoridades e conceitos.
Trabalharam novamente com uma produção de elevado nível. De que forma essa experiência influenciou o resultado final do álbum?
Trabalhar com pessoas experientes ajuda-nos sempre a olhar para as músicas de outra forma. Houve atenção ao detalhe, às sonoridades e à interpretação, o que elevou bastante o resultado final.
O produtor escolhido para o novo álbum foi Nelson Canoa, músico multi-instrumentista e produtor de renome nacional. A colaboração permitiu alcançar uma sonoridade mais coesa, consistente e com um elevado nível de qualidade.
O videoclipe de “GraveDiggers” teve uma excelente receção e chegou mesmo a ser finalista dos Prémios Adamastor. Que significado teve esse reconhecimento para a banda?
Foi muito gratificante. É sempre bom perceber que o trabalho desenvolvido é valorizado, sobretudo quando envolve tantas pessoas e tantas horas de dedicação. Todo este reconhecimento também reflete o excelente trabalho da S&N Intercut Films na realização dos nossos videoclipes.
Ao longo destes anos passaram por inúmeros festivais, teatros e eventos nos Açores. Existe algum concerto que permaneça inesquecível para todos os elementos da banda? Porquê?
Há vários, mas os concertos em casa têm sempre um significado especial. Sentir o apoio do público açoriano, que nos acompanha há tantos anos, é algo difícil de explicar.
Entre os momentos mais marcantes destacamos o Punkada Fest, o Angra Rock, o Festival da Povoação e o Festival Monte Verde.
A formação dos Crossfaith foi sofrendo mudanças naturais ao longo do tempo. Como conseguiram preservar a identidade da banda apesar dessas alterações?
A identidade da banda nunca dependeu apenas das pessoas que passaram por ela, mas sim da paixão, da amizade e da visão musical que sempre nos uniu. Quem entra percebe rapidamente o espírito dos Crossfaith.
O hard rock continua a ser a vossa linguagem musical, mas sente-se uma evolução nas novas composições. Quais são hoje as principais influências dos Crossfaith?
Continuamos a ouvir as grandes referências do hard rock, mas também procuramos inspiração no rock moderno, no metal contemporâneo e até noutros estilos. Hoje ouvimos música sem preconceitos.
A cena rock açoriana continua a revelar novas bandas. Como olham para o momento atual da música produzida nos Açores e que conselhos deixam às novas gerações?
Acreditamos que existe muito talento nos Açores. O mais importante é trabalhar, ser persistente e não desistir perante as dificuldades. A qualidade acaba sempre por falar mais alto.
A Tour 22 Anos é uma celebração, mas também um novo começo. O que gostariam que o público sentisse ao assistir a um concerto dos Crossfaith nesta nova fase?
Queremos que cada concerto seja uma experiência intensa. Que as pessoas saiam de lá com a sensação de terem assistido a uma banda viva, apaixonada e com vontade de continuar a escrever a sua história e a levar a nossa música além-fronteiras.
Depois de tantos anos de estrada, ainda existe algum palco, festival ou objetivo que gostassem de conquistar?
Enquanto houver vontade de criar música, haverá objetivos. Gostávamos de levar os Crossfaith a novos públicos, tocar em mais festivais e continuar a lançar discos que nos orgulhem.
Se tivessem de escolher apenas uma música da vossa discografia para apresentar os Crossfaith a quem nunca vos ouviu, qual seria e porquê?
Neste momento escolheríamos “Hot Love”. Resume muito bem aquilo que somos hoje: energia, melodia, peso e maturidade, tudo concentrado numa única canção.
Para terminar, que mensagem gostariam de deixar aos fãs que vos acompanham desde o início e aos que vão descobrir agora a banda através de “Hot Love”?
Queremos agradecer a todos os que fizeram parte desta caminhada ao longo dos últimos 22 anos. Sem o vosso apoio, nada disto teria sido possível. Aos que nos estão agora a descobrir, esperamos que esta seja apenas a primeira de muitas músicas que vão ouvir. Continuaremos a dar o nosso melhor e esperamos encontrar-vos muito em breve na estrada.
