Emanuel Raposo e Hugo Almeida revisitam 50 anos de história, memórias e paixão pelo palco
Cinquenta anos depois da formação dos ENGLE, a banda continua a ser uma referência incontornável do rock açoriano. Entre centenas de concertos, mudanças de formação e gerações de fãs, o grupo mantém intacta a energia que o tornou num dos nomes mais marcantes da música ao vivo nos Açores.
Nesta entrevista ao Música Total, Emanuel Raposo, um dos fundadores da banda, e Hugo Almeida, representante da geração mais recente dos ENGLE, fazem uma viagem pela história do grupo. Recordam os desafios de tocar rock nos anos 70, a evolução da banda ao longo de cinco décadas, o regresso aos palcos, a relação especial com o público e explicam porque acreditam que “o rock vive-se e sente-se”. Uma conversa sobre memória, dedicação e a vontade de continuar a “rokalhar” por muitos anos.
Ao celebrarem 50 anos de carreira, qual é o sentimento que melhor define este momento para os ENGLE?
ER: Satisfação. É um enorme prazer continuar a estar com o público e proporcionar momentos inesquecíveis.
Quando recordam o início da banda, em 1975, imaginavam que este projeto chegaria tão longe?
ER: O objetivo foi sempre dar continuidade ao projeto. Nunca imaginámos que chegasse ao que é hoje, mas alcançar esta longevidade e deixar uma marca tão forte no público é um privilégio. Isso dá-nos motivação para continuar.
O que tornou os ENGLE uma banda diferente no panorama musical açoriano daquela época?
ER: O repertório, a forma de estar em palco e, em cada concerto, baile ou festa, o respeito e a interação com o público.
Como era fazer rock nos Açores nos anos 70 e quais foram os maiores desafios que encontraram?
ER: Fazer rock nos anos 70, 80 e 90 significava acompanhar as novas tendências musicais para manter um repertório atual e dentro da nossa identidade. As maiores dificuldades eram a falta de informação disponível. Gravávamos muitas músicas da rádio, esperando que não fossem interrompidas pela publicidade, e, sempre que possível, comprávamos ou conseguíamos cassetes com os êxitos da época. Também era muito difícil encontrar equipamento, como amplificadores, guitarras, órgãos e outros instrumentos. Além do preço elevado, praticamente não existiam lojas especializadas nos Açores.
Quais são as memórias mais marcantes dos primeiros concertos e das digressões pelas ilhas?
ER: As memórias mais marcantes são os bailes dos Retiros, junto ao Forte de São Brás, construídos durante as Festas do Senhor Santo Cristo pelos grupos de finalistas do Liceu Antero de Quental e da Escola Industrial para angariar fundos para as viagens de finalistas. Recordamos também os grandes bailes de Carnaval no Coliseu Micaelense e no Clube Micaelense, bem como atuações nas Asas do Atlântico, em Santa Maria, na Sociedade Amor da Pátria, no Faial, e em festivais como a Maré de Agosto e a Semana do Baleeiro.
Depois de um longo período de pausa, o que vos motivou a regressar aos palcos em 2015?
ER: Foram várias famílias que nos desafiaram a voltar. O bichinho estava apenas adormecido e esse convite foi o impulso para regressarmos com o mesmo projeto, a mesma sonoridade e o repertório dos anos 80. Hoje dedicamo-nos apenas aos concertos, com muito trabalho de bastidores e de promoção. Conseguimos voltar a estar perto do público e proporcionar bons momentos de diversão, tanto para eles como para nós. Ainda bem que nos desafiaram. É um enorme prazer tocar.
Como conseguiram preservar a identidade dos ENGLE apesar das várias mudanças de formação ao longo dos anos?
ER: Respeitando aquilo que sempre esteve na génese do projeto: tocar, viver e sentir a música rock, tanto em palco como na relação com o público. Quando “rokalhamos”, fazemo-lo com o coração. Tocamos e trabalhamos todos para um único objetivo: os ENGLE.
HA: “We Rock the 80’s” é mais do que um slogan, é uma forma de estar em palco. Está presente na entrega a cada tema, no equipamento que usamos e no som que cada um procura para contribuir para o coletivo. Entrei em 2016 e senti isso muito rapidamente. Existe uma responsabilidade de honrar o passado, mas também de trazer energia nova. É esse equilíbrio que permite aos ENGLE continuarem a ser os ENGLE, independentemente de quem está em palco.
O repertório da banda atravessa várias décadas de música. Como escolhem os temas que fazem parte de cada espetáculo?
HA: Muitas vezes decidimos em cima do palco. Em cada espetáculo tocamos perto de 30 músicas, mas temos entre 50 e 60 prontas a qualquer momento. Vamos ajustando o alinhamento consoante a reação do público e o espaço. O mais importante é que as pessoas se divirtam tanto a ouvir-nos como nós nos divertimos a tocar.
ER: Procuramos sempre interpretar os grandes êxitos que marcaram os anos 80. Os alinhamentos vão sendo adaptados de acordo com o público, mantendo sempre uma base comum que identifica os ENGLE.
O público também mudou ao longo destes cinquenta anos. Como é tocar hoje para diferentes gerações que acompanham os ENGLE?
HA: É das coisas mais gratificantes. Vemos várias gerações no mesmo espaço a cantar as mesmas músicas, cada uma à sua maneira. O público muda, mas a ligação mantém-se. Os mais novos descobrem estes clássicos e vivem-nos com a mesma intensidade.
ER: É relativamente fácil e muito gratificante. Tocamos aquilo de que gostamos e com que nos identificamos, tentando transmitir esse sentimento. Em palco, nós e o público passamos a ser um só. Para as gerações mais novas, é também uma oportunidade de conhecerem e viverem o rock. O rock vive-se e sente-se. Não se consome. É eterno.
Que importância continua a ter o espetáculo ao vivo numa época dominada pelas plataformas digitais e pelas redes sociais?
ER: Como já disse, o rock vive-se e sente-se. A melhor, e penso que a única forma de o fazer plenamente, é ao vivo. As plataformas digitais e as redes sociais são importantes para divulgar o nosso trabalho, mas servem sobretudo para levar as pessoas aos concertos.
HA: As redes sociais são fundamentais para divulgar aquilo que fazemos. Cada vez mais pessoas acompanham a nossa agenda, vídeos e conteúdos. Mas, no final do dia, tudo se resume a partilhar a música ao vivo e a viver o rock com quem aparece para fazer a festa connosco. Felizmente, não nos faltam palcos. Nos últimos três anos temos feito, em média, entre 30 e 40 concertos por ano, sempre com a mesma entrega e muita rockalhada.
Na vossa opinião, o que faz com que os grandes clássicos do rock continuem a conquistar novos públicos?
HA: Os grandes clássicos têm duas características fundamentais: não dependem de modas nem de tendências. Têm riffs que ficam no ouvido, letras que dizem alguma coisa e uma energia que se sente ao vivo. Além disso, passam de geração em geração. É frequente vermos pais e filhos nos nossos concertos a cantar as mesmas músicas. Isso diz tudo. O rock clássico não envelhece, renova-se através do público.
ER: As composições, os arranjos, as vozes e as letras eram feitas para durar. Não se trabalhava apenas para o imediato, mas para despertar sentimentos e emoções. Quem não dançou numa garagem ao som de grandes slows e com pouca luz?
Depois de tantos anos em palco, o que ainda vos entusiasma antes de cada concerto?
HA: Nunca sabemos exatamente como será a noite, mas sabemos que vamos dar tudo. Mesmo depois de tantos concertos, continua a existir aquele nervoso miudinho antes de subir ao palco. Depois basta olhar para o público e sentir a energia para tudo voltar a fazer sentido.
ER: É mais um desafio, mais uma noite e mais um momento de pura diversão. We Rock the 80’s. Estar em palco é entrar noutra dimensão. É um prazer enorme.
Como veem a atual cena musical açoriana e que conselhos gostariam de deixar aos jovens músicos que estão agora a iniciar o seu percurso?
HA: Trabalhem muito, tenham disciplina, mas acima de tudo divirtam-se. Tocar música é um privilégio.
ER: A cena musical açoriana está cada vez melhor e conta com músicos cada vez mais preparados, o que garante a continuidade. O conselho é simples: trabalho, muito trabalho e, acima de tudo, respeito por vocês próprios e pelo público. Sem o público, não somos nada. E nunca deixem de se divertir.
Existem novos projetos, concertos especiais ou celebrações previstas para assinalar este marco dos 50 anos?
HA: Assinalámos oficialmente os 50 anos no ano passado, durante as Noites de Verão de Ponta Delgada. Mas quem nos conhece sabe que cada concerto é uma celebração do rock, da música, da amizade entre a banda e o público e, acima de tudo, da vida.
ER: Tivemos a oportunidade de oficializar esta data num grande concerto nas Portas da Cidade, durante as Noites de Verão. Todos os concertos são especiais. O que queremos é continuar, durante muitos anos, a “rokalhar”.
ENGLE celebram 50 anos de história ao serviço do rock
