Quarta-feira, 23 de Setembro de 2026
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Festival Iminente. Fado, hip hop e punk: o mesmo grito em linguagens diferentes

Por Graziano Tullio 23 Set 2026

Que o Iminente é um festival comunitário percebe-se antes mesmo de entrar. Na fila para levantar os bilhetes-convite, mais longa do que a da própria bilheteira, está já uma parte daquilo que o festival se propõe ser: um acontecimento construído por uma multiplicidade de organizações, grupos informais, artistas e, sobretudo, pela comunidade que lhe dá corpo. Não há aqui apenas um público a chegar para assistir a um programa. Há uma comunidade a reconhecer-se no espaço que ajudou a construir.

Uma linha comum entre linguagens diferentes

O cartaz prolonga essa impressão. À primeira vista, a programação poderia parecer uma grande mistura de tudo aquilo que, em Portugal e para lá dele, existe de mais interessante nas margens da cultura dominante. Por baixo dessa diversidade há uma linha comum. E essa linha não passa propriamente pelos estilos musicais, passa pela relação que cada artista estabelece com o espaço urbano de onde emerge, pela maneira como comunidades criam os seus próprios lugares e linguagens à margem, e em tensão, com aquilo que o mainstream determina como legítimo, vendável ou representativo.

É uma ideia que se torna visível já na primeira noite do festival: em horário nobre, entre propostas de música eletrónica, hip hop e reggae, está uma fadista, Gisela João. E não parece ser algo assim tão estranho.

O fado, como o rap, nasce dentro de uma comunidade, num contexto urbano periférico, e nasce como linguagem para transformar essa posição periférica numa identidade e, em determinados momentos, num gesto de confronto com aquilo que lhes é apresentado como norma. A própria Gisela João conta, no palco, já ter sido considerada “a estranha” no seu próprio grupo por ouvir fado. A história do hip hop não está assim tão distante dessa condição de estranheza.

Gisela João e a liberdade de deslocar o fado

O fado de Gisela João apropria-se da tradição para a deslocar através de loops, texturas sintéticas, beats e reverberações digitais, criando uma atmosfera suspensa e evocativa. No palco, essa deslocação começa pelo corpo. Calções, sapatilhas, uma presença visual distante do imaginário mais convencional do fado e uma base eletrónica que introduz outra dimensão sonora: tudo contribui para afastar a ideia de que existe uma única maneira legítima de habitar este género. Nesse sentido, o fado de Gisela João dá espaço àquele cruzamento entre linguagens que o festival quer investigar. É precisamente essa possibilidade de transformação de estilos, comunidades e espaços que torna o fado de Gisela João tão revelador do festival Iminente.

Na sua atuação há uma palavra que a atravessa desde o primeiro momento: liberdade. O concerto, de facto, apresenta temas do seu último álbum, Inquieta, e, ao mesmo tempo, recupera o repertório associado à resistência democrática e à canção de intervenção. O diálogo com José Afonso torna-se evidente em “Vejam Bem” (segundo single do disco) e nos versos contidos em “Os Vampiros”, quando a voz de Gisela recupera a denúncia de “eles comem tudo e não deixam nada”. E é justamente aí que o fado deixa de ser apenas uma categoria musical para se tornar uma posição.

 “É justamente aí que o fado deixa de ser apenas uma categoria musical para se tornar uma posição.”

Da margem do fado ao hip hop português

Não há tempo para a última canção, um clássico do fado (“Fado para esta noite”), chegar ao fim e, noutro palco, começa Sam The Kid. É nestes poucos minutos de sobreposição que o fado mais clássico encontra o melhor do hip hop português, não porque os dois sons sejam semelhantes, mas porque, em determinados momentos da sua história, ambos souberam transformar a margem em lugar de criação.

E que melhor imagem para dar forma a este conceito do que um quarto em Chelas, onde um jovem Samuel Mira, com 22 anos e um AKAI MPC 2000, cria um dos discos fundamentais do hip hop nacional?

Sam The Kid apresenta, com uma orquestra e Orelha Negra, o álbum instrumental Beats Vol. 1 – Amor (2002), um disco construído a partir de fragmentos de outras músicas, reorganizados dentro de um universo próprio. Começa com “Beleza” e já se podem distinguir os arranjos minuciosos da secção de cordas e sopros, que dão uma dimensão mais física e orgânica às colagens e samples originais de Samuel Mira. Ao longo do concerto, a mistura ao vivo prioriza o impacto rítmico dos metais, mantendo o baixo e a bateria no centro da mistura para sustentar a energia da atuação ao vivo perante o público.

O concerto conseguiu cativar a atenção desde o início. Até nos minutos antes percebia-se um grande pathos dentro de um público multigeracional, à espera, em silêncio, do começo do set. Isso deve-se ao caráter de “main event” que foi dado a esse concerto dentro do festival, mas também a uma grande ligação geográfica e emocional do artista com o seu público nesse exato recinto: o concerto acontece literalmente diante do território onde aquele universo musical foi criado.

Contudo, se no início havia um silêncio atento perante um concerto maioritariamente instrumental, construído em torno de um disco feito há mais de duas décadas a partir de uma escuta íntima e de um trabalho solitário num quarto de Chelas, na reta final essa atenção começou a dispersar-se, dando lugar a uma multidão mais ruidosa e curiosa sobre o que acontecia nos outros palcos.

Ghoya e o hip hop como confronto

Se, por um lado, Sam The Kid traz ao palco um álbum concebido como banda sonora da história de amor dos seus pais, no dia seguinte Ghoya traz um hip hop enraizado num lugar muito diferente: traz a raiva e a determinação política de um percurso marcado pela exclusão e pela prisão. Nascido no antigo Bairro das Fontainhas, entre Lisboa e Amadora, Bruno Furtado, o homem por detrás de Ghoya, é uma referência dentro do rap crioulo português.

É um set potente e de grande impacto emocional: um rap cru, animado por uma escrita de intervenção social. A sua música fala de identidade, resistência, racismo, violência policial e sistema prisional. Ghoya é claro no palco: “Não vamos ficar com os braços cruzados”. E, enquanto a frase ecoa, no LED wall passa outra, ainda mais direta: “Ser pobre não é crime”. Aqui, o hip hop aparece como instrumento de confronto: uma forma de devolver ao espaço público experiências que demasiadas vezes são empurradas para fora dele.

Logo a seguir, o set de George Silver & Gold leva-nos para mais um mundo a descobrir por completo. Na área da Cantina, instalada nas antigas instalações da escola, entramos num ambiente totalmente diferente. Muda o espaço, muda o público, muda a linguagem. Mas permanece a mesma liberdade de construir um universo próprio.

George Silver & Gold e a liberdade de construir um universo próprio

Em palco, um trio de saxofone/flauta, bateria/loops/voz e baixo/teclas cria uma mistura de afro-funk e live tech-house. A bateria de George Silver guia o set com uma capacidade particular de fundir a potência expressiva de uma banda pop-rock com a estrutura e o impacto rítmico da música eletrónica, evitando a rigidez de uma drum machine.

Os sopros trabalham frequentemente em call and response, alternando frases abertas e carregadas de harmónicos com pausas calculadas, criando uma tensão e um alívio contínuos dentro dos arranjos. Os elementos eletrónicos e os samples vocais processados entram sobretudo nas transições, antecipando os drops rítmicos e dando ao set a fluidez de um DJ set, mas mantendo a presença cénica e a frescura de um concerto funk.

A exibição envolve diretamente o público, aproveitando a naturalidade e a dinâmica dos músicos em palco para construir um groove contínuo e altamente dançável. George Silver, aka André Neves, e a sua formação demonstram como a música tocada ao vivo pode reanimar as estruturas da house contemporânea sem deixar de ser, antes de mais, uma banda em palco.

Dino D’Santiago entre mundos

No terceiro dia, a transversalidade do Iminente parece já não precisar de ser explicada: Dino D’Santiago surge como a síntese perfeita dessa ideia. Filho de pais cabo-verdianos, nascido no Algarve, Dino construiu o seu percurso precisamente entre mundos: começou ligado ao soul, R&B e hip hop e encontrou depois, na procura pelas suas raízes, uma linguagem que cruza batuku, funaná e música cabo-verdiana com eletrónica e música urbana contemporânea.

Mundu Nôbu marcou esse ponto de viragem e ajudou a transformar essa mistura numa das assinaturas mais reconhecíveis da música portuguesa contemporânea.

No Iminente, essa mistura parece encontrar-se com o próprio lugar. Dino está em casa, sente-se bem e o público também. Há qualquer coisa de festa de praça no concerto: uma proximidade sem cerimónia, o contacto direto com quem está à frente, os olhos que procuram um a um no meio da multidão, até ao momento em que desce do palco para dançar entre as pessoas. Naquele momento, percebe-se sem ser preciso dizê-lo: Dino é o dono da casa.

Talvez seja precisamente essa capacidade de transformar diferentes heranças num espaço comum que faça de Dino uma figura tão natural dentro deste festival. A música pode vir de lugares diferentes, mas no Iminente chega como identidade vivida, partilhada e devolvida ao público.

Do afro-funk ao extremo do underground

Pouco depois, na Cantina, a escala muda radicalmente. Os Bas Rotten entram em palco e, de repente, já não há espaço para a suavidade. O grindcore, o hardcore punk e a powerviolence condensam-se num ataque de enorme velocidade e intensidade. A bateria dispara em blast beats e as vozes, reduzidas a screams e growls, funcionam quase como mais um elemento percussivo. É música feita de excesso, mas também de precisão: mudanças bruscas de ritmo, stop-and-go, d-beats e breakdowns fazem com que, mesmo dentro do caos, tudo tenha um lugar.

A presença dos Bas Rotten na programação mostra que o Iminente também tem espaço para quem não quer ser compreendido pelo grande público, só reconhecido pela sua própria comunidade, construída a partir do underground.

E quando parece que já se chegou ao extremo, a noite ainda tem outro salto para dar. À uma da manhã, a Cantina recebe os Dead City, diretamente de Los Angeles. A distância geográfica é enorme, mas a lógica que os traz até aqui não é diferente. Também eles construíram uma comunidade a partir da margem, recorrendo a uma ética DIY e a concertos punk organizados fora dos circuitos convencionais, em lugares abandonados de Los Angeles.

As performances dos Dead City tornaram-se conhecidas pelo caráter caótico e pela tensão com as autoridades, transformando cada set num pequeno campo de batalha. Os Dead City não querem apenas tocar, querem ocupar o espaço público: viadutos, parques, ruas e outros espaços esquecidos ou interditos da cidade transformam-se, durante algumas horas, em lugares de expressão e de comunidade. São o retrato de uma cena que encontrou na música uma maneira de voltar a reunir pessoas, reanimar lugares abandonados e reclamar para si uma cidade que lhes parecia cada vez mais inacessível.

No fundo, é também isso que o Iminente faz. E assim, o círculo entre fado, hip hop e punk fica fechado.

Graziano Tullio

Jornalista por paixão, quando está fora dos escritórios de ONGs e instituições internacionais, leva para as recensões de concertos a sua crítica acutilante das dinâmicas humanas e a análise rigorosa do contexto - por pura deformação profissional.

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