Quarta-feira, 21 de Outubro de 2026
Destaque

Fontes Sonoras encerra ciclo de 2026 com Kathy Hinde e uma escultura sonora movida pelo rio Lis

Por Jorge Silva Medeiros 21 Out 2026

A água vai determinar o ritmo de uma obra de Kathy Hinde na Aldeia das Fontes, em Leiria. Entre 25 de outubro e 1 de novembro, a artista britânica desenvolve uma nova versão de Water Balance, uma escultura cinética em que o movimento da água desencadeia uma composição sonora que muda com as condições do rio Lis.

A residência integra a terceira e última edição de 2026 do Fontes Sonoras, projeto que este ano recebeu também os artistas Gil Delindro, em fevereiro, e Matilde Meireles, na primavera. Para Kathy Hinde, o desafio passa por adaptar uma obra criada originalmente em 2019 às características de um lugar específico, deixando que a água participe diretamente no processo de criação.

 

 

Quando a água passa a fazer música

A ideia por detrás de Water Balance parte de um mecanismo tradicional japonês conhecido como shishi-odoshi. Utilizado originalmente para afastar animais dos campos agrícolas, este dispositivo funciona através de um recipiente que se enche lentamente de água até atingir um ponto de equilíbrio instável. O peso acumulado provoca a inclinação do recipiente, que liberta a água e regressa depois à posição inicial.

Kathy Hinde aproveita este movimento cíclico para construir uma escultura sonora. Os recipientes interagem com diferentes objetos, produzindo sons à medida que enchem, inclinam e esvaziam. O processo repete-se, mas os intervalos entre os movimentos e os sons resultantes variam, criando uma composição que nunca se desenrola exatamente da mesma maneira.

Na Aldeia das Fontes, a artista irá desenvolver uma nova versão da instalação em diálogo com o rio Lis. O comportamento da água e as condições encontradas durante a residência serão determinantes para o funcionamento da obra, dando origem a sequências sonoras influenciadas pelo próprio ambiente.

O interesse está precisamente nessa imprevisibilidade. Em vez de seguir uma sequência musical inteiramente programada, a instalação abre espaço à intervenção de um elemento natural que não obedece a um ritmo fixo. A água deixa de ser apenas matéria utilizada na construção da obra e passa a participar na composição.

A experiência convida também a uma escuta diferente da paisagem. Os movimentos da água, os seus ciclos e as variações do caudal tornam-se parte de uma construção sonora que chama a atenção para processos naturais frequentemente ignorados no quotidiano.

A água no trabalho de Kathy Hinde

A relação entre som, mecanismos e fenómenos naturais atravessa o percurso artístico de Kathy Hinde. A artista audiovisual britânica trabalha na interseção entre música experimental, escultura, imagem e tecnologia, criando instalações e performances em que diferentes elementos interagem e respondem a estímulos do ambiente.

A água tem sido uma presença recorrente nesta investigação. Em obras como Tipping Point, River Traces, River Echoes e Submerge, surge como matéria física e elemento de transformação, permitindo explorar o movimento, o equilíbrio e as relações entre os sistemas naturais e a intervenção humana.

Em vez de procurar controlar todos os resultados, Hinde desenvolve dispositivos que permitem que os processos naturais participem na experiência artística. O som nasce desse encontro entre mecanismos construídos e fenómenos que seguem a sua própria dinâmica.

Em 2015, Tipping Point recebeu uma Menção Honrosa do Prix Ars Electronica, na categoria Digital Musics & Sound Art. O trabalho da artista tem sido apresentado internacionalmente em festivais, instituições e espaços dedicados à arte contemporânea, à música experimental e às práticas interdisciplinares.

Uma semana de criação junto ao rio Lis

A residência termina a 1 de novembro, com uma apresentação pública na Aldeia das Fontes, onde o público poderá conhecer o resultado do trabalho desenvolvido ao longo da semana.

A iniciativa encerra o programa de residências artísticas de 2026 do Fontes Sonoras, que procura aproximar a criação sonora da paisagem e da comunidade local. Ao convidar artistas a trabalhar a partir das características de um território, o projeto abre espaço a obras que não poderiam assumir exatamente a mesma forma noutro lugar.

No caso de Kathy Hinde, a relação com o rio Lis está no centro do processo. A instalação depende da interação entre os mecanismos construídos pela artista e o movimento da água, fazendo da paisagem uma parte ativa da experiência sonora.

Organizado pela Omnichord, o Fontes Sonoras tem curadoria de Raquel Castro e direção artística de Gui Garrido. Ao longo do ano, o projeto promoveu diferentes abordagens à arte sonora, tendo como ponto de partida a escuta do território e a relação com a comunidade da Aldeia das Fontes.

Com Water Balance, o ciclo termina com uma proposta em que a música não nasce apenas de uma decisão humana. O movimento da água introduz variações, determina intervalos e influencia aquilo que se ouve. É nessa relação entre construção artística e comportamento natural que a obra encontra a sua identidade.

Jorge Silva Medeiros

Jorge Silva Medeiros é técnico de som na RTP e fundador do Música Total, um dos projetos editoriais dedicados à música com maior longevidade em Portugal, dentro da plataformas. Ligado ao setor da comunicação e da música há mais de duas décadas, criou também a Rádio Atlântida e tem desenvolvido um trabalho contínuo na divulgação da música portuguesa, dos artistas emergentes e dos grandes eventos culturais, assim como produção de eventos.

Newsletter Semanal

RECEBE A
MÚSICA PRIMEIRO.

Curadoria semanal das melhores novidades musicais, entrevistas exclusivas e agenda de festivais — direto na tua caixa de entrada.

Subscreve gratuitamente

Ao subscrever aceitas os nossos Termos e Condições e Política de Privacidade. Podes cancelar em qualquer momento.