Seis anos depois da transformação mais profunda da sua história, os Kasabian chegam ao nono álbum com uma pergunta diferente: como continuar a ser reconhecível sem transformar a sobrevivência numa fórmula?
Durante algum tempo, a pergunta sobre os Kasabian pareceu inevitavelmente ligada à sobrevivência. Conseguiria a banda continuar depois da mudança mais profunda da sua história? Seis anos depois, Act III, o novo e nono álbum de estúdio, sugere que essa já não é a questão certa.
Os Kasabian já provaram que conseguem continuar.
O problema agora é mais difícil: como continuar sem transformar essa sobrevivência numa nova fórmula?
Lançado a 4 de setembro, Act III chega como o terceiro álbum da atual fase da banda, com Serge Pizzorno no centro da identidade vocal e criativa. O título ganha, por isso, uma dimensão que vai além de uma simples numeração. Depois de uma carreira marcada por diferentes versões dos Kasabian, este parece ser o momento em que a banda tenta reunir o que aprendeu sem ficar presa àquilo que foi.
O resultado é um disco de contrastes. Há guitarras, psicadelismo, sintetizadores, batidas de grande impacto e refrões construídos para permanecer. Há também uma preocupação evidente em recuperar a escala física que sempre fez parte da identidade dos Kasabian.
Mas recuperar não significa repetir.
E é nessa diferença que Act III encontra o seu verdadeiro conflito.
Ser Kasabian sem voltar a ser a mesma banda
O nono álbum apresenta dez canções e três interlúdios e foi produzido por Serge Pizzorno e Mark Ralph. A descrição oficial fala de pop guiado por guitarras e influências psicadélicas, mas o disco parte de uma linguagem mais ampla, onde diferentes impulsos da história dos Kasabian continuam a coexistir.
A banda nunca construiu a sua identidade através da pureza estilística.
O rock sempre foi um ponto de partida, mas raramente uma fronteira. Ao longo da carreira, os Kasabian aproximaram-se da eletrónica, da cultura de dança, do psicadelismo e do pop, procurando transformar essas referências numa linguagem própria.
Act III não abandona esse princípio.
O que parece mudar é o peso da própria história. Depois de nove álbuns, qualquer decisão artística transporta inevitavelmente a memória daquilo que veio antes. Aproximar-se das origens pode parecer nostalgia. Afastar-se demasiado pode colocar em causa aquilo que tornou a banda reconhecível.
Os Kasabian trabalham precisamente dentro dessa tensão.
Quanto mais recuperam a energia que definiu os primeiros anos, maior é o risco de parecerem presos ao passado. Quanto mais avançam, maior é o risco de deixarem de soar como Kasabian.
Act III não tenta eliminar essa contradição. Parece preferir utilizá-la como combustível.
Três canções mostram as diferentes direções do disco
A primeira prova dessa procura está nos temas que apresentaram o álbum.
“Nothing Better Than This” explora um lado mais imediato e físico dos Kasabian. A canção aproxima o impulso das guitarras da energia da música de dança, procurando o tipo de impacto que parece pensado para sair rapidamente do espaço privado da escuta e ganhar outra dimensão perante um público.
É uma característica antiga da banda, mas continua a ser importante neste momento: os Kasabian raramente tratam uma canção como uma peça isolada. Muitas parecem construídas com a consciência de que terão uma segunda vida fora do álbum.
“Great Pretender” segue outra direção, mais urgente e explosiva. Aqui, a banda recupera a dimensão de ataque que continua associada ao seu repertório, apoiando-se numa energia rock mais direta e num sentido de urgência que impede Act III de se transformar apenas num exercício de síntese do passado.
Já “SUPERPOWERS” abre outra porta.
Guiada por sintetizadores e por uma atmosfera mais caleidoscópica, a canção reforça a ideia de que os Kasabian continuam pouco interessados em reduzir a sua identidade ao rock de guitarras. O psicadelismo e a eletrónica não aparecem como desvios ocasionais, mas como parte integrante da linguagem da banda.
As três canções funcionam, assim, como uma espécie de mapa para o disco.
Não apontam todas para o mesmo lugar.
E talvez essa seja precisamente a intenção.
O terceiro ato não é uma conclusão
O título Act III poderia sugerir que a banda chegou a uma espécie de conclusão. Mas o álbum parece trabalhar numa direção diferente.
Um terceiro ato pode ser o momento em que as consequências das escolhas anteriores se tornam impossíveis de ignorar. É quando aquilo que aconteceu antes deixa de ser apenas passado e passa a determinar o que pode acontecer a seguir.
É nesse ponto que os Kasabian parecem estar.
Esta formação já não pode ser apresentada como uma versão provisória da banda. Depois de seis anos, três álbuns e alguns dos maiores concertos da atual fase do grupo, a transformação deixou de ser uma transição.
Passou a ser a identidade presente dos Kasabian.
Act III funciona, por isso, menos como uma tentativa de provar que a banda continua viva e mais como uma afirmação de que o seu futuro não precisa de ser construído contra o passado.
O passado continua lá.
Está nos riffs, na atitude, na escala dos refrões e na necessidade de fazer canções capazes de provocar uma reação imediata.
Mas já não manda sozinho.
Uma banda que continua a pensar na música fora do estúdio
Esta fase dos Kasabian chega também num momento de grande atividade ao vivo. Depois de uma atuação no Leeds Festival perante uma multidão de cerca de 90 mil pessoas e de um concerto esgotado para 45 mil pessoas no Finsbury Park, em Londres, a banda anunciou a digressão britânica Nothing Better Than This Tour, marcada para dezembro.
A escolha do nome da digressão não é indiferente.
“Nothing Better Than This” representa bem uma das ideias que continuam a definir os Kasabian: a música não termina no momento em que é gravada. Parte importante da identidade da banda construiu-se no espaço onde as canções deixam de pertencer apenas a quem as escreveu e passam a ser devolvidas a milhares de pessoas.
É aí que Act III encontra uma das suas consequências mais claras.
A banda continua a escrever música para ser ouvida, mas também para ser ocupada fisicamente: por uma arena, por um festival, por uma multidão.
A escala não é apenas uma questão de volume.
É uma forma de testar se uma canção consegue sobreviver fora da produção, do estúdio e do contexto em que nasceu.
A digressão contará com The Vaccines como convidados especiais.
Datas da “Nothing Better Than This Tour”
- 11 de dezembro — Birmingham, Utilita Arena
- 13 de dezembro — Glasgow, OVO Hydro
- 16 de dezembro — Cardiff, Utilita Arena
- 18 de dezembro — Londres, The O2
- 19 de dezembro — Manchester, Co-op Live
Depois da sobrevivência, começa o verdadeiro risco
Durante os últimos anos, os Kasabian tiveram de responder a uma pergunta externa: conseguiriam continuar?
Act III parece responder que essa fase terminou.
O risco agora é outro.
Uma banda pode sobreviver a uma transformação e, ainda assim, acabar presa à narrativa dessa sobrevivência. Pode continuar a provar que mudou até ao ponto em que a própria mudança deixa de significar alguma coisa.
É isso que torna este álbum particularmente importante.
Os Kasabian chegam ao nono disco com uma identidade suficientemente consolidada para não precisarem de apagar aquilo que foram. Mas também com uma história demasiado longa para fingirem que podem simplesmente começar do zero.
Act III vive entre essas duas impossibilidades.
Não tenta recuperar uma versão antiga da banda.
Também não tenta apresentar uma rutura absoluta.
Prefere reorganizar o que sempre esteve lá: guitarras, psicadelismo, eletrónica, refrões, excesso e uma vontade persistente de transformar cada canção num acontecimento maior do que a sua duração.
Depois de seis anos a provar que conseguiam continuar, os Kasabian chegam agora ao ponto mais exigente: descobrir se conseguem continuar a mudar sem deixar de ser reconhecíveis.
Act III já se encontra disponível nas plataformas digitais e em formato físico.
Kasabian são
- Serge Pizzorno
- Chris Edwards
- Ian Matthews
- Tim Carter
