Sábado, 8 de Agosto de 2026
NOVAS MUSÍCAS

FLO deixam cair a máscara em “Cry Ugly”, a faixa mais emocional de Therapy At The Club

Por Jorge Silva Medeiros 8 Ago 2026

Uma discussão pode começar por quase nada e acabar com alguém a chorar sem conseguir sequer explicar exactamente quando perdeu o controlo. É nesse instante, pouco bonito e nada cinematográfico, que “Cry Ugly” encontra as FLO. O trio britânico não tenta transformar o desgosto numa imagem elegante. Pelo contrário, pega no momento em que a compostura desaparece e faz dele uma canção.

“Cry Ugly” surge em Therapy At The Club, o novo álbum das FLO, como uma das expressões mais directas daquilo que o título do disco promete. A discoteca deixa de ser apenas um lugar para dançar. Também é o sítio onde se chega depois de uma discussão, onde se tenta esquecer alguém, onde se procura confiança e onde, às vezes, se percebe que a noite não consegue esconder aquilo que ficou por resolver.

A discussão já passou do ponto

“Cry Ugly” não começa no momento em que tudo corre mal. A sensação é a de que a relação já vem carregada de coisas por dizer. A discussão apenas abre a porta.

É aí que a canção ganha interesse. O desgosto não aparece como uma grande declaração romântica, dessas que o pop tantas vezes transforma em refrão. Aparece como desgaste. Frustração. Irritação. Aquela mistura difícil de controlar quando ainda existe sentimento, mas já não existe paciência.

O próprio título é quase uma provocação. Chorar “bonito” ainda permite alguma pose. Chorar feio é outra coisa. É perder a expressão certa, a resposta certa, a imagem certa. É ficar sem o controlo que normalmente se tenta manter diante dos outros.

As FLO escolhem precisamente esse momento.

E a escolha diz muito sobre o disco.

 

 

O poder de perder a compostura

Jorja Douglas, Stella Quaresma e Renée Downer construíram a identidade das FLO sobre uma relação muito forte entre vozes. As harmonias, o diálogo entre as três e a herança do R&B dos anos 90 fazem parte da linguagem do grupo, mas existe uma diferença importante entre cantar sobre vulnerabilidade e realmente deixar a vulnerabilidade conduzir uma canção.

“Cry Ugly” aproxima-se desse segundo território.

A música não precisa de gritar para transmitir desgaste. A força está na maneira como as vozes conseguem manter a identidade do grupo enquanto a situação descrita se torna cada vez menos controlável. Existe beleza na combinação vocal, mas o conteúdo está longe de ser confortável.

Essa contradição interessa.

As FLO são um grupo pop cuidadosamente construído, com uma imagem forte e uma atenção evidente à performance. “Cry Ugly” introduz uma ideia quase oposta: e se, por alguns minutos, não fosse preciso parecer bem?

É uma pergunta simples. Também é uma das mais interessantes do álbum.

A discoteca também pode ser um lugar para desabar

Therapy At The Club parte de uma ideia particularmente feliz: a noite não serve apenas para fugir dos problemas. Pode amplificá-los.

Uma pista de dança junta desejo, álcool, memória, insegurança, euforia e solidão no mesmo espaço. Pessoas que durante o dia parecem ter tudo controlado podem chegar à noite carregadas de coisas que não conseguiram resolver.

“Cry Ugly” encaixa exactamente aí.

O clube imaginado pelas FLO não é um cenário de felicidade permanente. É quase uma sala de espera emocional. Dança-se, flirta-se, termina-se uma relação, tenta-se esquecer alguém, ganha-se confiança e volta-se a cair no mesmo pensamento alguns minutos depois.

A terapia está na música, mas também está na possibilidade de admitir aquilo que se sente.

Por isso “Cry Ugly” funciona melhor quando não é tratada apenas como uma canção de desgosto. É uma canção sobre o momento em que já não vale a pena fingir.

As FLO estão a aprender a mostrar a ferida

O interesse de Therapy At The Club está também na evolução das FLO. Depois de Access All Areas, o trio tinha de encontrar uma maneira de avançar sem ficar preso à expectativa criada em torno da sua estreia.

Este novo álbum parece querer abrir espaço.

Não necessariamente através de uma reinvenção radical do som, mas através das situações que as canções escolhem explorar. Desejo, confiança, relações complicadas, saudade, independência e recuperação emocional aparecem como diferentes salas dentro do mesmo clube.

“Cry Ugly” é uma dessas salas.

Talvez seja mesmo a mais desconfortável.

Porque existe qualquer coisa de corajoso em admitir que uma relação conseguiu levar-nos até ao ponto de chorar sem qualquer preocupação com a aparência. Não é uma vitória. Não é uma derrota. É simplesmente o momento em que a pessoa percebe que já não consegue continuar a representar.

E talvez seja por isso que a canção resulta.

As FLO não prometem que a música vai resolver tudo. Não dizem que o desgosto desaparece depois de uma noite. Fazem algo mais interessante: dão espaço ao caos antes de tentar encontrar uma saída.

No fundo, “Cry Ugly” não é sobre chorar.

É sobre deixar finalmente de fingir que não dói.

Sabias que?

Therapy At The Club é o segundo álbum de estúdio das FLO e sucede a Access All Areas. O disco apresenta 16 faixas e expande a linguagem R&B/pop do trio para um universo construído em torno da noite, das relações e da vida emocional.

Ficha do Música Total

Artista: FLO
Tema: “Cry Ugly”
Álbum: Therapy At The Club
Lançamento: 7 de agosto de 2026
Género: R&B / Pop
Formação: Jorja Douglas, Stella Quaresma e Renée Downer

Vale a pena ouvir?

Sim. “Cry Ugly” não procura transformar o desgosto numa coisa bonita. E talvez seja precisamente essa a sua força. As FLO deixam a emoção desarrumada, desconfortável e demasiado humana. Como acontece muitas vezes depois de uma discussão que correu longe demais, a música não resolve nada imediatamente.

Primeiro deixa-nos chorar.

Jorge Silva Medeiros

Jorge Silva Medeiros é técnico de som na RTP e fundador do Música Total, um dos projetos editoriais dedicados à música com maior longevidade em Portugal, dentro da plataformas. Ligado ao setor da comunicação e da música há mais de duas décadas, criou também a Rádio Atlântida e tem desenvolvido um trabalho contínuo na divulgação da música portuguesa, dos artistas emergentes e dos grandes eventos culturais, assim como produção de eventos.

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