Mariana Guimarães fala do novo álbum e admite que sempre fugiu de ser artista

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A apresentação ao vivo o novo álbum, foi no dia 12 de março, Mariana Guimarães surge num ponto de viragem que não parece calculado, mas sentido. A artista lisboeta tem vindo a construir um percurso onde música, corpo e palavra se cruzam de forma natural, mas agora há uma mudança mais funda, quase inevitável, que se reflete na forma como fala e na forma como cria.

Nesta entrevista, abre o processo sem filtros. Fala do caminho que a trouxe até aqui, das dúvidas que ainda carrega e da relação direta com quem a ouve. O disco chega depois às plataformas digitais, mas já se sente que o essencial acontece antes, no encontro direto, no corpo e na voz, no momento em que tudo ganha forma diante de quem está presente.

Cresceste rodeada de arte. Em que momento percebeste que não era apenas ambiente, mas um caminho inevitável?

É engraçado, porque já poderia ter adivinhado em criança, mas o véu foi caindo aos poucos. Houve marcos importantes. Em 2014, quando me apercebi, sentada num sofá, que estava a escrever canções e a adorar cantá-las. Depois, em 2015, quando o meu amigo Virgílio Beatriz me convidou para criarmos um projeto, NÓS VOZ, do qual fui mãe, cantora e compositora durante três anos. Mas foi anos mais tarde, talvez em 2020, que me apercebi que era artista e que tinha andado sempre a fugir disso. Apesar de estar cheia de medos e perguntas sem resposta, foi um momento de muita emoção, alívio e uma sensação enorme de paz e liberdade.

O piano clássico fez parte da tua formação durante muitos anos. O que ficou dessa disciplina na artista que és hoje?

A minha professora de piano, com quem tive aulas dos 3 aos 21 anos, todas as semanas, a Dulce Nagy, foi muito importante na minha vida. Mostrou-me um mundo, não apenas do piano, mas da sensibilidade, da poesia e da escuta. Sentia-me muito compreendida ali com ela. Às vezes uso o piano para compor, para brincar, para descansar. Não toco muito, mas estar sentada à frente de um piano será sempre uma casa para mim.

A convivência com espaços como o Centro Cultural de Belém e a Culturgest aconteceu desde cedo. Que tipo de olhar artístico nasceu dessa experiência?

A minha maior escola foi ir aos espetáculos quase sempre com os meus pais. Não tenho palavras para descrever a qualidade do que vi e vivi na infância nesses lugares, com artistas e espetáculos de todo o mundo. Trouxe-me a convivência, a experiência e o encanto. E uma noção muito forte de presença, de criação e de palco.

Antes de colocares a arte no centro, passaste vários anos na área social. O que é que esse percurso te ensinou sobre pessoas e criação?

Que somos todos capazes de criar coisas que achamos impossíveis, na arte, na vida, na comunidade. E que, se individualmente já temos força, juntos temos um poder ainda maior de criação.

Trabalhas música, corpo e palavra como um todo. Como explicas essa linguagem a alguém que está a descobrir o teu trabalho agora?

Sou artista. Ouvi dizer que há muito preconceito em relação a esta palavra, mas, para mim, descreve algo muito real, palpável e com muita força. Ser artista é ser constantemente atravessada por algo que precisa de vir cá para fora. Há coisas que são constantes: a música, a dança e a palavra.

O teu trabalho tem uma forte dimensão de encontro e comunidade. O que procuras provocar quando estás em contacto direto com o público?

Alegria. Liberdade. Comunidade. Celebração. Emoção. Humanidade.

Escolheste lançar o novo álbum de forma progressiva, com um single por mês. O que te interessou nesse formato?

Poder dar a atenção merecida a cada uma das músicas e fazer uma viagem mais íntima e próxima com o meu público, acompanhando o álbum e cada single até ao lançamento. Foi muito especial. Uma viagem de um ano.

O tema “Quarta-feira” ganhou vida fora do digital, nas ruas e nas pessoas. Como viveste esse momento em que a música deixa de ser só tua?

Foi emocionante. Foi, mais uma vez, perceber que aquilo que somos de forma natural é o que tem maior impacto nos outros.

Este novo disco nasce num momento de transformação. O que mudou em ti durante esse processo?

Amor a jorrar. E liberdade.

A estreia ao vivo acontece antes da chegada às plataformas. O que queres que esse primeiro contacto revele sobre o projeto?

O lançamento ao vivo foi o grande momento de nascimento deste álbum. Uma viagem de três horas, uma experiência imersiva com concerto, com o “Amor a Jorrar” ao vivo.

Sentes que ainda há territórios por explorar na tua expressão artística?

Claro que sim. Acredito que é um caminho infinito.

Quando pensas no caminho que estás a construir, que impacto gostavas que a tua música tivesse em quem te ouve?

Espero que a minha música toque nos lugares certos, que transforme o que tiver de transformar, que traga alegria, paz, libertação e amor.

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