Sábado, 7 de Novembro de 2026
Radar Açores

Montanha Pico Festival junta quatro curtas-metragens ligadas aos Açores e uma estreia mundial

Por Mafalda Matos 7 Nov 2026

Quatro curtas-metragens ligadas aos Açores vão chegar ao Montanha Pico Festival em janeiro de 2027, numa sessão que reúne documentário, ficção e novos autores. Entre as obras está The Last Round, de Tiago Soares, que terá estreia mundial no Pico.

A sessão está marcada para 9 de janeiro, no Auditório da Madalena, depois da apresentação dos Prémios Audiovisuais Açorianos. No mesmo programa estarão Matéria Bruta, À Superfície e Mormaço, quatro trabalhos com diferentes relações ao arquipélago.

O mais interessante neste conjunto é precisamente a variedade. Não existe uma única forma de filmar os Açores. Existem histórias sobre pessoas, lugares, trabalho e relações que encontram no cinema diferentes maneiras de chegar ao público.

Quatro filmes, quatro percursos

Matéria Bruta, de Yuri Schuler e Guilherme Otsuka, parte de uma realidade muito concreta do Pico. O documentário acompanha o artesão João Gama e o seu trabalho, aproximando a câmara de um universo onde o conhecimento passa pelas mãos e pela experiência.

A escolha deste filme coloca o território no centro sem precisar de o transformar em postal. O Pico aparece através de uma pessoa e do seu ofício, numa relação entre cinema e memória que nasce da própria matéria da ilha.

Já À Superfície, de Paulo Macedo, reúne argumento do terceirense Alexandre Borges e interpretações de Helena Ávila e Abel Andrade. A obra foi produzida pela ANDO Portugal e acrescenta ao programa uma dimensão de ficção construída também a partir de ligações açorianas.

O conjunto começa assim a revelar diferentes caminhos. Um filme observa um artesão. Outro constrói personagens. A paisagem deixa de ser apenas cenário e passa a integrar as histórias de maneiras diferentes.

Do Pico a São Miguel, passando pela Terceira

A presença de autores e profissionais ligados a diferentes ilhas é outro dos elementos que atravessa a programação.

À Superfície tem uma ligação directa à Terceira através do argumentista Alexandre Borges, enquanto The Last Round, de Tiago Soares, chega ao festival através da equipa micaelense da Nineland Films.

Pelo meio está Mormaço, realizado por Leonor Xisto Fernandes no âmbito da Licenciatura em Cinema da Universidade Católica Portuguesa. A presença de uma obra associada a uma autora em formação acrescenta ao programa uma perspectiva diferente: a de quem está ainda a construir o próprio caminho no cinema.

É neste cruzamento que o programa ganha interesse. Os filmes não representam necessariamente uma mesma escola ou uma estética comum. Representam percursos diferentes que acabam por encontrar o mesmo espaço de exibição.

Uma estreia mundial no Pico

Entre as quatro obras, The Last Round terá um lugar particular. A curta-metragem de Tiago Soares terá estreia mundial no Montanha Pico Festival, numa apresentação que coloca uma produção da equipa micaelense da Nineland Films perante o público do Pico.

A estreia também mostra uma realidade que nem sempre é visível quando se fala de produção audiovisual nos Açores: existem equipas que trabalham localmente, desenvolvem projectos próprios e procuram depois espaços de circulação para essas obras.

No caso de The Last Round, essa circulação começa precisamente no arquipélago. Antes de chegar a outros públicos, o filme terá a sua primeira apresentação no Pico.

É um detalhe que dá peso à sessão de janeiro. Não será apenas uma oportunidade para rever trabalhos já conhecidos, mas também para descobrir uma obra no momento exacto em que começa o seu percurso público.

O cinema feito nos Açores encontra espaço no festival

O Montanha Pico Festival decorre de 8 a 15 e de 22 a 29 de janeiro de 2027, no Auditório da Madalena. A programação dedicada às obras realizadas nos Açores integra ainda uma tarde completa de filmes produzidos no arquipélago.

A sessão de 9 de janeiro acontece depois dos Prémios Audiovisuais Açorianos, aproximando duas dimensões que nem sempre aparecem juntas: o reconhecimento do trabalho realizado e a possibilidade de apresentar novas obras ao público.

Para quem acompanha o cinema feito nos Açores, a sessão vale também pelo retrato que oferece. Em pouco mais de um programa, cruzam-se documentário, ficção, formação e produção profissional. Cruzam-se Pico, Terceira e São Miguel. E cruzam-se autores em diferentes momentos dos seus percursos.

O resultado não é uma fotografia definitiva do cinema açoriano. É antes um pequeno retrato do que está a ser filmado agora e de quem está a começar a encontrar o seu lugar atrás da câmara.

Mafalda Matos

Mafalda Matos é jornalista no Música Total, onde assina sobretudo peças sobre [novidades musicais / entrevistas / cultura regional]. Com [10 anos] ligada ao jornalismo cultural, tem acompanhado de perto [festivais, lançamentos nacionais, etc.] e é uma das vozes mais regulares do Radar Nacional e da secção de Entrevistas do site.

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