Quinta-feira, 10 de Setembro de 2026
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Moyka: quando a melancolia encontra a pista de dança

Por Jorge Silva Medeiros 10 Set 2026

Direto de Bergen, Moyka está a construir um universo pop onde a melancolia não significa ficar parada. Nas suas canções, a vulnerabilidade ganha ritmo, as emoções transformam-se em pulsação electrónica e aquilo que começa por ser íntimo acaba muitas vezes por ser vivido em movimento.

Há qualquer coisa de particularmente nórdico na música de Moyka. Não apenas pela origem, mas pela forma como cria espaço à volta das canções. As electrónicas podem ser densas, as melodias têm uma dimensão quase hipnótica e a voz permanece próxima, como se estivesse a contar uma história que não foi pensada para ser ouvida por demasiadas pessoas.

Mas depois entra o ritmo.

E é aí que o universo de Moyka começa a ganhar outra dimensão.

Monika Engeseth começou a apresentar-se como Moyka em 2019, surgindo de Bergen com uma pop electrónica que rapidamente chamou a atenção pelo cruzamento entre sintetizadores, melodias fortes e uma escrita emocional. O primeiro EP, Circles, apareceu nesse mesmo ano e ajudou a estabelecer as bases de um projecto que desde cedo procurou transformar sentimentos pessoais em música expansiva.

A ascensão foi relativamente rápida. Moyka passou por alguns dos principais festivais noruegueses e acompanhou Sigrid em digressão, antes de levar o seu projecto para fora das fronteiras norueguesas. Londres e Berlim entraram nesse mapa e ajudaram a consolidar uma trajectória cada vez mais internacional.

Mas a parte mais interessante da história acontece quando deixamos de olhar para os palcos e começamos a ouvir as canções.

 

 

A tristeza também pode dançar

Moyka não tenta esconder a melancolia por detrás de uma produção pop luminosa.

Faz precisamente o contrário.

Pega nela e dá-lhe movimento.

Essa característica já estava presente em “Colder”, um dos primeiros temas que apresentou em 2019. A canção fala sobre o fim de uma relação e sobre a transformação que pode nascer de uma experiência dolorosa. A produção electrónica cria uma atmosfera fria e espaçosa, enquanto a voz mantém a fragilidade no centro.

Anos depois, essa ideia tornou-se ainda mais evidente em Movies, Cars & Heartbreak, o segundo álbum de Moyka, editado em 2023.

O próprio título já aponta para esse território emocional. Filmes, carros e desgostos amorosos. Momentos de euforia e momentos de solidão. A sensação de estar a viver alguma coisa intensa enquanto, ao mesmo tempo, se tenta perceber exactamente o que está a acontecer.

O álbum percorre diferentes velocidades, mas mantém uma lógica muito própria. As canções vivem de emoções diferentes, enquanto a produção electrónica mantém o corpo em movimento.

É precisamente aí que Moyka encontra a sua identidade.

Não é uma música triste.

Também não é simplesmente música para dançar.

É música sobre estar triste e ainda assim querer dançar.

Quando as canções começam a viajar sozinhas

A evolução de Moyka também pode ser lida através dos lugares onde a sua música começou a aparecer.

Depois de conquistar espaço na Noruega, chegaram Londres, Berlim e outras cidades europeias. Com Movies, Cars & Heartbreak, a artista fez digressões europeias e continuou a ampliar o seu público.

Mas uma canção pode viajar de maneiras que uma digressão não consegue.

“As Long As You’re Here” é um bom exemplo.

O tema encontrou uma nova vida em Young Royals, da Netflix. Para a terceira temporada da série, Moyka trabalhou numa nova versão da canção, transformando-a num momento particularmente importante da narrativa.

É uma mudança interessante.

A música que nasceu de uma experiência pessoal passa a acompanhar a história de outras personagens. O significado deixa de pertencer exclusivamente à artista e começa a ser reconstruído por quem a ouve.

E isso talvez seja uma das coisas mais difíceis de conseguir na pop.

Criar uma canção suficientemente pessoal para parecer verdadeira e, ao mesmo tempo, suficientemente aberta para que outra pessoa consiga encontrar-se dentro dela.

De Bergen para o outro lado do Atlântico

Em 2025, Moyka deu mais um passo nessa expansão.

Chegou à Cidade do México para três concertos, levando o seu universo a um público de outro continente.

Não era apenas mais uma paragem numa digressão europeia. Era uma primeira aproximação a um novo território e a uma audiência diferente.

A trajectória recente mostra como esse universo começou a crescer para lá da Noruega. Novas músicas, novas digressões e novos palcos foram acrescentando dimensões a um projecto que continua a ter a electrónica como ponto de partida.

O mais interessante, contudo, é que a expansão geográfica não parece ter alterado aquilo que está no centro do projecto.

A música continua a partir das emoções.

Continua a haver espaço para a tristeza.

Continua a existir aquela tensão entre a vontade de desaparecer e a necessidade de avançar.

A diferença é que agora essas canções conseguem chegar muito mais longe.

O universo de Moyka

Talvez seja essa a melhor forma de perceber Moyka.

Não como mais uma artista da pop electrónica nórdica, nem apenas como uma nova voz saída de Bergen.

O que está a construir é um espaço próprio.

Um lugar onde as batidas podem ser hipnóticas sem esconder a fragilidade, onde uma letra íntima pode encontrar uma produção suficientemente grande para uma pista de dança e onde a melancolia não precisa de ser derrotada para que a música avance.

Moyka não transforma a tristeza em felicidade.

Transforma-a em movimento.

E talvez seja exactamente por isso que funciona.

Porque há noites em que não queremos esquecer aquilo que sentimos.

Queremos apenas encontrar uma música que nos permita dançar com isso.

Jorge Silva Medeiros

Jorge Silva Medeiros é técnico de som na RTP e fundador do Música Total, um dos projetos editoriais dedicados à música com maior longevidade em Portugal, dentro da plataformas. Ligado ao setor da comunicação e da música há mais de duas décadas, criou também a Rádio Atlântida e tem desenvolvido um trabalho contínuo na divulgação da música portuguesa, dos artistas emergentes e dos grandes eventos culturais, assim como produção de eventos.

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