Terça-feira, 14 de Julho de 2026
Radar Nacional

Orquestra de Jazz do Hot Clube estreia Peace and Justice com John Hollenbeck no Festival das Artes

Por Mafalda Matos 14 Jul 2026

A música nem sempre nasce apenas da inspiração. Por vezes é moldada pelas circunstâncias, pelos encontros adiados e pelos acontecimentos que deixam marcas profundas em quem cria. O resultado pode transformar-se numa obra que vai muito além das notas escritas na pauta.

 

Foi precisamente esse percurso que deu origem a um trabalho desenvolvido ao longo de vários anos e influenciado por um período particularmente intenso da história recente. Entre o regresso da atividade artística após a pandemia e o impacto da guerra na Ucrânia, este projeto foi ganhando uma identidade própria até chegar finalmente ao palco.

A Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal apresenta, no dia 16 de julho de 2026, às 21h00, na Quinta das Lágrimas, o concerto de lançamento de Peace and Justice, o novo álbum criado em colaboração com o compositor, baterista e percussionista norte-americano John Hollenbeck. Integrado no Festival das Artes de Coimbra, o espetáculo contará ainda com a participação do próprio Hollenbeck como baterista convidado.

Um encontro entre duas linguagens criativas

A colaboração começou alguns anos depois de um memorável concerto realizado em Lisboa. A afinidade artística entre John Hollenbeck e a Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal evoluiu naturalmente para um projeto que une diferentes sensibilidades musicais sem perder coerência estética.

Hollenbeck compôs todos os temas do álbum, com exceção de algumas canções inspiradas na tradição musical ucraniana, assinando igualmente todos os arranjos. Sob direção de Pedro Moreira, a orquestra percorre um repertório onde convivem melodias delicadas, ritmos intensos e harmonias sofisticadas, refletindo uma escrita exigente, mas sempre aberta à improvisação e ao diálogo entre os músicos.

Um álbum marcado pelo contexto em que foi criado

As sessões de gravação decorreram entre 4 e 6 de junho de 2022, numa fase em que as viagens internacionais começavam finalmente a regressar depois da pandemia.

Parte da música nasceu de um projeto que John Hollenbeck preparava com músicos ucranianos. O início da guerra impediu que essa colaboração avançasse, mas a sua influência atravessa várias composições de Peace and Justice, conferindo ao disco uma dimensão emocional particularmente evidente.

Produzido por John Hollenbeck e Luís Cunha, o álbum foi editado pela Flexatonic Records, editora fundada pelo próprio compositor. Bekenshtein descreve este trabalho como “uma muito necessária prática de esperança”, uma definição que traduz o espírito de uma obra construída em torno da cooperação e da confiança na criação artística.

Nove composições com identidade própria

Entre os momentos mais marcantes encontra-se “Sinanari”, uma recriação de uma canção tradicional turca transformada numa poderosa peça para big band, impulsionada por um groove inspirado em John Bonham.

Em “Racing Heart, Heart Racing”, originalmente composta para a Orchestre National de Jazz, sobressai uma expressiva melodia de clarinete baixo que o próprio Hollenbeck considera uma das mais pessoais da sua carreira. Já “Sighs” explora a respiração e o gesto coletivo através de piano preparado e de uma meditação falada em português e inglês.

O percurso continua com “Feed the Fire”, homenagem à pianista Geri Allen, antes de culminar em “Verbena” e “Power of Water”, tema que termina com toda a orquestra a cantar, criando um momento inesperado de comunhão entre intérpretes e público.

John Hollenbeck continua a desafiar os limites do jazz

Formado na Eastman School of Music, John Hollenbeck construiu uma carreira marcada pela inovação e pela procura constante de novas possibilidades para a composição orquestral. Influenciado por Bob Brookmeyer e Meredith Monk, desenvolveu uma linguagem que aproxima o jazz da música contemporânea sem perder espaço para a improvisação.

Projetos como o John Hollenbeck Large Ensemble, o Claudia Quintet e o mais recente George, bem como colaborações com Theo Bleckmann, Meredith Monk e a Frankfurt Radio Big Band, consolidaram o seu estatuto como um dos compositores mais influentes do jazz contemporâneo.

A apresentação de Peace and Justice no Festival das Artes representa mais do que a estreia de um novo álbum. É a oportunidade de assistir ao encontro entre uma das mais importantes orquestras de jazz portuguesas e um criador que continua a expandir as possibilidades desta linguagem musical. Num tempo em que a arte procura novos caminhos para interpretar a realidade, este concerto afirma-se como um convite à escuta, à reflexão e ao encontro através da música.

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Mafalda Matos

Mafalda Matos é jornalista no Música Total, onde assina sobretudo peças sobre [novidades musicais / entrevistas / cultura regional]. Com [10 anos] ligada ao jornalismo cultural, tem acompanhado de perto [festivais, lançamentos nacionais, etc.] e é uma das vozes mais regulares do Radar Nacional e da secção de Entrevistas do site.