Segunda-feira, 24 de Agosto de 2026
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Paul The Silver entre Londres e Portugal: “Old Timer” começa outra história

Por Jorge Silva Medeiros 24 Ago 2026

Depois dos The Paperboats, Paul Da Silva regressa com um novo nome, uma nova fase e um álbum gravado em Portugal. “Old Timer” é o primeiro sinal de uma mudança que parece querer deixar o passado para trás sem o apagar.

Paul The Silver não aparece do nada. Antes deste nome existiram os The Paperboats, banda com uma relação concreta com Portugal e um percurso que levou Paul Da Silva entre o universo britânico e o público português. Agora, a história muda de direcção. “Old Timer” apresenta o primeiro capítulo de um projecto a solo que terá em Rational Lottery o seu primeiro álbum.

 

 

 

A diferença está precisamente aí. Não se trata apenas de trocar o nome de uma banda por um nome individual. O novo projecto parece partir da experiência acumulada para procurar outra escala de intimidade. E Portugal volta a aparecer no centro dessa mudança: o álbum foi gravado nos Arda Recorders, tornando o país parte do processo criativo e não apenas uma referência biográfica.

Dos The Paperboats a uma voz própria

Os The Paperboats pertencem ao passado, mas ajudam a perceber a dimensão da mudança. A banda chegou a actuar em Portugal em palcos de grande dimensão e construiu aqui uma história que Paul agora transporta para um projecto completamente diferente.

A pergunta interessante não é apenas porque decidiu seguir sozinho. É o que procurava nessa mudança. Quando um músico abandona uma formação com uma identidade já construída, ganha liberdade, mas também perde a protecção dessa identidade colectiva. Cada escolha passa a ficar mais exposta.

“Old Timer” funciona nesse contexto como apresentação, não como manifesto. A canção abre a porta para um projecto cuja identidade completa ainda está por revelar. É uma posição interessante para um primeiro single: existe passado suficiente para criar expectativa, mas ainda não existe uma resposta definitiva sobre aquilo que Paul The Silver quer ser.

“Old Timer” transforma a passagem do tempo numa canção

O título já coloca o tempo no centro. Mas é o videoclip realizado por Riccardo Servini que desenvolve essa ideia de forma mais clara. A história acompanha um casal em diferentes momentos da vida e intercala essas fases com uma actuação de Paul The Silver num pub. A montagem cria uma ligação entre memória, relações e passagem dos anos.

O mérito do vídeo está em não se limitar a ilustrar a canção. Servini constrói uma pequena narrativa à volta dela. As personagens existem para lá da performance, e isso dá ao single uma dimensão cinematográfica que ajuda a perceber porque a descrição do projecto fala em songwriting com ambição visual.

Os créditos também merecem ser separados da narrativa promocional. “Old Timer” foi fotografado por Ollie Craig, editado por Servini e produzido por Sinead Kitching e Marina Dovey. Vincent Kardasik não surge nos créditos deste vídeo.

Essa distinção é importante porque o próximo lançamento parece trazer uma nova colaboração visual. Segundo a informação recebida pela Música Total, esse vídeo foi filmado em Portugal com Kardasik, três vezes vencedor de Primetime Emmy Awards. É aí que a história visual de Paul The Silver poderá ganhar outra dimensão.

Portugal não é apenas uma nota biográfica

A ligação portuguesa é provavelmente o elemento que mais diferencia Paul The Silver neste momento. Não basta dizer que tem raízes portuguesas. O álbum foi gravado em Portugal e isso coloca o país dentro da construção concreta do projecto.

Os Arda Recorders tornam-se, por isso, uma peça importante desta história. Um estúdio não é apenas uma morada nos créditos. É um espaço onde escolhas de produção, músicos, instrumentos, acústica e método podem alterar aquilo que uma canção acaba por ser. Para perceber verdadeiramente Rational Lottery, será importante saber quem esteve por trás dessas decisões.

Entre Londres e Portugal, Paul The Silver tem assim uma história que não precisa de ser transformada numa fórmula identitária. O mais interessante é perceber se essa experiência aparece realmente na música. As raízes podem explicar uma parte do percurso, mas não substituem uma linguagem artística.

O verdadeiro teste chega com o álbum

É aqui que “Old Timer” deve ser colocado. Não como prova final de que Paul The Silver encontrou uma nova identidade, mas como o primeiro sinal de uma procura.

O single tem uma história forte à sua volta: os The Paperboats, Portugal, a mudança para um projecto a solo, os Arda Recorders e uma estratégia visual pensada com cuidado. Mas nenhum desses elementos pode fazer o trabalho que cabe às canções.

Rational Lottery terá de mostrar se existe ali uma voz suficientemente própria para sobreviver quando desaparecerem as referências biográficas. Se conseguir, “Old Timer” será lembrado como o momento em que essa transformação começou. Se não, ficará apenas como uma boa introdução a uma história que nunca encontrou completamente a sua forma.

Por enquanto, Paul The Silver está exactamente nesse ponto. Entre aquilo que já foi e aquilo que ainda pode ser. “Old Timer” abre a porta. O álbum terá de decidir o que existe do outro lado.

Jorge Silva Medeiros

Jorge Silva Medeiros é técnico de som na RTP e fundador do Música Total, um dos projetos editoriais dedicados à música com maior longevidade em Portugal, dentro da plataformas. Ligado ao setor da comunicação e da música há mais de duas décadas, criou também a Rádio Atlântida e tem desenvolvido um trabalho contínuo na divulgação da música portuguesa, dos artistas emergentes e dos grandes eventos culturais, assim como produção de eventos.

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