Escolheu o Música Total para apresentar em exclusivo uma investigação que questiona a história conhecida de um fenómeno que se tornou mundial. Uma história de música, memória, tecnologia e cultura que começa muito antes dos grandes festivais.
O Silent Disco faz hoje parte da paisagem dos festivais. Headphones, música, pessoas a dançar juntas e uma pista onde quase tudo acontece em silêncio para quem está de fora. Tornou-se um formato reconhecido em vários países e uma forma diferente de viver a música em colectivo.
Mas quem teve a ideia?
A pergunta parece simples. A resposta pode não ser.
Silent Disco Jesus escolheu o Música Total para divulgar em exclusivo a sua investigação sobre as origens do Silent Disco, um trabalho que procura reconstruir uma cadeia de experiências, encontros e acontecimentos que, segundo a investigação, recua até Portugal nos anos 1980.
É uma história que atravessa décadas e fronteiras. Passa pelos Walkmans, por experiências colectivas em Portugal, por Rotterdam, por rádio pirata e chega a 2002, quando o conceito entra numa fase decisiva.
O estudo The History of the Silent Disco Origins foi publicado no Cambridge Open Engage como Working Paper e está também disponível no SSRN. A investigação ainda não foi sujeita a revisão por pares pela Cambridge University Press.
Isso é importante. Mas não retira interesse ao trabalho.
Pelo contrário. Significa que estamos perante uma investigação que coloca uma história em cima da mesa e que agora pode ser discutida, questionada e aprofundada.
Tudo começa com um Walkman
Na reconstrução apresentada por Silent Disco Jesus, a primeira pista leva-nos até Portugal e aos anos 1980.
É nessa época que surge Xyko Maf!a.
Nos relatos que acompanham a investigação, Silent Disco Jesus recupera experiências de juventude com Walkmans e headphones, pequenos grupos e dança em espaços públicos. O que hoje parece uma solução normal para ouvir música era então uma utilização muito diferente daquela para que o equipamento tinha sido pensado.
O Walkman era individual.
A experiência podia ser colectiva.
Essa diferença é fundamental.
Várias pessoas podiam estar juntas, cada uma ligada ao seu aparelho, mas a partilhar o mesmo espaço e a mesma energia. A música criava uma espécie de território próprio dentro do espaço público.
Nos relatos sobre Xyko Maf!a aparecem também as histórias das praças de touros, das entradas improvisadas, das fugas e dos encontros com amigos. São memórias pessoais, contadas pelo próprio protagonista, e fazem parte da identidade através da qual Silent Disco Jesus explica a sua relação com a música e com a ideia de liberdade.
Não é apenas uma história sobre headphones.
É sobre encontrar uma maneira de criar uma experiência sem depender das regras dos espaços convencionais.
Mas existe uma cautela necessária.
A própria investigação reconhece que esta primeira fase portuguesa ainda precisa de confirmação independente. Parte importante do que é apresentado sobre os anos 1980 assenta na memória e no testemunho de Silent Disco Jesus.
Essa distinção não deve ser escondida.
Uma memória pode ser uma fonte essencial para reconstruir uma história e, ao mesmo tempo, continuar a precisar de documentação ou testemunhos externos para ser estabelecida como facto histórico.
A história passa por Rotterdam
A investigação continua depois em Rotterdam.
Durante os anos 1990, Silent Disco Jesus relaciona as experiências anteriores com acções colectivas, rádio pirata e sincronização de música.
É aqui que a história começa a ganhar outra dimensão.
O conceito deixa de estar ligado apenas à experiência de pequenos grupos e passa a envolver formas de transmissão colectiva.
A investigação cruza o testemunho de Silent Disco Jesus com referências contemporâneas e documentação relacionada com essas actividades.
A pergunta já não é apenas se alguém utilizou headphones para ouvir música.
A questão passa a ser outra:
existiu uma continuidade entre essas experiências e aquilo que viria mais tarde a ser conhecido como Silent Disco?
É neste ponto que a investigação propõe três critérios para analisar as possíveis origens do formato: prioridade, transmissão e continuidade.
Ter acontecido primeiro não chega.
É necessário perceber se uma ideia foi transmitida para aquilo que surgiu depois e se essa ligação teve continuidade.
Essa metodologia permite afastar vários acontecimentos frequentemente apresentados como possíveis origens do Silent Disco, mas que tinham funções diferentes ou não apresentam uma ligação demonstrável ao formato comercial.
E então chegamos a 2002.
O encontro que pode mudar a história
Num encontro no café De Twijfelaar, em Rotterdam, Silent Disco Jesus afirma ter apresentado a Nico Okkerse o conceito de uma “headphone discotheque”.
É aqui que a investigação encontra o seu ponto mais sensível.
Porque a partir deste momento já não estamos apenas a falar de experiências pessoais realizadas anos antes.
Estamos perante uma alegada transmissão directa de um conceito.
O estudo apresenta também o testemunho de Michael Minten, que confirma que a conversa aconteceu e ajuda a situá-la antes do lançamento comercial.
Pouco depois, em Agosto de 2002, o formato aparece comercialmente na De Parade, nos Países Baixos.
A partir daí, a história muda.
A ideia entra num contexto com capacidade para produzir, organizar, promover e repetir o conceito.
E é precisamente aqui que Silent Disco Jesus coloca uma questão que ultrapassa a sua própria história.
Quem inventa uma ideia e quem a transforma num fenómeno mundial podem não ser a mesma pessoa.
A ideia não é necessariamente o negócio
Esta é uma das partes mais interessantes da investigação.
Silent Disco Jesus propõe distinguir a origem conceptual da realização comercial através do conceito de “concept-executable innovation”.
A lógica é relativamente simples.
Uma pessoa pode desenvolver uma ideia. Outra pode possuir os meios para a transformar numa realidade comercial. E uma terceira geração pode acabar por levar essa realidade para o mundo.
No caso do Silent Disco, isto significa reconhecer o enorme trabalho necessário para transformar uma experiência numa indústria. Equipamento, produção, eventos, organização, promoção e expansão internacional foram fundamentais para que o formato chegasse onde chegou.
Mas existe uma pergunta que permanece:
essa capacidade de comercializar uma ideia também determina quem a inventou?
A investigação de Silent Disco Jesus diz que não devemos misturar automaticamente as duas coisas.
E essa distinção torna a discussão muito mais interessante do que uma simples disputa de autoria.
Porque estamos a falar da maneira como as ideias circulam.
Uma experiência pode nascer num pequeno grupo, longe das grandes empresas e dos grandes palcos. Pode permanecer durante anos sem reconhecimento. Pode ser transmitida a alguém com capacidade para a desenvolver. E, quando finalmente se torna mundial, a sua origem pode já estar distante da memória colectiva.
Uma história que o Música Total vai continuar a contar
É por isso que decidimos apresentar esta investigação.
Não para declarar um vencedor.
Não para transformar uma memória numa certeza.
Mas para abrir uma porta.
A investigação apresenta uma possível cadeia que liga experiências com Walkman em Portugal, acontecimentos em Rotterdam, o encontro de 2002 e o posterior desenvolvimento comercial do Silent Disco.
Algumas partes desta história possuem documentação e testemunhos externos. Outras continuam a precisar de confirmação independente.
E isso deixa uma pergunta no ar.
Será que Portugal esteve realmente no início de uma das formas mais curiosas de viver a música em colectivo?
Para já, existe uma investigação que coloca essa possibilidade em cima da mesa.
E existe algo ainda mais importante: Silent Disco Jesus escolheu o Música Total para contar esta história.
O próximo capítulo será uma entrevista
Esta publicação é apenas o começo.
O Música Total vai entrevistar Silent Disco Jesus por escrito para conhecer toda a história.
Vamos perguntar como começaram as primeiras experiências em Portugal, quem estava presente, como nasceu Xyko Maf!a, o que aconteceu em Rotterdam, o que foi apresentado no De Twijfelaar e o que aconteceu depois.
Vamos também perguntar pelas provas, pelas testemunhas e pelas partes da história que continuam por confirmar.
Porque esta não é apenas uma história sobre Silent Disco.
É uma história sobre música, memória, tecnologia, cultura e a forma como uma ideia pode viajar de um pequeno grupo até ao mundo inteiro.
E talvez seja essa a razão pela qual vale a pena olhar novamente para o princípio.
O Silent Disco já pertence ao mundo.
Agora, Silent Disco Jesus quer recuperar a história que ficou para trás. E o Música Total vai acompanhá-la.
GRANDE ENTREVISTA

Antes de ser um fenómeno dos grandes festivais, o Silent Disco foi uma ideia. Uma ideia que, segundo Silent Disco Jesus, começou a ganhar forma em Portugal, passou por Rotterdam e acabou por entrar numa indústria que hoje movimenta eventos em todo o mundo.
Nesta conversa com o Música Total, Silent Disco Jesus recupera memórias, episódios de juventude, experiências com Walkman, rádio pirata e o encontro que considera decisivo para compreender a verdadeira origem do conceito.
Quando é que começou a experimentar dança colectiva com Walkman e headphones em Portugal?
Entre 1982 e 1985, entre os 15 e os 17 anos, antes de fazer a mala e sair de Portugal à boleia, em Setembro de 1985. Foi ainda adolescente, numa sociedade portuguesa muito tradicional e conservadora, ainda a sacudir décadas de fascismo.
Onde aconteciam essas primeiras experiências e quem participava nelas?
No Parque da Moita.
O que contribuiu para isso foi ser sistematicamente barrado ou expulso de discotecas, bailes ou festas, por dançar de forma demasiado livre e energética, ou por ter um visual fora do comum, com cabelo ou roupa fora das normas aceitáveis.
Participavam amigos ou conhecidos da vila. Eram encontros ou danças espontâneas, ridículas, engraçadas, nada programado ou anunciado. Não havia raparigas, só rapazes a saltar ou simplesmente a rir-se do absurdo do espectáculo.
O que acontecia exactamente nesses encontros? As pessoas ouviam a mesma música e dançavam juntas?
Não. Cada um tinha o seu Walkman e a sua cassete, avançando as faixas ao seu próprio ritmo. Uns cantavam a sua própria canção, outros simplesmente dançavam, e os que não tinham Walkman ficavam a observar aquela coreografia sem perceber bem, ou sem ter nome para o que viam.
Era uma experiência colectiva improvisada. E eu, claro, era o mais destravado de todos.
Na altura, percebeu que estava a criar algo diferente ou essa interpretação surgiu apenas muitos anos depois?
Na altura era sobretudo uma brincadeira, um simples “having fun”, uma resposta criativa a ser-me negado o direito de festejar nas discotecas.
A leitura de que aquilo era o embrião conceptual de um formato hoje chamado Silent Disco é uma reconstrução que fiz depois, juntando as peças.
Quando já estava na Holanda, a organizar as manifestações dos dias sem carros, com a rádio pirata na mão, as memórias de adolescente voltaram.
Ver pessoas ali e acolá, a dançar ao som da rádio que eu transmitia, deu-me a chave que faltava: sincronizar música para a audiência e a possibilidade de fazer aquilo em qualquer lado, independentemente das discotecas.
Ser barrado à entrada de uma discoteca não era só coisa de Portugal. Também acontecia na Holanda.
Foi então que fez “clique”: ia tentar arranjar forma de fazer uma disco fora da disco e combater o monopólio dos clubes. E foi com essa ideia na cabeça que fui à procura de investidores.
Que importância teve a personagem Xyko Maf!a nessa fase da sua vida?
Era a alcunha pela qual era conhecido na minha vila, creio que por falta de qualificação própria ou, melhor, devido à forma de vestir, ao corte de cabelo e a um carácter cru e selvagem, difícil de intimidar por regras, normas ou tradições.
Na verdade, foi precisamente ao sair fora dessas normas, desafiando a mentalidade tradicional da época, que me deram o nome.
Um exemplo que posso dar: uma das discotecas da vila anunciou um prémio, uma viagem paga aos Açores, para o dançarino mais selvagem, o “homem mais louco” da noite.
Fui barrado à entrada por ser demasiado selvagem para entrar. Completamente ridículo.
Deve haver registos desse evento. Não é todos os dias que havia uma viagem paga aos Açores como prémio. Foi, na altura, uma ocasião bastante única na vila.
A miúda que ganhou o prémio sabe que ganhou precisamente porque não pude entrar.
No seu relato fala das experiências em torno das praças de touros. Que relação existe entre essas experiências e aquilo que mais tarde viria a ser o Silent Disco?
Esse capítulo, onde falo da praça de touros, serve sobretudo para ilustrar até que ponto o Xyko Maf!a era fora do comum, ousado e rebelde.
Deixe-me dar outra história que ilustra esse mesmo carácter, entre outras.
Eu jogava futebol num clube do Barreiro. Um dia tínhamos de jogar contra a Moita, a minha terra. O treinador decidiu deixar-me no banco, porque sabia que eu era da Moita. Não confiava em mim.
Ao intervalo, depois de muita gente começar a gritar ao treinador “deixa o Xyko jogar, deixa o Xyko jogar”, ele finalmente deixou-me entrar.
Mas assim que entrei, começaram a chamar-me piolhoso, maluco, destravado e outros nomes. Não paravam e fartei-me. Baixei os calções e mostrei-lhes o “piolhoso” entre as pernas.
Fui expulso de imediato, dois minutos depois de ter entrado em campo, mesmo à frente do público, do árbitro e do fiscal de linha.
Para quem conhecia o Xyko Maf!a, não foi propriamente chocante. Mais ou menos esperavam que algo assim acontecesse naquele jogo.
Outro exemplo: quando a minha mãe me disse que tinha de voltar a Portugal para a inspecção militar. Isso foi realmente muito louco, mas também é uma história muito longa.
Acabaram por me dispensar do serviço militar. Não deixei alternativa, tinham de me rejeitar. Quem quer um destravado daqueles na tropa?
Todas estas histórias servem só para ilustrar como esse carácter não tinha vergonha, restrições ou limitações. E como esse tipo de carácter é, de facto, uma peça importante do puzzle para se pensar e querer concretizar um conceito tão maluco como uma discoteca com headphones.
Em cabeças “normais”, planos malucos destes até podem surgir aqui e ali. Mas realizá-los, isso só para os verdadeiramente loucos, para mentes muito pouco convencionais.
E até que ponto essa mente era pouco convencional prova-se na vida real: quase uma década como nómada, com seis expulsões de países europeus no currículo.
É difícil encontrar um “estrangeiro ilegal” expulso de tantos países.
A primeira vez que paguei renda na vida foi aos 45 anos. Tinha quase sempre onde viver, não em casa de outra pessoa, mas em squats, a ocupar e a viver sem pagar renda. E, se não tinha onde viver, temporariamente uns dias debaixo da ponte também não chove.
Existe documentação, fotografias ou testemunhos de outras pessoas que possam confirmar essas experiências portuguesas dos anos 1980?
Como explico na nota do autor do meu estudo, alguns dos primeiros episódios em Portugal ocorreram em contextos informais e não documentados. A minha memória constitui aí a camada primária, apresentada de forma transparente como testemunho autoetnográfico.
Uma coisa é certa: é possível encontrar testemunhos da notoriedade do Xyko Maf!a. O que não consigo garantir é encontrar pessoas que se juntaram ou testemunharam as danças de grupo em si.
Mas posso dar alguns nomes. Por exemplo, na altura o breakdance estava a começar a chegar a Portugal, tanto que havia o “Júlio Break”, uma alcunha que lhe deram por causa do seu breakdance de rua. Ele participou nessas danças com Walkman.
Se alguém o conseguir encontrar, tenho a certeza de que pode confirmar.
Outros seriam “o Paladas”, “o Panelas”, “o 18” ou “o Galha”. Teria de procurar fundo na memória por nomes. Na verdade, todos tinham alcunha.
Como é que essas experiências portuguesas evoluíram quando chegou a Rotterdam?
Antes da Holanda, quando comecei o grupo de acção Pippi Car Free, já tinha dez anos de vida nómada pela Europa. Chamei-lhe “grupo de acção”, mas, na verdade, era tudo movido por mim, sozinho.
Já na Holanda, nos anos 1990, levei o conceito mais longe: os “Autoloze Zondag”, domingos sem carros, usando transmissões de rádio pirata para sincronizar música para os activistas no espaço público.
De alguma forma, sabia ou sentia que a minha “disco de adolescente” no parque da Moita podia funcionar também nas ruas da Holanda.
As rádios piratas eram uma coisa mais ou menos comum nos anos 90, e os Walkmans com receptor de rádio eram moda. Muita gente tinha um.
Por isso, levava a rádio pirata comigo e dizia às pessoas para sintonizarem uma frequência secreta. Isto não podia ser publicitado, nada de flyers. Tinha de ser tudo por passa-palavra.
E, de repente, do nada, havia pessoas aqui e ali a dançar ao som daquilo.
Ficou-me claro que aquilo podia funcionar.
Que papel tiveram as rádios piratas e as acções da Pippi Autoloze Zondag no desenvolvimento do conceito?
Foi aí que o método técnico nasceu. A tecnologia era rudimentar, mas a ideia já estava totalmente formada.
A sincronização que a rádio pirata oferecia foi essencial para imaginar pessoas a dançar em todo o lado, sem dependerem de discotecas ou clubes.
Mas como pôr aquilo a funcionar? Como arranjar fones sem depender dos receptores de rádio dos Walkmans?
Perguntei a um amigo ou outro. Todos me diziam que eu era louco, que uma discoteca com headphones era conversa de doido. Não existia senão na minha cabeça.
Ao mesmo tempo, tinha medo de falar com as pessoas erradas, porque sabia que tinha um bom conceito nas mãos.
Não podia simplesmente falar abertamente com toda a gente, exactamente por recear que acontecesse o que veio a acontecer: ser-me “sequestrado” o conceito.
É preciso dar algum contexto de por que não era fácil fazê-lo na altura. Vivia, como sempre, com o mínimo, sem dinheiro, sempre no limite economicamente. Era uma luta pela sobrevivência, dia a dia.
Por exemplo, uma das coisas que fazia para me aguentar era ir com um amigo ao supermercado, entrar na arrecadação das traseiras e trazer para a frente uma ou duas caixas de garrafas vazias, para as pôr na máquina e receber o depósito com que comprava comida.
Ginástica louca para ir sobrevivendo.
Investir em fones estava fora de questão.
Em que momento percebeu que já não estava apenas a utilizar headphones, mas a desenvolver um verdadeiro conceito de festa?
Por volta de 1998, quando já tinha um conceito completamente definido na cabeça, um método definido e anos de convicção acumulada. Só me faltava o equipamento: fones sem fios, dinheiro, contactos.
Na noite em que falei com o Nico Okkerse, no De Twijfelaar, andava à caça de um investidor.
Decidi que precisava de expor a ideia a potenciais investidores. E sim, estava muito consciente de que me podiam sequestrar a ideia.
Nessa noite, tentei primeiro com a banda que tocava ao vivo. Falei com o líder da banda, o Jasper.
Depois de lhe expor o plano e o conceito, ele disse-me que talvez fosse melhor falar com o homem ao balcão.
Esse homem era o Nico.
Quando surgiu pela primeira vez a expressão “headphone discotheque”?
Foi o termo que eu próprio usava antes de existir a palavra “Silent Disco”. Era o termo com que pedia a amigos para se juntarem a mim ou fazerem aquilo comigo.
Diz tudo no próprio nome.
Foi também o nome que usei a falar com o Nico. Isso e o discurso que lhe fiz naquela noite foram tão convincentes que ele fugiu com a ideia e passou o resto da vida a apagar a minha participação e a minha transmissão dela para ele, para poder ficar sozinho com toda a glória.
O que aconteceu exactamente no encontro com Nico Okkerse, no De Twijfelaar?
O líder da banda, Jasper, indicou-me alguém.
Nesse bar em Roterdão apresentei o conceito completo ao Nico Okkerse: pessoas a dançar em qualquer lugar, a filosofia por trás disso, o método de rádio pirata e o argumento de que o som em fones preserva o estéreo verdadeiro como as colunas nunca conseguem.
Ele ouviu tudo com muita atenção, disse-me que parecia interessante, uma boa ideia, e foi-se embora.
Eu não o conhecia e só falei com ele uma só vez.
Foi o Nico que, na entrevista que lhe fiz em 2026, identificou o ano exacto em que nos encontrámos no Twijfelar.
Eu estava “em fogo”, um verdadeiro crente de que o conceito ia funcionar e crescer, e foi essa convicção e entusiasmo que o Nico levou consigo.
O que apresentou nessa conversa: uma ideia, um projecto já desenvolvido ou um conceito preparado para ser executado?
Um conceito totalmente formado, com anos de prática e convicção por trás. Não uma ideia vaga, mas algo já vivido e testado nas ruas.
Apresentei-lhe o pacote completo.
Sabia que tinha de ir a fundo para convencer alguém, ser claro e apresentar todos os argumentos, factos e vantagens.
Ele usou depois vários desses mesmos argumentos para vender o seu espectáculo Silent Disco.
Quem estava presente e o que pode confirmar hoje sobre essa reunião?
Estávamos eu e o Nico Okkerse.
Hoje, tanto o Nico como o seu antigo sócio, Michael Minten, confirmam que o encontro aconteceu.
O Michael Minten só pode saber do encontro porque o Nico lhe contou. Não há outra forma.
Pelo que percebi das minhas entrevistas, nessa altura talvez até partilhassem casa. Fácil, nesse caso, partilhar ideias.
Michael Minten confirmou que a conversa aconteceu. Que importância tem esse testemunho para a sua investigação?
É decisivo. É uma confirmação independente, vinda de dentro do próprio negócio que lançou o Silent Disco comercialmente.
Não se relata a um sócio um encontro sem qualquer importância.
O Minten descreveu ainda o trabalho anterior a 2002 como fones usados em instalações de arte, formatos estáticos e sentados. Não uma pista de dança, não uma disco com fones.
Essa mudança só surgiu depois do encontro comigo.
O que aconteceu entre essa conversa e o lançamento do Silent Disco na De Parade, em Agosto de 2002?
Poucos meses depois, o Nico e o Michael Minten lançaram uma discoteca com headphones no festival De Parade, chamando-lhe “Stille Disco” e apresentando-se como os originadores.
Eu não fui envolvido, creditado ou compensado. Fui, isso sim, apagado.
Em 2026 cheguei a trocar alguns e-mails com um DJ que trabalhou com o Silent Disco quase desde o início. Juntou-se ao Nico cerca de um ano depois.
Fiz esses contactos de forma disfarçada, sem o meu nome real. Quando lhe perguntei quem, a adivinhar, teria tido a ideia original do Silent Disco, disse que provavelmente seria o Michael Minten, por ser “o rebelde dos dois”. Que o Nico não tinha o perfil.
Ora, sabemos agora que o Michael não foi ele. Não reivindica ter tido a ideia e nunca o fez.
Se este DJ diz que o Nico não era suficientemente rebelde ou fora da caixa para chegar a esta ideia sozinho, que não tinha o perfil ou o carácter para pensar em tal tipo de conceito, então como é que ela chegou à sua cabeça?
Só há uma outra forma: aquela noite no De Twijfelaar.
Refiro esta questão do “não ser rebelde o suficiente” porque acho que essa era mesmo uma condição para conseguir pôr o conceito a andar. Era preciso ser um pouco doido da cabeça.
É também por isso que falo do carácter rebelde e selvagem do Xyko Maf!a. Penso que foi uma peça essencial para pôr aquilo a rolar.
O Nico simplesmente tinha o hardware e os contactos certos nos festivais para o pôr em prática, algo que eu não tinha.
Eu conseguia experimentar acções de rua para o dia sem carros, mas ficava por aí. Não tinha o local, o público, nem hardware para ir mais longe.
Essas acções do Pippi Car Free acabaram e precisava de um investidor.
Quando percebeu que a ideia que tinha apresentado estava a transformar-se num formato comercial?
Cerca de um ano depois, percebi que a ideia, ou o evento, andava a circular.
No início não sabia quem estava por trás. Mais tarde soube que era exactamente o que tinha contado àquele Nico e que ele o estava a executar.
Na altura, uma namorada disse-me para me acalmar e não fazer nenhuma loucura.
Acabei por focar-me noutros projectos, para não ir procurar o Nico “para lhe dar uma lição”.
E, na verdade, por já não ser inovador ou novo, achei que também já não era para mim.
Gosto de ser pioneiro, de criar coisas novas, de descobrir território novo, novos desafios.
O que significa, para si, distinguir a origem conceptual da comercialização de uma inovação?
Significa reconhecer que a inovação aqui não foi de engenharia. O fone já existia, o transmissor de rádio já existia, a pista de dança já existia.
A inovação foi inteiramente conceptual: reconhecer que esses elementos existentes podiam ser combinados numa nova prática social.
Ter a ideia, o conceito e construir a estrutura comercial que a executa são dois actos distintos. E a história tende a lembrar apenas quem executa e a esquecer quem concebeu o conceito.
Não é estranho, porque, na verdade, quem comercializa é quem fica com toda a atenção, notícias e eventos, e o verdadeiro originador nunca tem os holofotes, porque nunca teve nenhum para começar.
Quando, em 2010, decidi confrontar a questão e contactar o Nico directamente por e-mail, ele ficou furioso. Negou, de todas as formas e cores, qualquer envolvimento meu.
Esses e-mails chegaram a ameaças de causar-me danos.
A persona de “originador” que construiu à sua volta é tão poderosa que está disposto a fazer o que for preciso para a preservar.
Mas eu gosto de coisas honestas, gosto de coisas justas. Não seria bom para mim deixar que as pessoas me passassem por cima só porque conseguem impor-se pela força.
Pelo que entendi das entrevistas que fiz, o Nico devastou psicologicamente o Michael Minten.
O próprio Michael avisou-me que o Nico faria tudo para me destruir se eu não aceitasse aquilo que ele considera ser a verdade.
Senti isso precisamente nos poucos meses de entrevistas que fiz com o Nico em 2026. Ele fará o que for preciso para impor a sua narrativa.
O que significa para mim?
Se o deixar seguir em frente, apaga parte da minha história de vida. Apaga, de facto, a minha memória, se conseguir o que quer.
Não recuo perante valentões. Não é do meu feitio dobrar-me e engolir.
Além disso, acredito que as pessoas merecem conhecer a verdade, e não um mito construído por este homem.
E também: o Silent Disco nunca foi criado para evitar barulho ou como solução de ruído, mas sim para permitir às pessoas festejar em qualquer lado, a qualquer hora. Uma forma de contornar as paredes das discotecas e os seguranças, de não depender dos clubes.
E gosto de deixar isto bem claro.
A “solução de ruído” é uma narrativa que veio depois, acrescentada pela indústria do Silent Disco para vender os seus serviços.
No estudo utiliza o conceito “concept-executable innovation”. Pode explicar aos leitores do Música Total o que significa?
É o termo que proponho no meu estudo para analisar como inovações culturais são vulneráveis à apropriação institucional e ao apagamento sistemático da narrativa original.
Descreve situações em que alguém desenvolve um conceito plenamente formado, mas sem os meios para o executar à escala, e outra pessoa, com acesso a esses meios, executa-o e fica historicamente associada à origem.
É um conceito fácil de perder, só de o falar em voz alta: fica pronto a executar assim que sai da boca de alguém.
Basta dizê-lo em voz alta para que fique, de imediato, pronto a pôr em prática, “ready to execute” no momento em que sai da boca de quem o concebeu.
Quem o ouve não tem de inventar nada, só de ter os meios: dinheiro, contactos, hardware.
É por isso que lhe chamo uma armadilha do inovador.
Se não falares da ideia, ela nunca se concretiza. Fica só tua, mas morre contigo.
Se falares, arriscas que outra pessoa, com acesso àquilo que te falta, a execute sem ti.
Não há meio-termo confortável: a ideia só existe no mundo no dia em que a partilhas e é exactamente nesse dia que deixa de ser só tua.
Reconhece o trabalho de quem transformou o conceito numa estrutura comercial e o levou para todo o mundo?
Sim. Reconheço que construíram a marca, a escala, a distribuição global.
Isso é um mérito real e distinto do meu.
O que contesto não é esse mérito, mas a apropriação da autoria conceptual e o apagamento da minha memória e da minha história.
Onde termina, na sua perspectiva, a sua contribuição e começa a contribuição dos responsáveis pela comercialização?
A minha contribuição termina no momento em que a ideia sai da minha boca naquele bar, em 2002, a filosofia, o método, a convicção de anos. A partir daí começa o trabalho deles: o hardware, o investimento, o acesso à indústria de eventos, a marca, a escala internacional.
Porque acredita que a versão dominante da história acabou por atribuir a origem do Silent Disco a quem o comercializou?
Porque não deixei nenhum registo publicado na altura. Nenhum nome, nenhuma linhagem documentada.
Esse vazio deixou o campo livre para quem lançou comercialmente o conceito reclamar a posição de originador sem contestação, e para a Internet, mais tarde, preencher esse vazio com fragmentos avulsos que se foram consolidando por repetição.
Em 2002 não havia eventos semelhantes. Tinham o mundo inteiro aos pés, sem concorrência.
Tinham bons contactos na cena de eventos, organizadores de festivais, dinheiro e também um bom nome. “Silent Disco” é um rótulo apelativo.
Mais tarde, outros indivíduos, DJs e empresas começaram também a chamar-lhe “Silent Disco”.
Grandes festivais passaram a reservar um “Silent Disco”. O rótulo era tão bom que toda a gente o adoptou e tornou-se genérico, o nome do próprio conceito.
Eu, por outro lado, fui fazer outras coisas, sem relação com isto. Não queria nem precisava de continuar a fazê-lo.
Até chegar a Berlim, em 2010.
Depois há a Wikipédia, onde toda a gente vai buscar a história e origens do Silent Disco e depois repete-a em blogues, artigos e estudos.
Um efeito de relato circular, sem grande verificação: agarram no que lá está, assumindo que é assim mesmo.
Só comecei a fazer trabalho a sério para mudar esta história agora, em 2026.
Só este ano é que a Wikipédia começa a dizer alguma coisa sobre a minha versão. Foi só agora, em 2026, que o “Silent Disco Jesus” ganhou vida e que surgiram os meus preprints em plataformas académicas.
Isso quer dizer que, durante duas décadas, o Nico pôde consolidar a sua história e a Wikipédia pôde turvar as águas juntando todas as outras ocorrências.
Fazendo parecer que nem sequer é possível ter uma única origem.
O trabalho que fiz nos últimos meses é para provar que isso está errado e mudar a história do Silent Disco.
Qual foi a descoberta mais importante que fez durante estes meses de investigação?
Foi a confirmação de que o encontro no De Twijfelaar aconteceu. Mas o caminho até lá não foi o que eu esperava.
Na troca de e-mails de 2010 com o Nico, disse-lhe claramente que não ia parar de contar a minha história, a não ser que ele planeasse matar-me.
A resposta dele foi: “não nesta vida, mas na próxima”.
Foi com esse histórico que comecei a investigação em 2026, sabendo que enfrentava uma tarefa muito difícil, quase impossível: a única forma de provar que a ideia lhes veio de mim seria se o próprio Nico a confirmasse, e ele já tinha mostrado do que era capaz.
O ponto de viragem foi o Michael Minten, que me custou muitas semanas de becos sem saída até sequer conseguir descobrir e contactar.
Do nada, confirmou que sabia que aquela conversa tinha acontecido. Foi um choque.
Munido dessa confirmação, confrontei então o Nico com uma verdade que já não podia simplesmente negar.
Desta vez, em vez de voltar a negar tudo como em 2010, optou por minimizar e desvalorizar o encontro.
Qual é actualmente a parte da sua história que considera mais difícil de provar documentalmente?
Os episódios mais antigos, de Portugal nos anos 1980, por serem informais e anteriores a qualquer registo digital ou fotográfico.
Na altura não havia smartphones.
É muito provável que ainda haja pessoas que participaram e dançaram no parque comigo. Eu era a peça essencial que iniciava esses episódios.
Depois da publicação do estudo, o que gostaria que acontecesse? Procura novas testemunhas, documentos ou investigadores que possam confirmar ou contestar a sua reconstrução?
Sim. Continuo interessado em qualquer testemunho de Portugal ou da Holanda que ajude a confirmar, complementar ou mesmo contestar esta reconstrução.
O objectivo é o registo histórico, não apenas a minha versão dele.
Mas isto é algo que não posso fazer sozinho. Não posso simplesmente ir à Moita ou a Roterdão entrevistar pessoas. Isso não seria independente.
Teria de ser outra pessoa a fazê-lo, para que fosse verdadeiramente isento.
E já que estamos a falar de rebeldia e de personagens fora do comum, deixa aqui um desafio ao público português?
Desafio? Ideia para concurso.
E já que estamos a falar de rebeldia e de personagens fora do comum, deixo aqui um desafio a sério, não só uma pergunta retórica: lanço um repto a qualquer português para bater o Xyko Maf!a, o “Silent Disco Jesus”, no título de rebelde.
Não uma fantasia inventada. Uma história de vida real.
O carácter mais selvagem, a vida mais rebelde, a história mais fora do normal que Portugal alguma vez produziu.
Desde as histórias já conhecidas e célebres às que nunca ninguém contou ou ouviu falar.
Se alguém acha que consegue bater o Xyko Maf!a no título de rebelde, que apareça com a história.
Se pudesse deixar apenas uma ideia ao leitor que termina esta entrevista, qual gostaria que fosse?
As ideias só se tornam reais quando o lugar certo, o momento certo e a energia certa se encontram.
Falhe um destes e a ideia fica só isso: uma ideia.
Mas o que é que se perde mesmo, ao tentar?
Se não tentar, nunca vai saber.
Quem está pronto para trazer o Silent Disco a Portugal e tirar o monopólio da noite das mãos de quem sempre decidiu quem entra e quem fica de fora?
Eu talvez possa ajudar.
