Quinta-feira, 10 de Setembro de 2026
Radar Açores

Radar Açores Setembro 2026: a música que continua depois do verão

Por Mafalda Matos 10 Set 2026

Em setembro, os grandes festivais deixam de dominar o calendário e começam a aparecer outras formas de ouvir os Açores. Entre música ao vivo, canção portuguesa e tradição popular, o arquipélago continua a construir a sua própria banda sonora.

Há uma tendência para medir a vitalidade musical dos Açores pela dimensão dos seus grandes acontecimentos de verão. É uma medida fácil, mas incompleta.

Quando setembro chega, os grandes cartazes começam a desaparecer e o calendário muda de escala. As salas ganham importância, as associações voltam a ocupar espaço, os músicos locais continuam a tocar e as tradições encontram novas ocasiões para se juntar.

É nesse momento que o Radar Açores se torna particularmente interessante.

Não porque setembro tenha necessariamente o maior número de concertos, mas porque permite observar aquilo que fica quando o verão deixa de concentrar toda a atenção.

Este mês, há três sinais particularmente claros: uma cena local que continua a criar noites de música na Terceira, uma tradição que atravessa três ilhas no Faial e uma sala de referência em São Miguel que coloca lado a lado memória da canção portuguesa e programação contemporânea.

Terceira: a música também se faz à escala local

A 11 de setembro, o Green Café, em Angra do Heroísmo, recebe o ICHTUS Open Air, iniciativa da Associação de Juventude do Porto Judeu, com Patrícia Duarte e banda, às 22h00, e DJ Fernando S., às 23h00. A entrada é livre.

O interesse deste evento não está apenas no cartaz.

Está no facto de uma associação juvenil assumir a criação de um momento musical fora do circuito dos grandes festivais. É uma escala diferente, mais próxima da comunidade e menos dependente da lógica dos grandes acontecimentos.

Esse tipo de programação é importante porque mantém os espaços ativos e cria oportunidades para artistas que precisam de palcos regulares, não apenas de grandes datas.

Um circuito musical não se constrói apenas com concertos capazes de atrair público de várias ilhas. Constrói-se também com noites de música para quem já está na ilha.

É uma diferença fundamental.

A vitalidade de uma cena mede-se também pela frequência com que os músicos conseguem voltar a palco.

Faial: quando três ilhas cabem na mesma roda

No Faial, setembro apresenta uma situação completamente diferente.

A 19 de setembro, o antigo Quartel dos Bombeiros da Horta recebe o IV Encontro de Chamarritas do Triângulo, organizado pelo Grupo de Chamarritas Amigos das Angústias.

O encontro reúne grupos de São Jorge, Pico e Faial. As atuações começam às 21h00 e a noite termina com um baile animado pela Turma do Rodeio, às 23h00.

Aqui, a música não aparece apenas como entretenimento. Funciona como ligação entre comunidades.

A chamarrita pertence a uma tradição profundamente enraizada nos Açores, mas a sua continuidade depende de pessoas concretas, grupos concretos e momentos em que essa tradição possa ser praticada e transmitida.

É isso que torna o encontro particularmente interessante.

Três ilhas do Triângulo encontram-se no mesmo espaço e colocam em circulação repertórios, formas de tocar, dançar e participar que continuam ligados à identidade local.

A tradição, neste caso, não está parada.

Está em movimento.

E essa diferença é essencial.

Uma manifestação cultural só permanece viva quando continua a encontrar pessoas dispostas a praticá-la.

São Miguel: entre a memória da canção e o presente

Em São Miguel, o Coliseu Micaelense oferece outra perspectiva sobre o mês.

A 13 de setembro, Fernando Tordo apresenta 60 Anos de Canções, num concerto marcado para as 17h00. A programação oficial do Coliseu confirma ainda o Summer Off, Radio On 2026, a 19 de setembro, às 22h00.

O concerto de Fernando Tordo acrescenta ao Radar uma dimensão diferente.

Não se trata de descobrir um novo nome. Trata-se de observar como um repertório construído ao longo de seis décadas continua a circular e a encontrar novos públicos.

O espetáculo revisita uma carreira que atravessou diferentes períodos da música portuguesa e que inclui algumas das canções mais reconhecidas do seu percurso. A celebração dos 60 anos de canções tem, por isso, uma dimensão de memória, mas também de continuidade.

E essa palavra, continuidade, talvez seja a mais importante para este mês.

Porque é precisamente isso que liga acontecimentos tão diferentes como um concerto de Fernando Tordo em Ponta Delgada, uma noite de música na Terceira e um encontro de chamarritas no Faial.

Não são eventos equivalentes.

Não têm a mesma escala, o mesmo público ou a mesma linguagem musical.

Mas todos respondem à mesma necessidade: manter a música em circulação.

Setembro revela aquilo que o verão esconde

Durante o verão, os Açores recebem festivais, grandes concertos e acontecimentos capazes de concentrar milhares de pessoas. É nesse período que o arquipélago ganha maior visibilidade enquanto território musical.

Setembro permite olhar para outra realidade.

A música regressa aos espaços mais próximos, às associações, às salas, aos encontros entre comunidades e aos artistas que continuam a trabalhar depois de os grandes palcos começarem a desaparecer.

É também por isso que o Radar Açores não deve ser entendido como uma simples lista de concertos.

O objetivo é identificar sinais.

E setembro apresenta um particularmente forte: a atividade musical açoriana não depende exclusivamente do verão para existir.

Na Terceira, uma associação juvenil cria um palco.

No Faial, três ilhas reencontram-se através da tradição.

Em São Miguel, uma sala histórica recebe um dos grandes nomes da canção portuguesa enquanto mantém uma programação própria para lá desse concerto.

São escalas diferentes.

Mas juntas contam uma história mais interessante do que qualquer calendário isolado.

A música açoriana continua quando o verão acaba. E talvez seja precisamente nessa altura que se percebe melhor quem a mantém viva.

SABIAS QUE?

O IV Encontro de Chamarritas do Triângulo reúne grupos de São Jorge, Pico e Faial no mesmo evento. A edição de 2026 realiza-se na Horta a 19 de setembro e termina com um baile da Turma do Rodeio.

FICHA DO RADAR

Edição: Setembro 2026
Ilhas em destaque: Terceira, Faial e São Miguel
Artistas e projetos: Patrícia Duarte, DJ Fernando S., Fernando Tordo, Turma do Rodeio e grupos de chamarritas do Triângulo
Ideias-chave: música ao vivo, circuito local, tradição, memória e continuidade
Datas em destaque: 11, 13 e 19 de setembro
Leitura do mês: a atividade musical açoriana mantém-se ativa para lá do pico do verão

VALE A PENA ACOMPANHAR

Mais do que procurar o maior nome do mês, vale a pena acompanhar os projetos que continuam a criar público e palco fora dos grandes acontecimentos.

É aí que muitas vezes começa a próxima história.

VÍDEO

Chamarrita do Faial | Tuna e Grupo Folclórico dos Flamengos

Um registo audiovisual da chamarrita ajuda a perceber a dimensão performativa e comunitária da tradição que estará em destaque no encontro do Triângulo.

Fernando Tordo | 60 Anos de Canções

A RTP Antena 1 disponibiliza uma conversa com Fernando Tordo sobre seis décadas de carreira e o espetáculo 60 Anos de Canções.

Mafalda Matos

Mafalda Matos é jornalista no Música Total, onde assina sobretudo peças sobre [novidades musicais / entrevistas / cultura regional]. Com [10 anos] ligada ao jornalismo cultural, tem acompanhado de perto [festivais, lançamentos nacionais, etc.] e é uma das vozes mais regulares do Radar Nacional e da secção de Entrevistas do site.

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