Segunda-feira, 2 de Novembro de 2026
Entrevista

RimaRussa: «Novo Começo» é mais do que uma canção, é parte da história da banda

Por Jorge Silva Medeiros 2 Nov 2026

Com raízes no Porto e uma identidade construída entre a introspeção e a vontade de continuar, os RimaRussa recuperam “Novo Começo”, um dos temas que marcou os primeiros passos do projeto. Em entrevista ao MusicaTotal.net, a banda fala sobre resistência, evolução musical, a ligação à cidade e os desafios de manter vivo um projeto independente.

Gravada pela primeira vez numa fase em que os RimaRussa ainda procuravam definir o seu som, “Novo Começo” regressa agora com uma nova dimensão, sem perder aquilo que lhe deu origem. A canção nasceu em 2022, numa versão rudimentar, registada na sala de ensaio, mas a banda sempre soube que havia ali algo que merecia ser trabalhado com mais tempo e cuidado.

O tema ganhou outro significado ao longo do percurso dos quatro músicos. Entre as dificuldades de conciliar a música com a vida profissional e familiar, as mudanças na formação e a incerteza que marcou o período de confinamento, a ideia de recomeçar deixou de ser apenas uma mensagem escrita numa letra. Passou a fazer parte da própria história dos RimaRussa.

O Porto também ocupa um lugar central neste percurso. Presente na identidade da banda e no videoclipe de “Novo Começo”, a cidade surge reinventada através de uma estética cyberpunk, revelando uma perspetiva diferente dos lugares que fazem parte do quotidiano dos músicos.

Nesta conversa com o MusicaTotal.net, os RimaRussa revisitam as origens da canção, refletem sobre a diferença entre o estúdio e o palco e levantam o véu sobre os próximos passos, incluindo a possibilidade de editar o primeiro EP. Uma entrevista sobre crescimento, identidade e a vontade de continuar a fazer música sem perder de vista as razões que deram origem ao projeto.

 

 

 

“Novo Começo” recupera uma das primeiras canções dos RimaRussa. O que vos fez voltar precisamente a este tema e perceber que ainda havia algo para dizer através dele?

“Novo Começo” é a canção que está na génese da atual formação deste projeto e que nos levou aos quatro a sermos RimaRussa.

Foi também a primeira publicação que fizemos do nosso som, em 2022. Era uma cena rudimentar, com áudio de ensaio e vídeo gravado na nossa sala de ensaio. A ansiedade de mostrar qualquer coisa era tal que deitámos esse aperitivo cá para fora, mas sempre com a ideia de o vir a apresentar como “prato principal”, melhor gravado, com mais arranjos, etc. Foi também um dos temas que elegemos para a gravação de áudio e vídeo ao vivo nos Estúdios Metamorfose, em 2025, na sequência do primeiro prémio no concurso de bandas da ASMUSITEC. Estas interpretações prévias de “Novo Começo” estão disponíveis no nosso canal de YouTube.

Quanto à sua mensagem, como se trata de uma música que fala de resistência e da capacidade de voltar a começar, talvez por isso tenha ganho um significado ainda maior para o projeto com o passar do tempo.

A canção começou por ser editada como lado B e agora passa a assumir o papel de single principal. O que mudou na música e na própria banda desde aquela primeira versão?

Mudou praticamente tudo à nossa volta, mas a essência da canção manteve-se. Na primeira versão, ainda estávamos a descobrir os RimaRussa, com o som por definir, a perceber que banda queríamos ser e qual seria a nossa linguagem. Hoje, temos uma identidade muito mais definida. Conhecemo-nos melhor enquanto músicos, sabemos melhor aquilo que queremos transmitir e, claro, que qualidade de som queremos para as nossas músicas.

No fundo, sempre soubemos que “Novo Começo” merecia ser polida e restaurada para que a pudéssemos oferecer ao nosso público, que a tem como uma das músicas do nosso repertório que mais lhe tocam.

Quando voltaram a gravar “Novo Começo”, quiseram preservar a essência da versão original ou sentiram necessidade de a reconstruir quase de raiz?

A estrutura e a essência da canção estão lá, porque não faria sentido retirar-lhe aquilo que a tornava “Novo Começo”. Mas houve uma evolução, sobretudo ao nível técnico, dos arranjos, das harmonias, da sonoridade e da forma como cada instrumento se relaciona com os restantes.

A intenção nunca foi fazer uma cópia melhorada da versão anterior. Queríamos que esta fosse a versão dos RimaRussa de agora.

A letra fala de queda, resistência e de não desistir. Hoje, depois do caminho que já percorreram, a frase “e não desisti” tem um significado diferente para vocês?

Os RimaRussa nasceram num contexto muito particular, durante o confinamento, sem sabermos exatamente até onde isto nos levaria. Houve momentos em que seria mais fácil parar. Conciliar vidas profissionais, família, música, ensaios, gravações e toda a logística de uma banda independente nem sempre é simples.

Muitos projetos acabaram nessa altura, bares e salas de espetáculo não aguentaram e encerraram definitivamente. Nós também passámos por essa indefinição e pela tentativa de perceber o que seria o futuro.

A letra, quando foi escrita pelo Sandro, marcou justamente esse recomeço, com um novo baixista, o Manel, e muita vontade de dar continuidade ao que andávamos a fazer até ali. Por isso, hoje, a passagem “mesmo que eu caia, que morra na praia, não serei cobaia e não desisti” deixou de ser apenas uma estrofe da música. É também um pouco da nossa história.

O videoclipe apresenta um Porto reconhecível, mas transformado por uma estética cyberpunk. De onde nasceu esta ideia e o que procuravam mostrar da cidade que talvez não seja evidente no quotidiano?

O Porto é uma presença muito forte nos RimaRussa, mesmo quando não falamos diretamente sobre ele. O seu carácter sobressai. É a cidade onde nascemos, onde crescemos, onde nos tornámos músicos e onde a banda foi ganhando forma.

No videoclipe, quisemos partir de uma cidade que faz parte do quotidiano de cada um de nós e fantasiá-la para servir de pano de fundo a este tema, que se podia também chamar, por exemplo, “Invicta”, na boa. Não há melhor pano de fundo para esta música!

As cores e a estética cyberpunk, idealizadas pelo Manel Marques, permitiram-nos lançar uma luz diferente sobre a cidade, uma espécie de Porto alternativo, como ainda não se tinha visto.

Existe uma relação forte entre os RimaRussa e o Porto. Se tivessem de escolher três lugares da cidade que representam a banda, quais seriam e porquê?

É difícil escolher apenas três, porque o Porto está espalhado por muitas das nossas memórias e vivências.

Mesmo que alguns destes lugares não apareçam no videoclipe, escolhemos a Baixa, porque representa o coração e a energia da cidade. A zona da Ribeira, que, apesar de hoje estar totalmente entregue ao turismo, vive da relação com o rio Douro e mistura beleza com a dureza autêntica que também reconhecemos na nossa música.

Escolhemos ainda a zona das Virtudes e Miragaia, bem como a Cooperativa Árvore, por uma razão muito pessoal do Sandro Galvão. Foi um dos espaços onde teve contacto com a educação artística desde criança. Essa dimensão artística, que, apesar de ser psicólogo, acabou por o acompanhar até hoje, está presente tanto na música como no seu trabalho enquanto autor musicoliterário.

De formas diferentes, os três lugares representam criação, identidade e memória, ainda que a nossa cidade, o Porto, vá muito além disso.

O vídeo junta fãs, músicos e amigos. O que significa para uma banda ainda em crescimento ver pessoas que acompanharam o percurso fazerem parte de um momento como este?

Significa muito. Uma banda pode escrever e gravar sozinha, mas deixa de ser apenas nossa quando começa a existir uma relação com quem nos ouve.

Algumas das pessoas que aparecem no vídeo estão connosco desde os primeiros passos. Outras foram aparecendo pelo caminho. São pessoas que foram aos concertos, partilharam músicas, deram opiniões, incentivaram e, muitas vezes, simplesmente estiveram lá.

Ter essas pessoas neste momento é uma forma de reconhecer que os RimaRussa não se fazem apenas dos quatro elementos da banda. Há uma pequena comunidade à nossa volta que também faz parte deste percurso.

Os RimaRussa nasceram durante o período de confinamento. De que forma esse contexto acabou por influenciar a vossa maneira de escrever, tocar e pensar uma banda de rock?

Provavelmente, mais do que inicialmente imaginávamos.

A banda nasceu num período em que estávamos fisicamente afastados de muita coisa e em que havia uma necessidade enorme de criar, comunicar e encontrar alguma normalidade. A música acabou por ser uma dessas formas de resistência.

Talvez por isso exista nos RimaRussa uma dimensão bastante introspectiva, para além da de intervenção. Muitas das nossas canções falam de relações, conflitos interiores, transformação, esperança, recomeço, entre outros temas.

O vosso percurso já passou por distinções em concursos nacionais e por vários concertos. Em palco, sentem que a identidade dos RimaRussa é diferente daquela que aparece nas gravações?

Sim. E achamos que isso é uma das coisas mais interessantes numa banda.

Em estúdio, conseguimos controlar cada detalhe, experimentar, repetir, desconstruir e reconstruir. Em palco, existe uma dimensão muito mais física, imprevisível e, por vezes, dada ao improviso. As músicas ganham outra energia.

Como RimaRussa, temos uma componente bastante emocional nas gravações, mas, em palco, essa emoção torna-se mais física. Há mais intensidade, mais interação e, naturalmente, mais risco. É também aí que percebemos se uma música realmente funciona, quando deixamos de ser quatro pessoas a tocar e passamos a sentir que existe uma ligação entre a banda e quem está do outro lado.

“Novo Começo” é o vosso quinto single e antecipa o primeiro EP. O que podem revelar sobre a identidade sonora e emocional desse trabalho?

Na verdade, encontramo-nos ainda nessa reflexão: estamos a ponderar se avançamos para uma compilação em EP, se passamos mais à frente para um LP ou se mantemos o registo de lançar tema a tema, single a single, com videoclipe.

Contudo, estamos inclinados a fechar o ciclo com aquilo que será o primeiro EP dos RimaRussa. Vamos ver…

A acontecer, será uma espécie de EP (Extended Play), com uma surpresa pelo meio, para além de reunir os cinco temas já publicados e acompanhados de vídeo: “Saliva”, “Fora de Ti”, “Endorfina”, “Novo Começo” e “Espiral”.

Apesar de serem músicas diferentes, existe uma linha emocional que as atravessa e que será, naturalmente, tida em conta na construção da compilação. Deixamos mais revelações para quando chegar o momento.

Se este single representa um novo ponto de partida, o que querem deixar definitivamente para trás e o que querem levar convosco para a próxima fase dos RimaRussa?

Queremos deixar para trás algumas inseguranças próprias de quem está constantemente a tentar perceber se está no caminho certo. Mas não queremos deixar para trás a inquietação. Essa, queremos levá-la connosco.

Queremos continuar a experimentar, a escrever em português, a fazer música com identidade e, sobretudo, a não perder a razão pela qual começámos: a necessidade de criar e partilhar.

Um novo começo não significa apagar o que ficou para trás. Significa levar connosco aquilo que aprendemos e ter coragem para continuar.

Daqui a um ano, quando olharem para “Novo Começo”, o que gostariam de sentir que esta canção mudou no percurso da banda?

Como em todos os projetos artísticos, sempre que se lança uma obra, resultado de muito investimento e trabalho árduo, deseja-se que seja reconhecida, que seja aceite e que vá ampliando a visibilidade do projeto ou do autor.

No caso deste lançamento, gostaríamos de sentir que ajudou a fomentar um ponto de viragem, um momento de rutura e crescimento. Não necessariamente porque nos tornou mais famosos ou porque trouxe mais concertos, ainda que, naturalmente, desejemos que o nosso trabalho chegue a mais gente, aos “Júlios Isidros” desta vida, e mereça assim mais atenção e promoção.

 

Gostaríamos, sobretudo, que nos tivesse permitido afirmar melhor quem são os RimaRussa e abrir caminho para uma nova e melhor etapa da banda.

LER: RimaRussa recuperam uma canção das origens

Jorge Silva Medeiros

Jorge Silva Medeiros é técnico de som na RTP e fundador do Música Total, um dos projetos editoriais dedicados à música com maior longevidade em Portugal, dentro da plataformas. Ligado ao setor da comunicação e da música há mais de duas décadas, criou também a Rádio Atlântida e tem desenvolvido um trabalho contínuo na divulgação da música portuguesa, dos artistas emergentes e dos grandes eventos culturais, assim como produção de eventos.

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