Terça-feira, 8 de Setembro de 2026
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Segundo Rosmaninho lança “O Pião”: uma canção sobre liberdade num tempo de desequilíbrio

Por Mafalda Matos 8 Set 2026

Uma imagem da memória popular transforma-se numa reflexão sobre resistência, identidade e a necessidade de continuar a recomeçar

Um pião só parece encontrar estabilidade enquanto continua em movimento. À medida que perde velocidade, começa a vacilar, desequilibra-se e acaba por cair. É nessa imagem aparentemente simples que Segundo Rosmaninho encontra o centro de “O Pião”, o novo single em que uma memória ligada ao imaginário popular se transforma numa reflexão sobre liberdade, resistência e a instabilidade do presente.

A escolha da metáfora não é inocente. O pião pertence a um universo de infância, de tradição e de repetição, mas a canção coloca-o perante inquietações muito atuais. O que acontece quando as referências coletivas começam a desaparecer? Como se preserva uma voz própria num tempo em que a liberdade de expressão continua a ser discutida, disputada e, por vezes, condicionada por novas formas de comunicação e controlo?

Em “O Pião”, a tradição não surge como refúgio nostálgico. Surge como uma forma de olhar para o presente.

“O equilíbrio pode ser temporário. A verdadeira questão começa quando caímos e decidimos se ainda vale a pena voltar a tentar.”

A liberdade não aparece como uma certeza

A palavra “Liberdade” assume um lugar central na canção, mas não funciona como uma resposta fácil. A sua repetição torna-a numa espécie de presença constante, atravessando memórias, imagens do passado e interrogações sobre aquilo que está a acontecer agora.

É precisamente aí que “O Pião” encontra a sua tensão mais interessante. A canção fala de liberdade, mas parte da consciência de que nenhuma liberdade permanece garantida apenas porque acreditamos nela. Tal como o pião, o equilíbrio exige movimento. E esse movimento implica esforço, adaptação e a possibilidade permanente de queda.

A metáfora ganha assim uma dimensão mais ampla. Não se trata apenas de resistir à adversidade, mas de perceber o que acontece depois do desequilíbrio. Há momentos em que continuar não significa avançar sem dificuldades; significa simplesmente encontrar força suficiente para voltar a tentar.

Essa ideia aproxima a canção de uma inquietação profundamente contemporânea. Vivemos num tempo de comunicação constante, mas isso não significa necessariamente que todas as vozes tenham o mesmo espaço. A multiplicação de plataformas trouxe novas possibilidades de expressão, mas também novas formas de exposição, pressão, condicionamento e silenciamento.

“O Pião” não tenta resolver essas contradições. Prefere transformá-las em matéria para uma canção.

 

 

Entre a memória popular e a inquietação do presente

Musicalmente, Segundo Rosmaninho continua a construir um território onde diferentes referências se encontram. As raízes folk e a ligação à música portuguesa cruzam-se com a energia do rock, criando uma sonoridade que acompanha o próprio conflito presente na canção.

Há memória, mas não há uma tentativa de reproduzir o passado.

Há tradição, mas não como peça de museu.

Em “O Pião”, esses elementos funcionam como matéria viva. A imagem popular é transportada para um contexto contemporâneo e ganha outro significado quando confrontada com questões como identidade, liberdade e transformação.

Esse encontro entre tempos diferentes parece ser uma das chaves para compreender o percurso artístico de Segundo Rosmaninho. Depois de três discos editados em inglês sob o nome Rosemary Baby, Bruno Rosmaninho iniciou um novo caminho em português, aproximando-se de uma linguagem onde a herança popular pode coexistir com preocupações muito atuais.

“O Pião” é o terceiro single dessa nova etapa, depois de “José”, lançado em 2025, e “Já Não Gostas de Mim”, editado em 2026.

Mais do que representar uma mudança de idioma, este percurso em português parece abrir espaço para uma relação diferente com as imagens, a memória e o território cultural que atravessam as canções.

O que acontece quando o equilíbrio se perde?

A força de “O Pião” está, talvez, na forma como recusa transformar a resistência numa ideia triunfalista.

Resistir não significa nunca cair.

Também não significa permanecer permanentemente em equilíbrio.

O movimento do pião só existe porque existe desequilíbrio. A sua estabilidade é temporária e depende da força que o mantém em movimento. Quando essa força desaparece, a queda torna-se inevitável.

É nessa fragilidade que a canção encontra espaço para a esperança.

Segundo Rosmaninho não apresenta a transformação como uma garantia, mas como uma possibilidade. A ideia de lançar uma semente e esperar que algo cresça atravessa essa visão de futuro: não há certezas, mas há a possibilidade de começar novamente.

Num momento em que tantas canções procuram respostas rápidas para inquietações complexas, “O Pião” parece mais interessado em permanecer dentro da pergunta. Como continuar quando aquilo que parecia estável começa a vacilar?

Talvez seja essa a razão pela qual a imagem do pião permanece depois da música terminar. Porque, mais cedo ou mais tarde, todos os equilíbrios se revelam temporários.

A diferença está em saber se, depois da queda, ainda existe alguém disposto a lançar o pião novamente.

“O Pião” já se encontra disponível nas principais plataformas digitais.

Sobre Segundo Rosmaninho

Bruno Rosmaninho é cantor, compositor e intérprete, natural do Alentejo e radicado em Aljezur, no Algarve. Depois de editar três discos em inglês sob o nome Rosemary Baby, iniciou um novo percurso artístico em português como Segundo Rosmaninho.

O seu trabalho cruza influências folk, rock e música tradicional portuguesa, procurando estabelecer pontes entre a herança popular e as inquietações do presente através de uma escrita de forte dimensão humana.

Mafalda Matos

Mafalda Matos é jornalista no Música Total, onde assina sobretudo peças sobre [novidades musicais / entrevistas / cultura regional]. Com [10 anos] ligada ao jornalismo cultural, tem acompanhado de perto [festivais, lançamentos nacionais, etc.] e é uma das vozes mais regulares do Radar Nacional e da secção de Entrevistas do site.

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