Quarta-feira, 30 de Setembro de 2026
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Superfuzzy leva o grunge dos anos 90 para um presente que ainda dói

Por Jorge Silva Medeiros 30 Set 2026

“Sem Direção” é o segundo single da banda paulista e fala de depressão, emoções e da dificuldade de lidar com aquilo que acontece por dentro.

As guitarras vêm dos anos 90, mas aquilo que a Superfuzzy quer dizer em “Sem Direção” pertence inteiramente ao presente. O segundo single da banda paulista, lançando esta quarta-feira, 30 de setembro, parte do grunge, do post-grunge e do rock alternativo para falar de depressão, emoções e da dificuldade de lidar com aquilo que nem sempre conseguimos explicar.

Não é propriamente uma banda a descobrir agora o som que quer fazer. Os quatro músicos já tocavam juntos noutros projectos há quase duas décadas. Quando decidiram formar a Superfuzzy, em 2025, estavam menos interessados em seguir uma tendência do que em voltar a fazer a música em que acreditam.

“Sem Direção” nasce desse princípio. É uma canção de guitarras fortes, ritmo directo e uma carga emocional que não procura disfarçar o assunto de que fala.

 

 

O rock que ficou depois dos anos 90

A Superfuzzy é formada por Betto Zanchi na guitarra e voz, Nando Antonietti na guitarra, Samir Natali no baixo e Gabê Almeida na bateria. Foo Fighters, Alice in Chains, Nirvana, Soundgarden e Pearl Jam fazem parte do universo de referências da banda.

Mas existe uma diferença importante entre citar influências e ter vivido uma época musical. Para estes músicos, o grunge não é apenas uma estética recuperada de uma década anterior. Foi música que acompanhou a sua formação.

“Nós tocamos grunge dos anos 90 porque nós vivemos isso”, explica Nando Antonietti.

É por isso que a banda assume uma sonoridade crua, pesada e directa. Não procura transformar o passado numa peça de museu. Quer tocar agora aquilo que continua a fazer sentido para os seus elementos.

Na própria descrição de Nando existe uma ideia de confronto: trazer “o rock como ele era e nunca deveria ter deixado de ser: direto, verdadeiro, cru e alto”.

Quase vinte anos depois, começa outra história

A história da Superfuzzy começou muito antes do nome existir. Os quatro músicos conhecem-se e trabalham juntos há quase vinte anos, experiência que acaba por estar presente na forma como a banda se apresenta.

“No ano passado resolvemos escrever um novo capítulo dessa história”, conta Nando. E esse capítulo chama-se Superfuzzy.

A expressão “novo capítulo” talvez seja a melhor maneira de entender o projecto. Não se trata simplesmente de reunir músicos com referências semelhantes. Existe uma relação anterior, uma linguagem construída ao longo dos anos e uma vontade de fazer uma banda sem grandes filtros.

Essa identidade também aparece nas letras. A Superfuzzy quer que as canções tenham peso instrumental, mas não sejam apenas veículos para riffs e refrões.

“Sem Direção” olha para aquilo que acontece por dentro

Betto Zanchi descreve “Sem Direção” como uma canção sobre saúde mental e depressão. A letra procura abordar a forma como a doença afecta as pessoas e a dificuldade de lidar com as próprias emoções.

É um assunto pesado, mas a banda não o coloca num ambiente musical delicado. Faz precisamente o contrário: leva-o para dentro de um rock intenso, com guitarras e bateria a dar corpo àquilo que a letra procura dizer.

Esse contraste é importante na identidade da Superfuzzy. A música não tenta suavizar o tema para o tornar mais confortável.

Antes deste single, a banda tinha apresentado “Só Você”, uma canção sobre violência contra a mulher. São temas diferentes, mas existe uma preocupação comum em colocar assuntos difíceis dentro de canções de rock.

Para Betto, essa combinação é parte daquilo que define o grupo: “Uma banda de rock energética com uma explosão de sentimentos, com riffs de guitarra e letras pensadas e bem elaboradas. Fazendo as pessoas pensarem.”

Uma banda que não quer correr atrás da moda

“Sem Direção” foi gravada no estúdio Toca do Lobo com produção de Paulo Anhaia, que já trabalhou com Charlie Brown Jr., CPM 22 e NX Zero.

O processo, segundo o baixista Samir Natali, foi marcado pela liberdade. “Foi ótimo, o Paulo nos deixou bastante confortáveis e trouxe ideias incríveis”, afirma.

O single chega acompanhado por um videoclipe realizado por Lucas Shtorache e Dani Buarque e é editado através da Alcateia STDK Records, selo criado pela própria banda em parceria com o empresário Júlio Stodiek.

A Superfuzzy está ainda no início do percurso, mas “Sem Direção” já deixa uma coisa clara. A banda não quer esconder as referências que a formaram, nem transformá-las numa fantasia nostálgica. O grunge faz parte da sua memória, mas também da sua maneira de entender o rock.

E talvez seja justamente aí que esteja a diferença: em vez de tentar parecer uma banda dos anos 90, a Superfuzzy prefere fazer hoje o rock que continua a reconhecer como seu.

Jorge Silva Medeiros

Jorge Silva Medeiros é técnico de som na RTP e fundador do Música Total, um dos projetos editoriais dedicados à música com maior longevidade em Portugal, dentro da plataformas. Ligado ao setor da comunicação e da música há mais de duas décadas, criou também a Rádio Atlântida e tem desenvolvido um trabalho contínuo na divulgação da música portuguesa, dos artistas emergentes e dos grandes eventos culturais, assim como produção de eventos.

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