Quinta-feira, 10 de Setembro de 2026
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Cassete Pirata perguntam quanto do nosso tempo estamos realmente a viver

Por Mafalda Matos 10 Set 2026

“Sou Gente Outra Vez” é o segundo avanço do quarto álbum dos Cassete Pirata e chega esta quinta-feira, 10 de setembro. A nova canção olha para a obsessão contemporânea de manter os dias permanentemente ocupados, enquanto o vídeo transforma memórias de verão enviadas pelos fãs numa extensão da própria música.

Há uma diferença entre ter o tempo ocupado e ter tempo vivido. É nessa tensão que os Cassete Pirata colocam “Sou Gente Outra Vez”, o novo single que sucede a “Abismo” na antecipação do quarto álbum da banda, com lançamento marcado para 30 de outubro.

A canção parte de uma rotina reconhecível. Tarefas, responsabilidades, profissões, papéis e obrigações acumulam-se ao longo dos dias. Entre “os andaimes do humor”, o artista e o professor, surgem diferentes versões de uma mesma pessoa, moldadas pelas funções que desempenha.

O resultado é uma vida aparentemente preenchida, mas onde permanece uma pergunta: estar sempre a fazer alguma coisa significa necessariamente estar a viver?

É aqui que “Sou Gente Outra Vez” encontra o seu centro. Em vez de valorizar o tempo pela quantidade de tarefas cumpridas, a canção desloca a atenção para aquilo que não cabe facilmente numa agenda. Os “corpos salgados”, os “beijos molhados”, os encontros e as memórias tornam-se sinais de um outro tipo de tempo, aquele que não precisa de produzir resultados para adquirir significado.

Pir, vocalista, guitarrista e compositor dos Cassete Pirata, identifica precisamente essa diferença.

“Há uma certa ideia de que um dia preenchido é necessariamente um dia bem passado, e esta canção nasce um pouco da vontade de contrariar isso.”

A frase funciona como uma chave para ouvir o single. A questão não está em trabalhar, criar ou cumprir responsabilidades, mas na transformação da produtividade numa medida quase absoluta do valor dos dias. Quando tudo precisa de ser aproveitado, também o descanso parece precisar de uma justificação.

Um verão guardado através dos fãs

 

 

 

 

O conceito do vídeo prolonga essa reflexão de uma forma particularmente coerente.

Para acompanhar o lançamento, os Cassete Pirata pediram aos fãs que partilhassem imagens do seu verão. Chegaram registos de amigos, mergulhos, paisagens, viagens e encontros, momentos distintos que passam agora a fazer parte de uma mesma peça audiovisual.

A escolha coloca o público dentro da narrativa do single. As imagens não são apenas uma coleção de recordações de verão. São pequenos fragmentos de tempo que ganharam valor precisamente porque aconteceram.

Há também uma inversão interessante neste processo. A música fala sobre a necessidade de recuperar uma relação mais concreta com o presente e o vídeo é construído a partir de momentos que já passaram. O presente transforma-se em memória e a memória passa a ser a prova de que aquele instante foi vivido.

É nesse sentido que ganha peso outra das frases destacadas por Pir: “o passado é o presente que se fez”.

Não se trata apenas de olhar para trás. Trata-se de perceber que as memórias que guardamos são consequência dos momentos a que demos espaço.

Dez anos, quatro álbuns e uma nova fase

“Sou Gente Outra Vez” surge num momento simbólico para os Cassete Pirata. A banda assinala dez anos de existência e prepara o lançamento do seu quarto longa duração, mantendo uma trajetória marcada pela combinação entre pop, rock e uma escrita atenta ao quotidiano.

Depois de “Abismo”, este segundo avanço começa a revelar um álbum interessado em questões próximas da experiência comum, mas sem procurar respostas demasiado fechadas. A produtividade, o tempo, os papéis que assumimos e a memória aparecem aqui como matéria para uma canção que encontra a sua força na contradição.

Quanto mais tentamos preencher os dias, maior pode ser a distância entre aquilo que fizemos e aquilo que realmente recordamos.

O novo álbum chega a 30 de outubro. Antes disso, os Cassete Pirata levam aos palcos o espetáculo CASSETE PIRATA | 10 ANOS, com estreia no Festival Rock & Dão, em Viseu, a 18 de setembro. Seguem-se o Lustre, em Braga, a 24 de outubro, o Teatro da Covilhã, a 14 de novembro, e o Capitólio, em Lisboa, a 28 de novembro.

“Sou Gente Outra Vez” deixa, entretanto, uma questão que ultrapassa o próprio lançamento: quando o dia termina, será que nos lembramos sobretudo do que conseguimos fazer ou daquilo que conseguimos viver?

 

LER: Cassete Pirata: “Vivemos uma sociedade em burnout

Mafalda Matos

Mafalda Matos é jornalista no Música Total, onde assina sobretudo peças sobre [novidades musicais / entrevistas / cultura regional]. Com [10 anos] ligada ao jornalismo cultural, tem acompanhado de perto [festivais, lançamentos nacionais, etc.] e é uma das vozes mais regulares do Radar Nacional e da secção de Entrevistas do site.

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