Segunda-feira, 13 de Julho de 2026
Entrevista

Cassete Pirata: “Vivemos uma sociedade em burnout e a música tem de falar disso”

Por Jorge Silva Medeiros 13 Jul 2026
FOTO:© Pedro João

 

 

Os Cassete Pirata chegam aos dez anos de percurso com um novo capítulo prestes a começar. “Abismo”, o primeiro avanço para o quarto álbum de estúdio, volta a colocar a banda no centro de uma reflexão sobre o tempo em que vivemos, sem abdicar da identidade que construiu ao longo de uma década de canções em português.

Nesta conversa com o Música Total, a banda faz um balanço dos primeiros dez anos, recorda os momentos que moldaram o seu caminho, explica a origem de “Abismo” e fala sobre a criação do novo disco, a importância da língua portuguesa, a amizade com João Hasselberg e a realidade da música em Portugal. Entre memórias, inquietações e críticas ao estado da cultura, fica a certeza de que os Cassete Pirata continuam mais interessados em fazer canções honestas do que em seguir fórmulas.

Uma entrevista onde se fala de criação, resistência e da vontade de continuar a encontrar, na imperfeição, o verdadeiro lugar da música.

 

 

Ao chegarem aos dez anos de existência, quais são os momentos que mais vos marcaram enquanto banda?

Por incrível que pareça (ou não), acho que os momentos mais marcantes foram os iniciais. Os primeiros anos, as primeiras digressões, tudo com muito poucas condições, ainda a tentar perceber se tínhamos aceitação. Às vezes, ter 10 pessoas a ver-nos ou encontrar alguém na plateia que, por acaso, soubesse trautear um refrão era uma vitória. Tudo era vivido no limite do sonho, tudo era novidade e as expectativas estavam sempre em alta perante tudo o que tínhamos para conquistar.

Depois, claro, houve momentos marcantes, como termos uma música nossa numa série que passou na RTP e, mais tarde, na Netflix internacional. As primeiras salas esgotadas em Lisboa, no Porto e em Coimbra. A participação no Bons Sons e no Paredes de Coura foi também muito marcante para a banda e, acho, também para os fãs dos Cassete Pirata, que vivem as nossas vitórias e sucessos como se fossem deles. É assim que deve ser.

Quando olham para os primeiros concertos dos Cassete Pirata, o que sentem que mudou na forma como encaram a música e a criação?

Diria que não mudou muito. Continuamos a basear-nos nas canções e em oferecer um concerto com o máximo de energia, partilha e honestidade. Somos uma banda que se quer apoiar, acima de tudo, no facto de ter bons músicos, que sabem tocar bem. Não queremos ir pelo lado da perfeição, de soar igualzinho aos discos, com backing tracks e outros truques.

Começámos assim e, numa era em que a IA conseguirá substituir facilmente essa “perfeição” humana, acho, honestamente, que o que tem piada e o que nos une é a nossa imperfeição. Queremos fazer a melhor música que conseguimos, em português, que é a nossa língua, e sobre como se sentem as coisas a partir daqui, deste sítio.

Gostamos de evitar alguma simplicidade e de não ceder ao desinvestimento na harmonia, na melodia e na letra, que muitas vezes encontramos na pop que mais vende. Mas também não queremos deixar de ambicionar fazer música que ponha uma sala inteira a cantar, um mar de desconhecidos a cantar a mesma canção que os une. Tentamos surfar essa linha entre fazer música com ingredientes de muita qualidade, mas que não fique apenas para ser consumida por uma elite informada.

“Abismo” aborda temas como a exaustão e a pressão constante. Em que momento perceberam que esta era uma canção que precisava de ser escrita?

O meu processo de composição funciona muito como um diário pessoal musical. Eu procuro as canções e os assuntos interiormente ou então eles aparecem-me.

A vida moderna está complexa. Está tudo a acontecer muito depressa: crises financeiras, pandemias, instabilidade profissional, família e filhos. Tudo isto vivido num momento de transição tecnológica que nos tirou a capacidade de ousar adivinhar o futuro.

Somos uma sociedade em burnout, numa corda bamba entre a depressão e a falsa euforia das redes sociais, onde somos todos uns patetas alegres e privilegiados, entre as nossas festas, as nossas férias e os nossos looks. Tudo é top… só que não.

Como foi o processo de construção sonora deste tema e o que vos levou até ao resultado final que ouvimos hoje?

Estamos numa procura, com o nosso produtor, António Vasconcelos Dias, de tentar evitar o que não é necessário. Ter apenas os instrumentos de que realmente precisamos.

Numa era em que a tecnologia permite ter 100 faixas de áudio com coisas a acontecer, estamos a tentar responder a uma pergunta: será que seis ou sete não são suficientes? Tem sido um exercício muito saboroso no processo de criação.

A canção em língua portuguesa continua a ser o centro da identidade dos Cassete Pirata. O que vos mantém ligados a essa escolha?

Fui crescendo e acreditando cada vez mais que cada pessoa deve fazer a música do seu lugar e das suas gentes, sem patriotismos inflacionados. Acho que o mundo ganha mais com essa proposta.

A mistura acontece sempre, a influência acontece sempre, anyway. Faço música em português, mas é provável que, em termos percentuais, as minhas influências mais conscientes venham mais de fora do que de dentro.

Estudei jazz com muita dedicação e tornei-me especialista nessa música que vem de outro continente. Sou apaixonadíssimo por música brasileira, mas não sinto que acrescentaria grande coisa se me dedicasse a produzir essa música. Seria como levar areia para a praia.

Nasci numa aldeia nos arredores de Coimbra, rodeado de bailes de música pimba e de saraus de fado de Coimbra. Olho para as gentes do meu país e sinto as coisas, sonho na minha língua, que é a do Pessoa e do Palma.

Não me faz sentido fazer música que não seja em língua portuguesa e que não fale das histórias de como aqui se vive e de como aqui se sentem as coisas nesta fase da nossa história coletiva.

O videoclipe realizado por João Hasselberg acrescenta novas camadas à música. Como nasceu essa colaboração e o que procuravam transmitir visualmente?

O Hasselberg é um dos meus melhores amigos, provavelmente aquele com quem mais história partilhei. Vivemos juntos, estudámos juntos, sonhámos juntos, emigrámos juntos e já produzimos muita música em conjunto.

Nos últimos anos, e porque ele é uma das pessoas mais talentosas que conheço, capaz de fazer coisas extraordinárias em qualquer área que explore, fez-me sentido convidá-lo para nos ajudar, desta vez, na perspetiva de fotógrafo e videógrafo, em modo de exploração low cost.

Falámos com o Luís Guerra, que é bailarino e uma pessoa extraordinária. Pegámos na simbologia imponente do betão, na dança, no cansaço e nas máscaras que usamos todos os dias para aguentar a pressão, para pertencer e para forçar a produtividade e a funcionalidade.

Depois de três álbuns e centenas de concertos, o que ainda vos surpreende no percurso da banda?

Surpreende-me que tanta música boa demore a chegar a um público mais alargado. E, para não parecer mal, tiro os Cassete Pirata da equação, para não soar a ressabiamento ou inveja.

Vivemos uma época com imensa música bem feita e há uma elite muito pequena que consegue viver disto, passar ad nauseam na rádio e ter 60 concertos marcados nas festas das autarquias.

A quantidade de músicos de qualidade no país passou das dezenas para as centenas, mas aquilo a que o grande público tem acesso continua a ser aqueles 15 ou 20 escolhidos, que sabem como o business funciona para ser assim. Mas também pouco ou nada expõem, porque perderiam o seu privilégio.

Pior ainda é que toda esta máquina é alimentada com dinheiros públicos. Fica a perder o país, o seu tecido cultural, que acaba por definhar, e o público português, que acha que só existe aquilo que lhe é posto no prato.

Infelizmente, já não me surpreende. Aceito e lamento.

O novo disco está previsto para o outono. Que diferenças podemos esperar em relação ao trabalho anterior?

Cada disco traz um bocadinho a vontade de fazer diferente, mas de mãos dadas com a vontade de não fazer um corte tão radical que adultere por completo aquilo que somos.

Este será mais um em que queremos explorar receitas e ingredientes novos, sem que isso nos afaste do que é ser “Cassete”. Prefiro que sejam, a seu tempo, as pessoas a ouvi-lo e a avaliarem aquilo que este quarto longa-duração trará.

Existem temas ou preocupações que atravessam este novo conjunto de canções de forma mais evidente?

Sim. A exaustão da vida moderna, assim como o impacto das redes sociais nas nossas vidas, nas democracias e na vida das nossas crianças, são temas mais ou menos constantes. Acho que todos os artistas estão, invariavelmente, a falar disto.

A celebração dos dez anos inclui uma série de concertos especiais. O que gostariam que o público sentisse ao assistir a estes espetáculos?

Gostaríamos que sentisse o costume: energia, pica, adrenalina e vontade de cantar alto, em coro, com uma sala cheia de gente.

Há receitas que são tão boas que não se mudam. Nós queremos apenas ser dignos representantes daquilo que é entregar um bom concerto, com boas canções, tocadas por bons músicos, e permitir que as pessoas desliguem um bocadinho da chatice da espuma dos dias, para se deixarem levar, rir, chorar, gritar, saltar e serem felizes como crianças durante uma hora e pouco.

Há alguma música do vosso repertório que hoje tenha um significado diferente daquele que tinha quando foi escrita?

Diria que não. Mas há claramente algumas canções que sentimos que hoje já pertencem mais ao público do que a nós. Têm mais significados e mais vida do que tinham quando nos saíram do regaço. E isso é lindo.

Quando imaginam os Cassete Pirata daqui a mais uma década, que objetivos ou sonhos gostariam de ver concretizados?

Não tenho grandes sonhos por realizar. O sonho será continuar a fazer o que fazemos, com felicidade e vontade.

O sonho será resistir. O sonho será não desistir de ser essa resistência que tenta acrescentar alguma coisa ao tecido cultural deste país. Tentar ser merecedor de estar num patamar que deixe quem gosta de nós orgulhoso pelo que fazemos.

Fazer isto já é o sonho. Mais dinheiro dava jeito, mas mais fama não. Se, na próxima década, conseguir fazer os mesmos quatro discos que fizemos nesta, será uma boa segunda década.

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Jorge Silva Medeiros

Jorge Silva Medeiros é técnico de som na RTP e fundador do Música Total, um dos projetos editoriais dedicados à música com maior longevidade em Portugal. Ligado ao setor da comunicação e da música há mais de duas décadas, criou também a Rádio Atlântida e tem desenvolvido um trabalho contínuo na divulgação da música portuguesa, dos artistas emergentes e dos grandes eventos culturais.