Diogo Clemente conheceu o fado antes de conhecer a produção. Cresceu entre guitarras, vozes e casas de fado, começou a cantar ainda criança e pegou na guitarra portuguesa durante a adolescência. Quando chegou ao trabalho de estúdio, já trazia consigo uma coisa que não se aprende apenas com equipamento: sabia como uma voz de fado respira, onde precisa de espaço e até onde um arranjo pode ir sem começar a esconder aquilo que deveria proteger.
É essa experiência que ajuda a explicar o seu percurso. Clemente tornou-se guitarrista, compositor, autor, arranjador e produtor, trabalhando com diferentes gerações da música portuguesa. Mariza, Carminho, Sara Correia, António Zambujo e Carolina Deslandes fazem parte de uma carreira que atravessa o fado, a canção pop e diferentes formas de produção contemporânea.
O seu trabalho não se resume a modernizar o fado. A questão é mais interessante. Como é possível abrir uma tradição a novas linguagens sem lhe retirar aquilo que a torna reconhecível?
Antes do estúdio, veio a casa de fado
Diogo Clemente nasceu em 1985, numa família ligada ao fado. O contacto com o género começou cedo. Aos seis anos já cantava em casas de fado e aos 13 começou a tocar guitarra. A entrada no Conservatório Nacional aconteceu aos 14 anos.
Aos 16 já participava profissionalmente em digressões e, pouco depois, começou a desenvolver também trabalho de composição e produção.
A sequência é importante.
Clemente não chegou ao fado como produtor interessado em descobrir uma nova tendência. Chegou ao estúdio depois de conhecer profundamente a linguagem que estava a trabalhar.
Isso muda a maneira de ouvir.
Um produtor que conhece o fado por dentro percebe que nem tudo precisa de ser preenchido. O silêncio pode ter função. A guitarra portuguesa pode responder à voz em vez de competir com ela. Uma mudança de dinâmica pode valer mais do que acrescentar uma nova camada.
É uma aprendizagem que dificilmente aparece numa ficha técnica.
Mas ouve-se.
O produtor que começa pela voz
No centro do trabalho de Diogo Clemente está uma relação muito próxima com os intérpretes.
No fado, essa relação é particularmente importante porque a voz não é apenas mais um elemento da produção. É o lugar onde a canção acontece.
Por isso, produzir um disco de fado não significa simplesmente escolher bons músicos e colocá-los numa sala.
É preciso perceber a pessoa que está a cantar.
Onde a voz tem força.
Onde fica mais frágil.
Que palavras precisam de silêncio à volta.
Que melodias pedem espaço.
Que arranjos podem ajudar e quais podem destruir uma interpretação.
Clemente trabalha precisamente nesse território.
A sua experiência como guitarrista também lhe permite compreender a relação entre o acompanhamento e o canto a partir de dentro. Não está apenas a decidir como a guitarra deve ser gravada. Está a pensar como ela deve conversar com a voz.
Essa diferença pode parecer pequena.
Num disco de fado, não é.
Sara Correia e uma parceria que foi crescendo
A colaboração com Sara Correia é talvez o melhor exemplo para perceber a evolução da sua produção.
A parceria começou com o álbum de estreia da fadista e continuou em Do Coração, de 2020, e Liberdade, de 2023.
Não são simplesmente três discos produzidos pela mesma pessoa.
Existe uma relação artística que foi crescendo.
No primeiro trabalho, a prioridade era apresentar uma nova voz e afirmar a sua identidade.
Depois, o repertório começou a abrir-se.
Em Do Coração, Sara Correia canta temas ligados ao universo tradicional do fado, mas também recebe canções de autores que vêm de outros lugares da música portuguesa. Joana Espadinha, Luísa Sobral, Carolina Deslandes e António Zambujo aparecem nesse processo.
Em Liberdade, essa abertura torna-se ainda mais evidente.
Pedro Abrunhosa, Tiago Bettencourt, Carminho, Joana Espadinha e outros autores entram no universo da fadista.
O fado não desaparece.
Mas a canção à sua volta muda.
E é precisamente aí que o trabalho de Clemente se torna interessante.
Liberdade: quando o repertório começa a abrir o género
Um produtor pode modernizar um disco através do som.
Também pode fazê-lo através das canções escolhidas.
Liberdade é um bom exemplo da segunda hipótese.
O álbum aproxima Sara Correia de autores que não pertencem necessariamente ao núcleo tradicional do fado. Essa escolha poderia resultar numa coleção de experiências desconexas.
Não resulta.
Existe uma identidade vocal que funciona como centro.
É Sara Correia que mantém as canções ligadas.
O trabalho de produção está em criar uma linguagem comum para materiais diferentes.
É aqui que a experiência de Clemente como compositor e arranjador ganha importância.
Ele não precisa de transformar cada canção num fado tradicional.
Também não precisa de eliminar os elementos fadistas para parecer contemporâneo.
Procura o ponto intermédio.
Esse ponto pode estar na harmonia.
Pode estar na instrumentação.
Pode estar na forma como a voz é gravada.
Pode estar simplesmente na maneira como a canção respira.
Mariza e Carminho mostram duas outras faces
A carreira de Diogo Clemente também passa por duas figuras essenciais do fado contemporâneo: Mariza e Carminho.
Com Mariza, esteve ligado a Fado Tradicional, um álbum que recuperou repertório ligado à tradição fadista e que recebeu reconhecimento internacional.
Com Carminho, a relação foi mais ampla, envolvendo diferentes funções musicais e técnicas.
Estes dois casos são importantes porque mostram que Clemente não trabalha apenas com artistas de uma determinada geração.
Também não existe uma receita única.
Um disco de Mariza exige uma abordagem diferente de um álbum de Sara Correia.
Uma voz com uma carreira internacional tem necessidades diferentes de uma artista em afirmação.
O produtor precisa de saber adaptar-se.
Essa capacidade talvez seja mais importante do que ter uma assinatura sonora imediatamente identificável.
O produtor também é compositor
Existe uma característica do percurso de Diogo Clemente que merece mais atenção: ele próprio escreve.
A produção não acontece, portanto, apenas depois da composição.
As duas coisas podem acontecer em simultâneo.
Quando o produtor também compõe, consegue entrar na estrutura da canção de uma forma diferente.
Pode perceber que determinado verso precisa de mais espaço.
Pode sugerir uma alteração melódica.
Pode mudar a harmonia.
Pode perceber que uma música funciona melhor com menos elementos.
Pode ainda ajudar um artista a descobrir uma canção que estava escondida numa primeira versão.
É uma função difícil de medir.
Não aparece necessariamente nos créditos com a importância que tem no resultado final.
Mas pode determinar a identidade de um álbum.
O som não precisa de parecer moderno para ser actual
É aqui que Diogo Clemente se distingue de uma ideia mais superficial de modernização.
Modernizar não significa necessariamente acrescentar sintetizadores.
Nem colocar batidas electrónicas.
Nem tentar fazer um disco de fado soar como pop internacional.
A modernidade pode estar na própria escrita.
Pode estar na produção.
Pode estar na escolha dos músicos.
Pode estar no espaço deixado à voz.
Pode estar na forma como um género tradicional é colocado em contacto com compositores que cresceram a ouvir outras músicas.
Essa é uma abordagem mais inteligente.
Porque não tenta esconder a origem da música.
Parte dela.
O fado como matéria viva
Existe sempre um risco quando falamos de tradição.
Podemos tratá-la como uma coisa que precisa de ser protegida.
Ou podemos tratá-la como uma coisa que precisa de ser constantemente reinventada.
As duas posições são insuficientes.
Uma tradição musical sobrevive porque continua a ser praticada, interpretada e transformada.
O fado não deixou de ser fado porque ganhou novas gerações de compositores.
Não deixou de ser fado porque entrou em grandes palcos internacionais.
E não deixa de ser fado porque uma canção é escrita por alguém vindo da pop.
A questão está na interpretação.
Está na identidade.
Está na forma como os elementos são organizados.
É nesse espaço que Clemente trabalha.
Do disco para uma visão mais ampla
O percurso de Diogo Clemente também ultrapassou a produção de álbuns.
A criação da Tejo Music Lab levou-o para uma área mais ampla de produção e desenvolvimento de projetos musicais.
Essa passagem é importante.
Um produtor pode trabalhar uma música.
Também pode ajudar a construir uma carreira.
Pode aproximar artistas.
Criar concertos.
Pensar repertórios.
Desenvolver conceitos.
Criar condições para que diferentes músicos trabalhem juntos.
A produção deixa de ser apenas uma função de estúdio e passa a ser uma forma de direção artística.
É uma evolução natural para alguém que sempre trabalhou entre várias áreas.
O que Diogo Clemente mudou
Não foi Diogo Clemente que inventou a abertura do fado.
Muito antes dele já existiam músicos e produtores a procurar novas formas de trabalhar o género.
Também seria errado dizer que todos os discos contemporâneos de fado passam pela mesma ideia.
O contributo de Clemente é mais específico.
Ele ajudou a normalizar a convivência entre o fado e outras formas de composição portuguesa.
Ajudou a criar discos onde a guitarra portuguesa continua presente sem precisar de dominar tudo.
Ajudou intérpretes de diferentes gerações a trabalhar com autores vindos de outros universos.
E ajudou a mostrar que uma produção contemporânea não precisa de apagar a identidade tradicional.
Isso é uma mudança.
Não uma revolução ruidosa.
Uma mudança que acontece disco após disco.
Uma tradição que continua a andar
Talvez seja esse o melhor lugar para colocar Diogo Clemente na história da produção portuguesa.
Não como alguém que chegou para salvar o fado.
Nem como alguém que o transformou numa coisa completamente diferente.
Mas como um produtor que percebeu que uma tradição só continua viva quando consegue receber novas ideias.
A guitarra permanece.
A voz permanece.
A palavra permanece.
O que muda é aquilo que pode acontecer à volta delas.
E esse espaço, entre a memória e a possibilidade, é precisamente onde Diogo Clemente tem construído uma parte importante da música portuguesa contemporânea.
Trabalhos essenciais
Mariza, Fado Tradicional
Um dos trabalhos que melhor representa a sua relação com a tradição e com a dimensão internacional do fado.
Carminho, Alma
Um disco importante para perceber a multiplicidade das funções de Clemente como produtor, compositor, guitarrista e técnico.
Sara Correia, Sara Correia
O primeiro capítulo de uma parceria que se prolongaria por vários anos.
Sara Correia, Do Coração
O momento em que a colaboração começa a abrir de forma mais evidente o repertório da fadista.
Sara Correia, Liberdade
Um dos exemplos mais claros da sua abordagem à convivência entre fado e composição contemporânea.
