Em 1785, Jerónimo Francisco de Lima levou “La Vera Costanza” ao palco em Salvaterra. Em Outubro, 241 anos depois, a obra volta a ouvir-se no Casino Estoril, depois de um trabalho de investigação e reconstrução musical.
Em 1785, uma ópera de Jerónimo Francisco de Lima subiu ao palco em Salvaterra. Em Outubro de 2026, 241 anos depois, La Vera Costanza volta a ser apresentada perante um público. A estreia moderna está marcada para 3 de Outubro, às 18h00, no Salão Preto e Prata do Casino Estoril.
A recuperação é assinada pelo Laboratório de Ópera Portuguesa (LOP) e parte de um trabalho de investigação dedicado à obra. A pesquisa de Diogo Gaio Chaves, desenvolvida no âmbito da NOVA FCSH, permitiu trabalhar as fontes musicais e teatrais de La Vera Costanza, preparando a obra para uma nova apresentação.
O regresso não acontece apenas como exercício de memória. A intenção é voltar a colocar em palco uma obra portuguesa do século XVIII, com músicos, cantores, encenação e uma nova leitura para o público actual.
Uma ópera portuguesa que ficou em silêncio
La Vera Costanza é um dramma giocoso com música de Jerónimo Francisco de Lima, compositor português que trabalhou durante o reinado de D. Maria I e esteve ligado aos músicos da Patriarcal e da Capela Real.
A primeira apresentação aconteceu em 1785, no Teatro de Salvaterra, numa versão em três actos. Quatro anos depois, a obra voltou a ser apresentada no Teatro da Ajuda, desta vez em dois actos. É essa segunda versão que está na base da apresentação agora preparada.
O libreto é anónimo, embora algumas fontes o atribuam a Francesco Puttini. A história já tinha circulado por diferentes compositores europeus antes de chegar à versão de Jerónimo Francisco de Lima. Pasquale Anfossi e Joseph Haydn também compuseram música para este enredo, respectivamente em 1776 e 1779.
O caso português ganha por isso uma dimensão particular. Não se trata de uma obra criada isoladamente, mas de uma resposta portuguesa a um universo operático que circulava pela Europa do século XVIII.
“241 anos depois, a música deixa de ser apenas património e volta a ser presença.”
A recuperação permite ainda olhar para um período da história musical portuguesa em que a ópera ocupava um lugar importante na vida cultural da corte. As fontes estudadas por Diogo Gaio Chaves incluem não apenas libretti e partituras, mas também documentação relacionada com despesas e recursos humanos das produções originais.
Rosina, Errico e um casamento que corre mal
A história de La Vera Costanza começa com Rosina, uma jovem pescadora que casa secretamente com o Conde Errico. O casamento não dura como seria esperado e Rosina acaba abandonada, ficando sozinha perante a maternidade.
A situação complica-se quando a Baronesa Irene, tia de Errico, tenta impedir qualquer aproximação entre os dois. Para isso, procura encaminhar Rosina para um casamento com Vilotto, um camponês rico e ingénuo.
Os equívocos acumulam-se e o reencontro entre Rosina e Errico volta a colocar todas as personagens em movimento. A intriga mistura relações familiares, diferenças sociais, interesses amorosos e situações cómicas.
A história pode ter nascido no século XVIII, mas os seus conflitos continuam fáceis de reconhecer. Um casamento secreto, uma separação, uma família a tentar decidir pelo casal e uma segunda oportunidade são matéria suficientemente próxima do presente para dispensar grandes explicações.
A investigação de Chaves identifica precisamente no enredo essa construção de personagens e arquétipos sociais, colocando em confronto uma classe nobre marcada pelos seus vícios e um povo apresentado como honrado.
Uma nova produção para uma obra antiga
Devolver La Vera Costanza ao palco implica resolver questões que não existiam quando a obra foi originalmente apresentada. A partitura precisa de uma edição que permita a execução actual e a encenação tem de encontrar uma forma de dialogar com uma obra criada para outro contexto teatral.
A edição moderna da partitura está a cargo de João Paulo Santos. A direcção musical é de João Tiago Santos, a encenação de Jorge Balça e a direcção de arte de Nuno Esteves “Blue”.
A produção conta com a Orquestra Melleo Harmonia e um elenco formado por Sofia Marafona, como Rosina, Susana Gaspar, como Baronessa, Inês Constantino, como Conte, Joana Seara, como Lisetta, Leonel Pinheiro, como Ernesto, Christian Luján, como Masino, e José Corvelo, como Vilotto.
O trabalho académico que antecedeu esta produção abordou também questões muito concretas da apresentação moderna da obra, incluindo os papéis originalmente destinados a castrati, a afinação, os instrumentos de época e as opções de encenação.
A investigação deixa assim de ser apenas um exercício de arquivo. Serve para tornar possível uma nova experiência de palco.
O património continua depois da ópera
A apresentação no Casino Estoril integra um projecto mais amplo de valorização do património cultural português. A iniciativa cruza a recuperação da obra com investigação, programação cultural e actividades dirigidas à comunidade.
O projecto integra as comemorações dos 30 anos da Fundação D. Luís I e prevê ainda dois ciclos de conferências no Centro Cultural de Cascais. O primeiro, O Rei D. Luís I e as Artes, acontece a 21 e 22 de Outubro e dedica-se ao papel do monarca na promoção da cultura e das artes.
A 16 e 17 de Novembro, o ciclo Mar, um desígnio de futuro assinala o Dia Nacional do Mar através de uma reflexão sobre o oceano enquanto património natural, cultural, científico e económico.
O LOP desenvolve também um programa educativo e sénior em parceria com instituições de Cascais e com a Casa Pia de Lisboa. O trabalho envolve jovens e seniores em actividades relacionadas com memória colectiva e território, culminando na apresentação pública dos trabalhos e na participação no ensaio geral da ópera.
É uma forma interessante de devolver uma obra antiga ao presente. Primeiro recupera-se a música, depois criam-se condições para que ela volte a ser escutada, discutida e partilhada.
Em Outubro, La Vera Costanza deixa finalmente de ser apenas uma obra recuperada nas fontes históricas. Volta a ter cantores, músicos, personagens e público.
Serviço
La Vera Costanza, de Jerónimo Francisco de Lima
Data: 3 de Outubro de 2026
Hora: 18h00
Local: Salão Preto e Prata, Casino Estoril
Língua: Italiano, com legendagem em português
Duração: 120 minutos, com intervalo
Classificação: M/12
Bilhetes: 25€ a 35€
Venda: Ticketline, bilheteira do Casino Estoril e Cascais Visitor Center
Produção: Laboratório de Ópera Portuguesa
Edição da partitura: João Paulo Santos
Direcção musical: João Tiago Santos
Encenação: Jorge Balça
Direcção de arte: Nuno Esteves “Blue”
Orquestra: Melleo Harmonia
