Terça-feira, 11 de Agosto de 2026
Radar Nacional

“La Vera Costanza”: ópera portuguesa regressa ao palco 241 anos depois

Por Mafalda Matos 11 Ago 2026

Em 1785, Jerónimo Francisco de Lima levou “La Vera Costanza” ao palco em Salvaterra. Em Outubro, 241 anos depois, a obra volta a ouvir-se no Casino Estoril, depois de um trabalho de investigação e reconstrução musical.

 

 

Em 1785, uma ópera de Jerónimo Francisco de Lima subiu ao palco em Salvaterra. Em Outubro de 2026, 241 anos depois, La Vera Costanza volta a ser apresentada perante um público. A estreia moderna está marcada para 3 de Outubro, às 18h00, no Salão Preto e Prata do Casino Estoril.

A recuperação é assinada pelo Laboratório de Ópera Portuguesa (LOP) e parte de um trabalho de investigação dedicado à obra. A pesquisa de Diogo Gaio Chaves, desenvolvida no âmbito da NOVA FCSH, permitiu trabalhar as fontes musicais e teatrais de La Vera Costanza, preparando a obra para uma nova apresentação.

O regresso não acontece apenas como exercício de memória. A intenção é voltar a colocar em palco uma obra portuguesa do século XVIII, com músicos, cantores, encenação e uma nova leitura para o público actual.

Uma ópera portuguesa que ficou em silêncio

La Vera Costanza é um dramma giocoso com música de Jerónimo Francisco de Lima, compositor português que trabalhou durante o reinado de D. Maria I e esteve ligado aos músicos da Patriarcal e da Capela Real.

A primeira apresentação aconteceu em 1785, no Teatro de Salvaterra, numa versão em três actos. Quatro anos depois, a obra voltou a ser apresentada no Teatro da Ajuda, desta vez em dois actos. É essa segunda versão que está na base da apresentação agora preparada.

O libreto é anónimo, embora algumas fontes o atribuam a Francesco Puttini. A história já tinha circulado por diferentes compositores europeus antes de chegar à versão de Jerónimo Francisco de Lima. Pasquale Anfossi e Joseph Haydn também compuseram música para este enredo, respectivamente em 1776 e 1779.

O caso português ganha por isso uma dimensão particular. Não se trata de uma obra criada isoladamente, mas de uma resposta portuguesa a um universo operático que circulava pela Europa do século XVIII.

“241 anos depois, a música deixa de ser apenas património e volta a ser presença.”

A recuperação permite ainda olhar para um período da história musical portuguesa em que a ópera ocupava um lugar importante na vida cultural da corte. As fontes estudadas por Diogo Gaio Chaves incluem não apenas libretti e partituras, mas também documentação relacionada com despesas e recursos humanos das produções originais.

Rosina, Errico e um casamento que corre mal

A história de La Vera Costanza começa com Rosina, uma jovem pescadora que casa secretamente com o Conde Errico. O casamento não dura como seria esperado e Rosina acaba abandonada, ficando sozinha perante a maternidade.

A situação complica-se quando a Baronesa Irene, tia de Errico, tenta impedir qualquer aproximação entre os dois. Para isso, procura encaminhar Rosina para um casamento com Vilotto, um camponês rico e ingénuo.

Os equívocos acumulam-se e o reencontro entre Rosina e Errico volta a colocar todas as personagens em movimento. A intriga mistura relações familiares, diferenças sociais, interesses amorosos e situações cómicas.

A história pode ter nascido no século XVIII, mas os seus conflitos continuam fáceis de reconhecer. Um casamento secreto, uma separação, uma família a tentar decidir pelo casal e uma segunda oportunidade são matéria suficientemente próxima do presente para dispensar grandes explicações.

A investigação de Chaves identifica precisamente no enredo essa construção de personagens e arquétipos sociais, colocando em confronto uma classe nobre marcada pelos seus vícios e um povo apresentado como honrado.

Uma nova produção para uma obra antiga

Devolver La Vera Costanza ao palco implica resolver questões que não existiam quando a obra foi originalmente apresentada. A partitura precisa de uma edição que permita a execução actual e a encenação tem de encontrar uma forma de dialogar com uma obra criada para outro contexto teatral.

A edição moderna da partitura está a cargo de João Paulo Santos. A direcção musical é de João Tiago Santos, a encenação de Jorge Balça e a direcção de arte de Nuno Esteves “Blue”.

A produção conta com a Orquestra Melleo Harmonia e um elenco formado por Sofia Marafona, como Rosina, Susana Gaspar, como Baronessa, Inês Constantino, como Conte, Joana Seara, como Lisetta, Leonel Pinheiro, como Ernesto, Christian Luján, como Masino, e José Corvelo, como Vilotto.

O trabalho académico que antecedeu esta produção abordou também questões muito concretas da apresentação moderna da obra, incluindo os papéis originalmente destinados a castrati, a afinação, os instrumentos de época e as opções de encenação.

A investigação deixa assim de ser apenas um exercício de arquivo. Serve para tornar possível uma nova experiência de palco.

O património continua depois da ópera

A apresentação no Casino Estoril integra um projecto mais amplo de valorização do património cultural português. A iniciativa cruza a recuperação da obra com investigação, programação cultural e actividades dirigidas à comunidade.

O projecto integra as comemorações dos 30 anos da Fundação D. Luís I e prevê ainda dois ciclos de conferências no Centro Cultural de Cascais. O primeiro, O Rei D. Luís I e as Artes, acontece a 21 e 22 de Outubro e dedica-se ao papel do monarca na promoção da cultura e das artes.

A 16 e 17 de Novembro, o ciclo Mar, um desígnio de futuro assinala o Dia Nacional do Mar através de uma reflexão sobre o oceano enquanto património natural, cultural, científico e económico.

O LOP desenvolve também um programa educativo e sénior em parceria com instituições de Cascais e com a Casa Pia de Lisboa. O trabalho envolve jovens e seniores em actividades relacionadas com memória colectiva e território, culminando na apresentação pública dos trabalhos e na participação no ensaio geral da ópera.

É uma forma interessante de devolver uma obra antiga ao presente. Primeiro recupera-se a música, depois criam-se condições para que ela volte a ser escutada, discutida e partilhada.

Em Outubro, La Vera Costanza deixa finalmente de ser apenas uma obra recuperada nas fontes históricas. Volta a ter cantores, músicos, personagens e público.

Serviço

La Vera Costanza, de Jerónimo Francisco de Lima
Data: 3 de Outubro de 2026
Hora: 18h00
Local: Salão Preto e Prata, Casino Estoril
Língua: Italiano, com legendagem em português
Duração: 120 minutos, com intervalo
Classificação: M/12
Bilhetes: 25€ a 35€
Venda: Ticketline, bilheteira do Casino Estoril e Cascais Visitor Center

Produção: Laboratório de Ópera Portuguesa
Edição da partitura: João Paulo Santos
Direcção musical: João Tiago Santos
Encenação: Jorge Balça
Direcção de arte: Nuno Esteves “Blue”
Orquestra: Melleo Harmonia

Mafalda Matos

Mafalda Matos é jornalista no Música Total, onde assina sobretudo peças sobre [novidades musicais / entrevistas / cultura regional]. Com [10 anos] ligada ao jornalismo cultural, tem acompanhado de perto [festivais, lançamentos nacionais, etc.] e é uma das vozes mais regulares do Radar Nacional e da secção de Entrevistas do site.

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