Sexta-feira, 24 de Julho de 2026
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Mojave 3: a história da banda que nasceu dos Slowdive e regressa com cinco álbuns remasterizados

Por Mafalda Matos 24 Jul 2026

Cinco álbuns marcantes voltam a ganhar vida com novas edições remasterizadas. O regresso do catálogo dos Mojave 3 convida a revisitar uma das bandas mais discretas, mas também mais influentes da música alternativa das últimas três décadas.

 

Nem todas as bandas nascem de um sonho. Algumas surgem da necessidade de recomeçar. Foi exatamente isso que aconteceu com os Mojave 3, projeto criado quando os Slowdive pareciam ter chegado ao fim. O grupo que ajudou a definir o shoegaze no início dos anos 90 viu-se desfeito em pleno processo de lançamento de Pygmalion, mas desse momento de incerteza nasceu uma nova identidade artística que trocou as paredes de guitarras pelo silêncio, pelas harmonias vocais e pela intimidade das canções acústicas.

Agora, mais de vinte anos depois, os cinco álbuns de estúdio dos Mojave 3 regressam às lojas em versões totalmente remasterizadas nos lendários Abbey Road Studios, permitindo que uma nova geração descubra um catálogo que nunca perdeu relevância.

Das ruínas dos Slowdive nasceu uma nova linguagem musical

Em 1995, os Slowdive atravessavam um dos períodos mais difíceis da sua história. O baterista já tinha abandonado a banda e pouco depois também o guitarrista e o baixista decidiram seguir outros caminhos. Restavam apenas Neil Halstead, principal compositor do grupo, Rachel Goswell e o baterista Ian McCutcheon.

O lançamento de Pygmalion acabou por marcar também o fim da relação com a editora Creation Records, que dispensou a banda poucos dias depois da chegada do álbum ao mercado.

Neil Halstead sentia que precisava de mudar completamente a forma como escrevia música. Depois de anos a construir canções através de camadas de efeitos, loops e ambientes sonoros, decidiu regressar ao essencial: uma guitarra acústica e uma melodia.

Essa mudança revelou-se decisiva.

Durante uma longa viagem por Israel, Jordânia e Egito, Halstead passou horas a tocar guitarra em hostels e pequenos encontros improvisados. Longe dos pedais de efeitos e das grandes produções, começou a redescobrir o prazer de escrever canções simples, inspiradas pelos grandes cantautores das décadas de 1960 e 1970.

Foi aí que nasceu a verdadeira essência dos Mojave 3.

O primeiro álbum abriu uma nova etapa

Antes da viagem, Neil reuniu Rachel Goswell, Ian McCutcheon e o pianista Christopher Andrews para gravar algumas demos acústicas.

As gravações chamaram a atenção de Ivo Watts-Russell, fundador da editora 4AD, graças à iniciativa de Rachel Goswell, que decidiu enviar-lhe a cassete sem sequer avisar Neil.

A resposta foi imediata.

A 4AD propôs um contrato para cinco discos e o grupo entrou novamente em estúdio para completar aquele que seria o álbum de estreia.

Lançado em outubro de 1995, Ask Me Tomorrow manteve praticamente intacta a simplicidade das gravações originais. Embora conservasse parte da melancolia dos Slowdive, apresentava uma abordagem completamente diferente, inspirada em nomes como Nick Drake, Leonard Cohen, Townes Van Zandt, Fairport Convention, Mazzy Star e Cowboy Junkies.

Canções como “Love Songs on the Radio”, “Sarah” ou “Tomorrow’s Taken” mostravam uma banda mais próxima do folk e do country alternativo do que do shoegaze que a tinha tornado conhecida.

Cinco discos, cinco fases diferentes

Ao contrário de muitos projetos paralelos, os Mojave 3 nunca ficaram presos a uma única fórmula.

Em Out of Tune (1998), a banda expandiu a formação com Simon Rowe e Alan Forrester, mudou-se para uma quinta na Cornualha e construiu um pequeno estúdio onde preparou novas composições. O resultado foi um disco mais luminoso, influenciado por Neil Young, Bob Dylan e Gram Parsons, com uma produção mais rica e sofisticada.

Dois anos depois chegou Excuses For Travellers, considerado por muitos admiradores o ponto de equilíbrio perfeito da discografia da banda. Sem perder a intimidade do primeiro álbum nem a ambição sonora do segundo, apresentou um conjunto de canções maduras, onde a escrita de Neil Halstead atingiu um novo nível de profundidade.

Em Spoon and Rafter (2003), os Mojave 3 voltaram a surpreender. A banda introduziu eletrónica subtil, melodicas, glockenspiels e arranjos mais elaborados, aproximando-se da pop clássica dos The Beach Boys sem abandonar completamente as raízes folk.

O derradeiro capítulo surgiu em Puzzles Like You (2006). Com melodias mais diretas e guitarras inspiradas nos The Byrds, o grupo aproximou-se do indie rock da época, mostrando que continuava disposto a reinventar-se.

Um adeus silencioso e um legado redescoberto

Depois da gravação de Puzzles Like You, Rachel Goswell enfrentou problemas de saúde que a impediram de continuar a gravar e a atuar regularmente. Ao mesmo tempo, Neil Halstead investia cada vez mais na carreira a solo.

O contrato com a 4AD chegou ao fim e, apesar do enorme respeito da crítica especializada, os Mojave 3 nunca alcançaram vendas suficientes para garantir estabilidade financeira.

Sem anúncios dramáticos nem grandes despedidas, a banda desapareceu naturalmente.

Enquanto isso, os Slowdive começaram a ser redescobertos por uma nova geração de ouvintes. O renascimento do shoegaze acabou por devolver enorme visibilidade ao trabalho de Neil Halstead e Rachel Goswell, levando também muitos fãs a descobrir os Mojave 3.

Nos últimos anos, os seus discos tornaram-se algumas das reedições mais pedidas pelos seguidores da editora 4AD.

Um regresso que faz justiça ao seu lugar na história

As novas edições remasterizadas de Ask Me Tomorrow, Out of Tune, Excuses For Travellers, Spoon and Rafter e Puzzles Like You representam muito mais do que uma simples reposição de catálogo.

São o reconhecimento de uma banda que nunca procurou seguir tendências, preferindo construir um percurso próprio entre o folk, o country alternativo, a dream pop e a música de autor.

Os Mojave 3 talvez nunca tenham conhecido o sucesso comercial dos seus contemporâneos, mas deixaram um conjunto de álbuns que envelheceu com uma elegância rara. O tempo acabou por lhes dar razão. Aquilo que começou como um recomeço depois do fim dos Slowdive transformou-se numa das discografias mais consistentes e influentes da música alternativa britânica.

Hoje, com os cinco álbuns novamente disponíveis, a viagem pelo deserto dos Mojave 3 está pronta para começar outra vez.

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Mafalda Matos

Mafalda Matos é jornalista no Música Total, onde assina sobretudo peças sobre [novidades musicais / entrevistas / cultura regional]. Com [10 anos] ligada ao jornalismo cultural, tem acompanhado de perto [festivais, lançamentos nacionais, etc.] e é uma das vozes mais regulares do Radar Nacional e da secção de Entrevistas do site.