Segunda-feira, 10 de Agosto de 2026
100 álbuns portugueses

Os 100 Álbuns Portugueses: Bruno Pernadas – How Can We Be Joyful in a World Full of Knowledge? (2014)

Por Jorge Silva Medeiros 10 Ago 2026

Bruno Pernadas não entrou na música portuguesa para escolher um género e ficar por ali. Em How Can We Be Joyful in a World Full of Knowledge?, editado em 2014, construiu um dos universos sonoros mais livres e imaginativos da música portuguesa contemporânea. Jazz, pop, psicadelismo, soul, afrobeat, música brasileira e eletrónica aparecem no mesmo espaço, mas nunca como uma simples coleção de influências.

O mais impressionante é a forma como tudo parece pertencer ao mesmo disco. Pernadas não está interessado em demonstrar quantas coisas conhece. Usa essas referências para construir atmosferas, melodias e pequenas histórias sonoras. O resultado é sofisticado sem ser pretensioso e experimental sem afastar quem simplesmente quer ouvir boas músicas. Mais um disco que não necessita de lugar ou posição, basta constar de um lote de 100 grandes discos.

Um disco que parece estar sempre a mudar

 

 

A abertura com “Ahhhhh” estabelece imediatamente a lógica do álbum. O groove aparece, a voz entra quase como mais um instrumento e a música começa a avançar sem revelar completamente para onde vai.

Depois, o disco muda de cenário. “Indian Interlude” funciona como uma passagem curta e inesperada, enquanto “Huzoor” acrescenta outras cores ao universo criado por Pernadas. Não existe uma tentativa de manter tudo dentro da mesma fórmula. Pelo contrário, a surpresa faz parte da própria estrutura do álbum.

“Guitarras”, uma das peças mais longas, mostra particularmente bem essa vontade de explorar. As guitarras deixam de ser apenas acompanhamento e passam a conduzir a composição, criando um ambiente quase cinematográfico.

É um álbum que recompensa a segunda audição porque pequenas escolhas começam a revelar-se onde antes pareciam apenas detalhes.

Uma banda sonora para imagens que não existem

A dimensão cinematográfica é uma das características mais fortes de How Can We Be Joyful in a World Full of Knowledge?. Muitas das músicas parecem acompanhar cenas de um filme imaginário.

Pode surgir uma guitarra com sabor tropical, depois uma secção de sopros, um teclado espacial ou uma mudança inesperada de ritmo. O álbum desloca-se constantemente entre lugares e épocas, mas nunca perde o fio.

Essa sensação deve muito à forma como Pernadas trabalha os arranjos. Os instrumentos não estão ali apenas para preencher a música. Criam ambientes. A bateria pode mudar completamente a sensação de uma faixa, enquanto os teclados e os sopros acrescentam profundidade e movimento.

O resultado é uma obra muito visual apesar de ser essencialmente instrumental. Cada ouvinte acaba por construir as suas próprias imagens.

O que tornou este disco tão importante

A grande contribuição de Bruno Pernadas foi mostrar que a música portuguesa podia ser experimental sem precisar de se fechar num circuito pequeno. How Can We Be Joyful in a World Full of Knowledge? tem ideias suficientes para satisfazer quem procura música mais complexa, mas também possui melodias, ritmos e momentos de enorme beleza.

Essa combinação é difícil de conseguir. Um disco demasiado preocupado com a experimentação pode tornar-se distante. Um álbum demasiado preocupado com acessibilidade pode perder personalidade. Pernadas encontrou um ponto intermédio raro.

O mais interessante é que as referências internacionais nunca apagam a identidade do compositor. O jazz, o funk, a música brasileira, o psicadelismo e a pop são ferramentas, não destinos. A linguagem final é de Bruno Pernadas.

É por isso que o álbum continua a merecer atenção. Não representa apenas uma excelente coleção de canções. Representa uma maneira diferente de pensar a música portuguesa, com liberdade suficiente para não aceitar fronteiras e personalidade suficiente para não se perder dentro delas.

Ficha do Disco

Ano: 2014
Artista: Bruno Pernadas
Géneros: Jazz, pop, psicadelismo, soul, afrobeat, música experimental
Canções essenciais: Ahhhhh, Huzoor, Indian Interlude, Guitarras
O que o distingue: A capacidade de juntar referências muito diferentes numa linguagem coerente, cinematográfica e profundamente pessoal.

Jorge Silva Medeiros

Jorge Silva Medeiros é técnico de som na RTP e fundador do Música Total, um dos projetos editoriais dedicados à música com maior longevidade em Portugal, dentro da plataformas. Ligado ao setor da comunicação e da música há mais de duas décadas, criou também a Rádio Atlântida e tem desenvolvido um trabalho contínuo na divulgação da música portuguesa, dos artistas emergentes e dos grandes eventos culturais, assim como produção de eventos.

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