Entre o RAP que descobriu na rua, o samba que ouviu em casa e uma herança familiar que atravessa gerações, esta artista construiu uma linguagem onde diferentes ritmos convivem sem fronteiras. “O RAP do meu Samba” nasce desse percurso e afirma uma identidade que começou a ganhar forma muito antes deste novo trabalho.
Com uma trajetória ligada também à produção cultural, ao projeto Samba da Nêga e à criação de espaços para outros artistas, a cantora chega novamente a Portugal depois da passagem pelo Carnaval de Coimbra, em 2024. Nesta conversa, fala sobre as raízes que carrega, a relação entre Brasília e Curitiba, a colaboração com Rodrigo Campos e Criolo, a experiência de regressar a Portugal e os projetos que já estão a preparar o próximo capítulo da sua carreira.
“O RAP do meu Samba” é um título que já contém uma ideia forte de identidade. Quando percebeu que samba e RAP podiam fazer parte da mesma linguagem artística?
Eu sempre lutei por essa união rítmica. Em 2012, o meu primeiro EP já tinha uma colagem de RAP com samba e transformámos um RAP numa faixa bônus com um samba. Esse nome vem para afirmar a minha trajetória.
É filha de sambista e encontrou também no RAP uma linguagem muito ligada à rua. Que lugar ocupa cada uma dessas referências na artista que se tornou?
Não existe mais ou menos espaço aqui dentro. Esses ritmos fazem parte da minha infância. Em casa, o meu pai ouvia samba, a minha mãe MPB e muita música internacional, e, na rua, eu ouvia RAP com os meus amigos. Isso é muito importante para mim porque retrata a realidade do quotidiano brasileiro, que é uma cultura diversa, forte e de grande valor.
O seu trabalho é frequentemente associado à ancestralidade e à música preta brasileira. O que significa, para si, transportar essa memória para uma criação contemporânea?
Significa ser honrada. Sabemos que sofremos um apagamento histórico e, por muito tempo, as nossas raízes foram desvalorizadas. Então, receber essa força significa uma luz para o meu caminho.
“Devoção” é o nome da atual digressão e também de uma das suas canções. O que significa a palavra “devoção” na sua relação pessoal com a música?
Significa entrega, fé e dedicação. A música é a minha profissão, mas também é a minha escola, a esperança de um mundo sem fronteiras. Ela une-me a pessoas e a universos diferentes, além de estimular transformações sociais.
Em “O RAP do meu Samba”, o samba e o RAP parecem deixar de ser dois universos distintos. Foi um processo natural ou houve momentos em que teve de procurar conscientemente esse equilíbrio?
Foi um processo natural. Precisava reafirmar as minhas raízes. Muita gente não sabe que eu comecei a cantar RAP. Para mim, não são universos distintos. É o meu dia a dia, a minha liberdade e o lugar onde fui criada.
Rodrigo Campos assume a direção musical do álbum e Criolo participa no disco. O que trouxeram essas colaborações para a identidade de “O RAP do meu Samba”?
Trouxeram a identidade que eu tanto queria. Tentava explicar que cabia nesse balanço uma batida eletrónica, um tambor dentro de uma métrica que já marca a mesma batida que é o nosso coração. O feat com Criolo fez parte desse caminho.
A sua trajetória passa por Brasília e por Curitiba. De que forma esses dois territórios, com histórias e ambientes culturais diferentes, entraram na sua maneira de fazer música?
Ir para Curitiba fez-me ver o quão precioso é tudo o que eu tinha em Brasília. Nascer num berço carioca e baiano, recebendo tantas coisas boas das minhas avós: música, gastronomia e uma tradição de apoio mútuo. Quando cheguei a Curitiba, vi que era possível colocar essa música na cidade e fui-me unindo ao cenário que, até então, tinha poucas mulheres na linha da frente da música, tanto no RAP quanto no samba.
Em 2014, criou o Samba da Nêga, um projeto ligado ao samba, à cultura negra e à memória da música brasileira. O que aprendeu sobre comunidade e música através desse projeto?
Aprendi que precisamos de ter articulação cultural e que o samba é uma força que alegra o nosso povo. Consegui, com essa celebração ancestral, unir muitos artistas que dedicam a vida ao samba e admiradores da música negra. O que mais gosto neste projeto é a possibilidade de unir todas as idades. O samba é uma filosofia de vida. Tenho orgulho dessa realização com o meu amigo Lucas Cabaña.
O seu percurso cruza música, composição, representação e também empreendedorismo cultural. Essas diferentes dimensões alimentam-se umas às outras ou procura mantê-las separadas?
Eu acabei por me tornar produtora por necessidade. Como sou artista independente e comecei sem empresariamento nenhum, tive de conseguir abrir espaços e acabei por idealizar projetos na busca de propagar a minha música e os artistas que me cercam. Hoje, estou a dedicar o meu tempo a períodos de concertos e de projetos, e isso motiva-me.
Esta é a sua segunda passagem por Portugal, depois da estreia no Carnaval de Coimbra, em 2024. O que ficou dessa primeira experiência e o que espera encontrar agora neste regresso?
Eu já cheguei a ser recebida pela Gira Coletivo, uma roda de samba só de mulheres, e essa sensação de estar em casa emocionou-me. Isso é o que senti na última digressão e que, de facto, estou a viver. Espero sentir e viver essa energia novamente.
A atual passagem por Portugal combina concertos com rodas de samba e uma roda de conversa. O que muda na relação com o público quando a música sai do formato tradicional de palco?
Eu acredito que esses momentos aproximam o artista e trazem um senso de unidade. De onde eu venho, tudo foi construído com muito apoio dos meus fãs, então esta é a melhor forma de entregar ao público toda essa arte.
Depois desta viagem e de “O RAP do meu Samba”, que caminhos gostaria de explorar na sua música? Existe já alguma coisa a nascer para o próximo capítulo?
Já temos um disco de remixes que vai fortalecer essa mistura, com produção do DJ Will (SP/Sintonia) e Eduardo Mangue, com participação especial de Jairo Pereira, Mel Duarte, e tenho surpresas.
Estamos a finalizar um filme, um documentário sobre a minha vida. E já estou na pré-produção de um novo disco. Então, sugiro que ouçam “O RAP do meu Samba” e desfrutem.
