Uma expressão aparentemente errada pode dizer muito sobre o lugar de onde vem uma canção. Em AÇORIANO SEM SOTAQUE, striikxr não limpa a linguagem para a tornar mais neutra. Faz o contrário. Deixa Feteira, São Miguel e a maneira açoriana de falar entrarem no rap. E talvez seja precisamente aí que esteja a descoberta deste primeiro EP.
“Correr tanto rápido”.
Para quem lê a expressão fora dos Açores, alguma coisa parece não encaixar. A construção escapa à norma e a primeira tentação pode ser corrigi-la.
Dentro de “Sou das Ilhas”, acontece outra coisa.
A expressão faz parte da personalidade da canção. Não está ali como explicação sobre os Açores nem como decoração regional. Aparece naturalmente no discurso de um artista que não parece preocupado em retirar da música as marcas do lugar de onde vem. A utilização da expressão no tema foi também destacada na recepção crítica ao EP.
E talvez seja essa pequena frase a melhor entrada para perceber striikxr.
Feteira entra no beat
Antes do EP já existiam sinais.
Em 2025, striikxr lançou “Açores”. Em abril de 2026 chegou “Feteira Figueira”, colaboração com Spatriple9. O próprio título colocava a geografia dentro da música antes de alguém carregar no play.
Depois veio AÇORIANO SEM SOTAQUE.
Editado a 17 de julho de 2026, o primeiro EP reúne cinco faixas e pouco mais de uma dezena de minutos de música: “Sou das Ilhas”, “Lifestyle Açoriano”, “Tou a Ficar Bom”, “Baby” e “Passo a Passo”. Sandro G2 participa em “Lifestyle Açoriano” e Project 1 entra em “Baby”.
Mas a sequência interessa mais do que a ficha técnica.
“Sou das Ilhas” apresenta imediatamente o território. “Lifestyle Açoriano” junta guitarra e uma pulsação próxima do rap latino, enquanto Sandro G2 acrescenta outra voz açoriana ao tema. “Tou a Ficar Bom” aposta mais diretamente no refrão e no impacto vocal. “Baby” baixa a temperatura, aproxima-se do R&B e abre espaço para flows mais rápidos. No final, “Passo a Passo” desloca novamente a sonoridade para uma linguagem próxima do Detroit rap.
São referências diferentes dentro de um projecto muito curto.
O que as une não é um único tipo de beat.
É a personalidade.
Quando falar “errado” passa a estar certo
É aqui que AÇORIANO SEM SOTAQUE se torna mais interessante do que o título inicialmente deixa perceber.
O português falado nos Açores tem ritmos, construções e vocabulário próprios. Durante muito tempo, sair das ilhas para comunicar para um público nacional podia significar aproximar a linguagem de uma pronúncia considerada mais neutra.
No rap, essa lógica pode inverter-se.
A maneira de falar torna-se som.
A pronúncia altera o flow.
Uma expressão local pode funcionar como assinatura.
O que numa frase escrita poderia ser corrigido passa a ter outra função quando entra numa canção.
striikxr percebe isso.
Não é preciso fazer uma música tradicional açoriana para produzir música profundamente ligada aos Açores.
Pode usar-se um beat contemporâneo.
Pode ouvir-se R&B.
Pode entrar Detroit.
Pode haver referências internacionais.
E Feteira continuar lá.
Esse talvez seja o detalhe mais interessante deste EP.
A açorianidade não aparece como género musical.
Aparece como perspectiva.
Cinco faixas chegam para mostrar uma voz
Também seria fácil exagerar aquilo que AÇORIANO SEM SOTAQUE representa.
Não estamos perante uma carreira consolidada nem perante um álbum que pretende definir o futuro do rap açoriano.
É um EP de estreia.
Cinco músicas.
Um artista ainda a experimentar linguagens e a descobrir até onde pode levar o projecto.
Mas existe uma coisa que já começa a distinguir striikxr.
Sabemos de onde vem.
E não apenas porque Feteira ou Açores aparecem escritos nos títulos.
O território entra na maneira de construir as frases, no humor, nas colaborações e na própria atitude com que ocupa os beats.
Isso vale mais do que tentar fabricar uma identidade através de uma fotografia, de uma biografia ou de uma descrição promocional.
A identidade já está dentro das músicas.
Antes de sabermos até onde vai chegar
O rap sempre teve uma relação profunda com o lugar.
Bairros, cidades, ruas e comunidades transformaram-se em vocabulário musical porque os artistas não precisaram de apagar a origem para serem compreendidos fora dela.
Talvez striikxr esteja a começar a fazer algo semelhante à sua escala.
Feteira não precisa de desaparecer para a música atravessar o mar.
Pode acontecer exactamente o contrário.
Quanto mais específico for o ponto de partida, mais reconhecível pode tornar-se a voz.
Ainda é cedo para perceber até onde esta música vai chegar.
E talvez seja precisamente isso que torna interessante ouvi-la agora.
Antes dos grandes palcos.
Antes de uma discografia extensa.
Antes de sabermos o que virá depois.
striikxr já deixou uma pista importante.
Antes de sabermos até onde a música pode chegar, já sabemos de onde ela vem.
Sabias que?
striikxr integra o universo dos Feteira Boyz, que também inclui nomes com quem já trabalhou. Antes do EP, colaborou com Spatriple9 em “Feteira Figueira” e participou em “Blessed” com holden e Xais. AÇORIANO SEM SOTAQUE foi editado sob a chancela feteira boyz.
Ficha do Lado B
Artista: striikxr
Origem: Feteira, São Miguel, Açores
EP: AÇORIANO SEM SOTAQUE
Lançamento: 17 de julho de 2026
Faixas: 5
Território sonoro: Rap, hip-hop e R&B
Colaborações no EP: Sandro G2 e Project 1
Lado B: a linguagem e o território deixam de ser simples referências e passam a fazer parte do próprio som.
Vale a pena ouvir
Começa por “Sou das Ilhas” e presta atenção à linguagem. Depois segue para “Lifestyle Açoriano”, onde a identidade regional convive com referências musicais exteriores, e termina em “Passo a Passo”.
É nesse percurso que o título AÇORIANO SEM SOTAQUE começa a ganhar outra graça.
Não porque o sotaque tenha desaparecido.
Precisamente porque não desapareceu.
